8 coisas pra saber antes de encarar as famosas baladas de Berlim

Sempre que falam muito sobre algo, você tende a se perguntar: esse hype vale a pena? É isso tudo mesmo? Quando o assunto é Berlim e música eletrônica, pode acreditar no hype. Ao desembarcar nessa cidade, em poucos dias você chega à certeza de que não há energia igual. Enquanto outras cidades da Alemanha podem transmitir as impressões de trabalho duro, eficiência e seriedade comumente relacionadas ao povo alemão, Berlim acaba ficando bem fora dessa curva.

Já me disseram que Berlim é uma cidade de artistas, de quem não tem muita ideia pra onde está indo, de quem coexiste em um grande ambiente que tem, ao mesmo tempo, muitos caminhos e nenhum. A sensação que dá é bem essa mesmo. Existe uma leveza e uma liberdade generalizadas permeando aquelas ruas e, apesar de o verão europeu ter certas vantagens, Berlim como um todo tem um acordo implícito entre todo mundo que é um só: aproveitar. São inúmeras as opções de lazer e consumo de arte e cultura que a cidade oferece.

berlim1 Foto: Reprodução

A vida noturna da capital alemã, entretanto, é bem peculiar e dificilmente você encontra algo parecido em outro canto do globo. Conhecida pela forte cena clubber voltada às vertentes do techno — mas tem de tudo, desde que seja em torno do que aqui conhecemos como underground — Berlim talvez seja um dos lugares que mais obtiveram sucesso em conservar uma cultura de pista tão autêntica e fascinante. É mesmo uma cidade pra se perder. Se você tem a intenção de ir pra lá futuramente, guarde este post.

Com as memórias da minha estadia de um total de 40 dias ainda bem frescas na minha cabeça, decidi comentar um pouco do que é curtir essa cidade, debaixo da luz de um sol de julho que nasce por volta das 4h da manhã e se põe apenas às 21h, e do escuro da noite que se recusa a dormir.

berlin watergate O club Watergate, em Berlim, fica à beira do Rio Spree // foto: Schultze & Krause Lichtdesign

Alguns trechos fazem soar como se os alemães fossem escrotos ou muito apegados a regras, mas não se confunda: a noite berlinense gira toda em torno da ideia de resistência e, dentro de todas as suas singularidades, as pessoas são em sua maioria bem legais e extremamente respeitosas, e a maioria dos estrangeiros que moram na cidade — muitíssimos, por sinal — ou que passam uns dias turistando por lá acabam entrando no clima e embarcando noite adentro curtindo do jeitinho berlinense de ser.

Aqui estão 8 coisas que você precisa entender sobre a esbórnia sônica dessa cidade topperzíssima que é Berlim. Tem até umas dicas de alguns clubs que eu fui enfiadas aí no meio. Vambora:

A jaula da pista do subsolo do club Tresor // foto: Reprodução (Resident Advisor)

1- Nunca mais você vai dormir

Já pode ir se acostumando a tomar vitamina C, D, E, X, Y, Z todos os dias. Sua saúde vai agradecer. Berlim é a definição de festa. E é impressionante a quantidade de opções e a naturalidade com que você vai apenas "seguindo o fluxo". Grande parte dos clubs da cidade faz festa por dois, três, quatro dias sem parar ou no mínimo abre três ou quatro vezes na semana.

Berlim vai quebrar quaisquer costumes que você tenha adquirido em uma cidade com vida noturna tradicional. Você é carimbado no antebraço quando entra em uma balada, e isso permite que você saia e entre de novo depois. É uma mão na roda.

Você pode ir em um bar na sexta, chegar na balada logo após, e quando já é sábado de manhã te convidam pra uma afterparty em outro lugar, daquelas que acabam só no outro dia, e lá vai. Daí é sábado à noite e você ficou cansado. Tudo bem! Volta pra casa, dorme, acorda no domingo de manhã e vai pra outra balada. Deu domingo à noite e bateu saudade daquela balada que você foi dias antes, quando ainda era sexta? Desde que seu carimbo esteja visível, você pode voltar sem problema algum. Tem lugares que operam até terça-feira. Dormir é para aposentados.

O Club der Visionaere é conhecido carinhosamente como CDV e custa uma média de apenas 5 euros para entrar // foto: Clovis Bouhier

2- Berlim vive o momento

É muito comum entrar em uma balada por lá e se deparar com um segurança mandando colocar adesivos nas lentes da frente e de trás da câmera do seu celular. Se você quer passar vergonha, experimenta ficar tirando fotos na pista. Se usar o flash, então, mancada. Terá sido sorte não levar esporro depois de uma cena dessas. Desapegue-se do Instagram e aproveite a festa. Desconecte-se e interaja com a música e com as pessoas.

3- Berlim é barata pros amantes de balada

É óbvio que pra quem ganha em reais o euro sempre vai ser uma fortuna. Mas enquanto, por exemplo, em Londres você não entra num lugar maneiro por menos de 20 libras, em Berlim você consegue curtir pra caralho pagando entre 8 e 15 euros pra entrar — e com a vantagem do já mencionado carimbo no antebraço.

Pra quem gosta de beber e comer entre as idas e vindas, tem uma quantidade gigantesca de night shops nas ruas dos bairros mais movimentados. São as lojas de conveniência que ficam abertas 24h vendendo de tudo. A variedade de cervejas deliciosas e baratas é de fazer o queixo dar check-in no chão. Além disso, o fato de a cidade abrigar a maior colônia de turcos do mundo te garante a certeza de encontrar praticamente em cada esquina uma lanchonete com aqueles kebabs enormes e bem baratos — entre 2 e 4 euros.

O jardim do About_Blank // foto: reprodução

4- Berlim não ostenta

Berlinenses não curtem muito gente rica. De um modo geral, são pessoas consideravelmente simples, satisfeitas com seus carros econômicos e seus apartamentos conjugados. Pode até ser que você encontre alguma baladinha ostentação com playboys vestindo Lacoste e cheirando a Lancôme, mas não é nesses lugares onde mora a essência da vida noturna da cidade. O glamour da noite de Berlim é o decadente mesmo. Janelas quebradas, jägermeister baratinha, paredes pichadas, pistas estilo galpão. E nem pense em perguntar se tem camarote. Não seja essa pessoa.

O lance de usar um pretinho básico não é mentira — muita gente vai assim — mas não é exatamente uma regra. É apenas meio que cultural mesmo. Todo mundo ali é igual e ninguém se importa com suas jóias, seu colar brilhante, seu salto agulha, sua maquiagem ou seja lá o que for. O que se valoriza ali é o conforto de uma noite sem firulas nem complicações. É você, o som, a pista e as pessoas ao redor.

O Hoppetosse é um club sazonal que começa lá pra outubro e acontece em um barquinho estiloso. // foto: reprodução (Resident Advisor)

5- Os clubs berlinenses são únicos

“Genérico” não é uma palavra que consta no vocabulário das baladas de Berlim. Cada cantinho noturno (ou diurno, porque né?) daquela cidade tem seu próprio charme.

Se você vai pro Club der Visionaere, você se depara com uma forma muito diferente de curtir a noite: um bar enorme à beira do rio, com uma pista minúscula tocando vertentes mais minimalistas da música eletrônica. Já no Kater Blau — definitivamente meu favorito — espere um público bem da paz, em um local enorme, cheio de ambientes bonitos e interessantes que abrem e fecham em horários diferentes, artistas pintando paredes, muita fumaça, banhos de regadores pendurados em varais logo acima de você e muito ar livre.

É da turma dos pesados? Vai se achar no Golden Gate ou no Sisyphos. Curte um subsolo, um labirinto, gente muito jovem? O Tresor é o seu lugar. Quer um antro tecnológico neon, tipo um D-Edge da vida? O Watergate é pra você. Tá afim de experimentar grandes salas burlescas com filme pornô passando nos telões? Compre camisinha e vá ao KitKat. Não ouse perder o belíssimo jardim do About Blank... e assim por diante, ad infinitum. Existem muitos clubs MESMO.

O KitKat foi criado por um diretor de filmes pornô... você já pode imaginar como são as festas por lá, né? // foto: reprodução

6- Você pode sim ser barrado em qualquer lugar

Pra curtir a noite berlinense, um dos principais aspectos para os quais você tem que preparar o seu psicológico são as políticas de porta. Existe um pensamento de que o Berghain é um club especial porque barra a entrada das pessoas, mas o buraco é mais embaixo. Isso pode acontecer em muitos lugares.

Já quase fui barrado no Tresor porque eu tinha uma cara de perdido — acabamos entrando porque provamos que conhecíamos o lineup. Dependendo do dia, o Club der Visionaere tem um bouncer bem acostumado a torcer o nariz pra todo mundo. O About_Blank aparentemente não é muito fã de gringos paqueradores de fila. Já fui barrado no KitKat e descobri que na real eu não estava “sexy o suficiente”. E nem ia adiantar se eu fosse pra casa, botasse uma calça látex preta com a bunda de fora e voltasse pra fila: os caras parecem ter memória de elefante.

Está indo com um grupo de amigos muito grande e barulhento? Melhor já ir pedindo pra acalmarem os ânimos. Exagerou na pré-party e chegou na fila bebaço, fritaço ou mais chapado que o Snoop Dogg? Comporte-se, ou poderá ser barrado também. E eu não estou te dando dicas infalíveis ou informando critérios fixos, pois nem sempre são seguidos à risca — nem sempre são seguidos, na real.

Ainda que existam pessoas que quase nunca são barradas em lugar algum — Berlim tem seus tipos — o importante é que quanto mais você entender que você não é um floquinho de neve especial e que o cool é não querer aparecer, mais você vai curtir a noite de Berlim, onde os clubs tentam colocar pra dentro as pessoas que eles têm certeza que combinam com a proposta daquela noite.

O Kater Blau possui vários ambientes e muitos estímulos sensoriais. // foto: reprodução

7- A pista de dança é sagrada

Os alemães são pessoas diretas ao ponto e conseguem ser bastante saudosos em relação à pista. É como um filho pra eles. Se você estiver falando alto com alguém ali no meio, não se ofenda se alguém te cutucar e disser “com licença, será que dá pra calar a porra da boca?”. Quer passar a noite paquerando? Talvez seja melhor ligar o Tinder e se virar, porque ninguém vai querer te ouvir por tanto tempo. A pista de dança é feita pra dançar.

O melhor de tudo: esqueça seu passado de encarar perrengue em festa lotada. Na maioria dos clubs berlinenses você vai ter muito espaço pra dançar. Eles se importam mais com o seu conforto do que com o seu dinheiro e quase nunca vai entrar tanta gente a ponto de ficar difícil andar pelo lugar. Esqueça também aquela coisa de comprar fichas ou guardar comanda: praticamente em toda a Europa você dá o dinheiro na hora e recebe o troco na hora somente pelo que você quer consumir no momento.

Outro ponto que torna mais confortável a sua experiência nas pistas de Berlim é o fato de que em todos os clubs rola aquele esquema reciclador super eficiente que você paga a mais pelo copo da bebida e recebe de volta o dinheiro uma vez que devolva o copo. Assim as pessoas são meio que obrigadas a ter consciência e respeito pelo zelo do lugar, que fica praticamente livre de lixo no chão.

Interiores do Berghain // foto: Jan Nichavakis

8- Você não precisa ficar obcecado pelo Berghain

Pense que cabem umas 2.500 pessoas no Berghain e em dias movimentados como os sábados tem gente do mundo inteiro fazendo a fila tomar proporções quilométricas. É o clube mais famoso do planeta e o lugar é tão turístico quanto a Torre Eiffel. No mínimo o dobro de gente vai tentar entrar, e os critérios pra conseguir, apesar dos "manuais" que se encontra na Internet, muitas vezes parecem ser super aleatórios. Às vezes os bouncers mal olham pra você e pronto: “hoje não, queridão”.

É tudo tão impessoal que é impossível se sentir mal. Segue em frente, acessa algum site informativo da noite tipo o Resident Advisor e aproveita outras dezenas de boas opções de balada que estão rolando. Muito frequentemente você vai acabar em um club mágico com DJs incríveis e pessoas maravilhosas e vai pensar: “porra, ainda bem que o Berghain me barrou, parece coisa do destino”. Porque ter bons momentos em Berlim é assim: coisa do destino.




Rodrigo Airaf no Instagram.
Stereo Minds no Facebook.

Foto de capa: Reprodução

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas, daquelas músicas que tocam a alma e de tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Bebe pra caralho. Gosta de experiências. Grato pela vida.

Publicidade

Participe da conversa