A nação dos fritos está forte como nunca. E agora?

Ele sempre me deixa feliz, nunca me deixa irado
Ele faz eu me sentir ótimo mesmo quando estou triste
Mas se você procurar o meu amigo, você não vai achá-lo
Pois ele é uma pequena pílula chamada EcstasyRob Gee - XTC You Got What I Need, hit gabba de 1998

Falar de música eletrônica sem falar de drogas é como falar de história da arte sem falar de religião: não dá pra desprender os dois. O jornalista musical Simon Reynolds, em seu ótimo livro Energy Flash, definiu a música eletrônica como uma “cultura baseada em drogas”. Não poderia estar mais correto. As drogas têm papel na vida dos jovens e a música eletrônica sempre teve forte relação com elas, em especial com o ecstasy (ou MDMA), a “droga do amor” que foi revolucionária na vida dos jovens nos anos 80 e 90 e tem sido até hoje.

Essa “cultura baseada em drogas” se manifestou na própria música. Por anos, muitas músicas nas raves falavam direta ou indiretamente sobre ecstasy. Era quase o culto da pílula colorida. E essas músicas frequentemente entravam no Top 10.

Tudo o que aconteceu na dance music teve drogas no meio, em maior ou menor escala, seja o house em Chicago com o LSD e com o ecstasy, o jungle e o trip hop na Inglaterra com a maconha, a obsessão dos nova-iorquinos por cocaína ou os próprios artistas de dance music sendo usuários. Talvez só o techno em Detroit não teve drogas como parte tão evidente da cena.

Os avanços nas tecnologias de iluminação e sound-system foram em grande parte impulsionados de forma a fazer o efeito de drogas ser uma experiência cada vez melhor ao usuário.

Qualquer relação que você faça entre o nome desta música e o super-aquecimento do corpo durante uma viagem de ecstasy não é só coisa da sua cabeça.

O MDMA foi proibido assim que se soube do seu uso recreacional na vida noturna — era legal nos EUA até 85 e nesse período os jovens podiam comprar a droga até na porta da balada — e entrou erroneamente direto na categoria das drogas mais perigosas, junto com a heroína, a cocaína e outras. Ok, o governo se depara com uma substância que todo mundo está usando pra se divertir e tem que tentar controlar isso de alguma forma, afinal não querem que aconteça algo como foi a Irlanda louca por 48 horas.

O resultado da proibição: a curiosidade da juventude pra usar ecstasy foi atiçada de vez e os fornecedores da droga, agora oficialmente traficantes, começaram a misturar um monte de porcarias dentro das pílulas.

A liberdade de dançar estranho sem ninguém julgar ninguém.

Na Europa, a febre foi tão grande que rolou o Second Summer of Love: dois verões seguidos quando o MDMA se fundiu à música eletrônica e juntos varreram o Reino Unido com clubs excepcionais e raves ilegais gratuitas. O cara popular da faculdade, o nerd tímido, a gostosa, a gordinha, o doidão de dreads, o magrelo estranho de aparelho nos dentes despistavam a polícia e se reuniam aos milhares em um lugar dentro ou fora da cidade pra curtir, sob efeito do ecstasy, a dance music da época..

As pessoas começaram a ter novas visões de mundo e de suas prioridades: o fulano que odiava seu emprego desistiu desse emprego, a fulana que não conseguia se relacionar bem com pessoas agora conseguia, alguns dos mais violentos fãs de futebol então faziam rodas de abraços em vez de rodas de porrada, saíam dos estádios direto pros clubs. Felicidade artificial correndo dias e noites adentro.

carinha feliz acid house A carinha amarela feliz foi o grande símbolo do acid house e do Second Summer of Love, sendo mostrada nos flyers do Shoom. Tão simples, tão emblemático, tão fácil de ser confundido por mães desavisadas.

Nos EUA, país com mais barreiras sociais, o MDMA agiu como uma força agregadora. Pela primeira vez se via na vida noturna americana héteros, gays e negros convivendo juntos dentro dos clubs. Juntos pela música eletrônica. A exceção novamente aconteceu no techno em Detroit, onde foi inicialmente muito difícil a convivência pacífica entre brancos e negros nos clubs depois que os brancos tentaram tomar a cena que era predominantemente negra.

No Reino Unido, a relação da dance music com o ecstasy transformou clubs como o Shoom e o Haçienda em verdadeiras lendas.

A famosa rave gratuita em Castlemorton, na Inglaterra, em 1992, virou notícia nacional. A polícia não conseguiu parar 20 mil raveiros. Pros moradores da vila, devastação. Pros raveiros, celebração à música e doce transgressão.

Se nos lugares onde havia toda aquela galera tocando dance music, produzindo música nova e levando inovação à pista de dança, dançando ao som de dance music, alimentando e fazendo crescer uma cultura que na época era underground em essência e caminhava rapidamente — mesmo que nunca silenciosamente — se naqueles lugares também havia uma legião de gente drogada dançando acid house sob teto abafado ou na rua despistando policiais e invadindo lugares pra festejar, então eu abraço isso. Porque foi o que aconteceu, é parte da nossa herança e hoje temos o eletrônico como temos.

O ecstasy e a música uniram-se. Era tudo parte do pacote. Isso pode soar um tanto triste, mas sem o ecstasy, de forma alguma o acid house teria sido o que foi.Nicky Holloway, DJ oitentista e um dos quatro caras que levaram o acid house de Ibiza ao Reino Unido

É lógico que nada é só flores. O ecstasy nos anos 80 era como o cigarro nos anos 40: todo mundo usava, mas ninguém se ligou no que poderia rolar a longo prazo. Uma mesma galera que em 89 mandava 6, 8, 10 balas pra dentro do corpo por noites seguidas durante todos os fins de semana foi a mesma que pouquíssimos anos depois transformou parte das pistas de dança na zumbilândia.

Eles estavam sérios, introspectivos, uns já demonstravam sinais de depressão e alguns dos mais hedonistas desenvolveram problemas como paranoia, e quem já tinha transtorno bipolar piorou. Tornaram-se adeptos do poliuso (mistura de várias drogas) porque o ecstasy sozinho não fazia o mesmo efeito de antes ou achavam que não faria.

Algumas mortes aconteceram e a imprensa tomou conhecimento de tudo; a guerra ao ecstasy piorou, mas o pessoal continuou usando. Alguns artistas do hardcore, vertente famosa nas raves dos anos 90, quiseram mostrar a decadência da relação rave-drogas em suas músicas.

“Desculpe-me, Sr. Kirk, mas seu filho está morto” “Morto? Como?” “Ele morreu de overdose”

Se é mesmo decadente ou não, é uma questão delicada se não irrelevante. O ecstasy está pro eletrônico como a cocaína está pro rock, por exemplo. Eu me dei licença pra usar um estereótipo, já que as drogas são utilizadas por pessoas e não por música. E é aí que eu quero chegar: engana-se quem acha que drogas “mancham a reputação da cena”.

Na verdade, apoiar uma “guerra às drogas” somente porque sabe que são proibidas ou porque quer “proteger a reputação da música eletrônica” não resulta em nada a não ser colaborar pra que jovens que querem se divertir sejam chamados de escória. O discurso do Diga Não é ingênuo e perigoso. Ninguém ganha com isso e ninguém deixa de usar drogas por conta disso.

diga não às drogas
Funciona tão bem quanto mensagem anti-tabaco em embalagem de cigarro.

A diversão então pode se tornar um pesadelo quando não sabemos com o que estamos lidando. E é aí que acontecem tragédias. Afinal, basta o fato de ser proibida pra não termos acesso a informações exatas do que tem dentro daquela pílula que você arrumou do seu dealer, que arrumou de outro cara, que arrumou de não sei lá quem que a trouxe de algum laboratório em algum buraco que ninguém conhece.

A questão da pureza também deve ser considerada. A recente tabela do Project Know sobre o que realmente tem dentro das pílulas de ecstasy é um tanto aterrorizante e mostra que nem sempre você vai sentir o efeito que gostaria.

Se você tomar 20 comprimidos de Tylenol de uma vez, você vai danificar seu fígado. Mas as pessoas leem a bula. Com MDMA, você tem um jovem pensando ‘Bom, tomar uma é bom, mas seis é melhor, e que tal se nós cheirarmos?’. Você está aumentando o perigo. As pessoas não sabem o que estão colocando no corpo e elas tomam demais. Se você quiser fazer uma droga ser mais perigosa, torne-a underground.John H. Halpern, professor da Escola Médica de Harvard, em conversa com o The Atlantic

Não existe dose 100% segura de droga alguma, da mesma forma que não existe, ao menos não no contexto de vida noturna, consumo 100% seguro do álcool. A diferença é que o álcool não é um tabu. Com drogas, a mídia, o governo e muitos civis fazem o possível pra não falar sobre o assunto a não ser de forma punitiva. Isso é ruim.

Elas existem e ninguém deu sinal de que deixará de usá-las tão cedo. Elas estão aí.

Há de se admirar, por exemplo, o fato de que no ano passado, no intervalo dos sets dos DJs, o EDC Vegas fez questão de lembrar ao seu público — usando a sua tradicional filosofia PLUR — pra que ajudem uns aos outros, pra que ofereçam água ou uma mãozinha a qualquer pessoa que esteja ao seu lado que pareça estar passando mal ou prestes a passar mal. Essa educação tem que ir além dos textos e se tornar parte da realidade da noite, em festivais ou não, sem tabus.

As pessoas vão continuar usando ecstasy do mesmo jeito que vão continuar usando álcool. Nós temos mais chances de direcionar as pessoas a comportamentos de menor risco se a droga for pelo menos parcialmente reguladaAlex Wodak e Gideon Warhaft, especialistas no assunto que escreveram no The Guardian após duas mortes no festival australiano Stereosonic.

Os gringos estão à nossa frente ao lidar com tudo isso. Amsterdam tem um prefeito só pra cuidar de assuntos da noite holandesa, e o cara se sente na liberdade até de puxar a orelha de outros países se vê que eles estão agindo meio errado em suas “lutas contra as drogas”. Los Angeles finalmente deixou de ser hater de festivais pra começar a propor redução de danos. Afinal, alguém aí já viu um jovem deixar de morrer de overdose porque um festival foi cancelado?

Campanha de drug awareness da Insomniac com DJs famosos.

Festivais no Canadá às vezes tornam possível que os participantes testem suas drogas na portaria. São kits que você usa pra misturar substâncias reagentes às drogas e descobre se o que você comprou é realmente o que achou que seria. É muito mais honesto do que mandar as pessoas pra cadeia só porque quiseram dropar quitutes num rolê.

Também rola isso no Boom Festival em Portugal — o mesmo país que descriminalizou a posse de qualquer droga há mais de uma década e hoje se orgulha da redução de 50% em viciados em heroína. Os kits de teste de drogas são comumente usados e vendidos pelo projeto americano Dance Safe. Alguns festivais fazem eles mesmos o trabalho de alertar antecipadamente sobre droga X que veio meio afetada e que pode prejudicar a segurança do seu público.

No Brasil nós ainda engatinhamos, mas já existem iniciativas focadas na redução de danos em festivais. O Coletivo Balance atua há 10 anos no festival Universo Paralello, trabalhando na prevenção e conscientização do uso de drogas de forma segura. Essa galera implementou o SOS Bad Trip que recebe raveiros em bad trips durante as festas. Eles também montam stands informativos e disponibilizam testes colorimétricos.

Dance Safe testando drogas em uma festa underground.

Reconhecer que muitos jovens usam drogas e que isso é uma realidade frequente em festivais e também em eventos menores é o primeiro passo pra conscientização e pras mudanças. A nação dos fritos está forte como nunca; então sejamos realistas sobre isso. Fritar não é o problema, o problema é se perder na ignorância ao comprar um discurso conservador. E desde quando somos conservadores?




Observações:

- Não é preciso dizer que não é um artigo da Stereo Minds que vai fazer alguém começar a usar drogas.

- O Brasil é um país tropical e tem festival e festão rolando o ano todo. Se você usa drogas e deseja ser mais informado sobre o tema, pesquise. Existem alguns sites que podem te dar uma luz sobre efeitos, cuidados e mais. Confira o ótimo TripBy.

Se você for um pouco mais malvado(a) e curtir um poliuso, tenha cuidado e use esta tabela do TripSit pra ficar mais a par de quais combinações são perigosas pra você.

Pra quem manja de inglês, tem o app da Dance Safe, que promove dicas pra curtir suas raves com mais segurança. Na web, os visitantes do Drugs Forum fazem um monte de debates e relatos e tiram muitas dúvidas.

No Brasil, existem coletivos e grupos que atuam na perspectiva da redução de riscos e danos em festivais, como o Respire RD e o já citado Coletivo Balance. Conheça também os apps 420 e Redução de Danos.

E mais importante ainda, esteja junto com seus amigos.

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas e de tudo o que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Deixa os deuses do eletrônico tomarem conta da sua vida. Gosta de experiências.

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