Um dos clubs mais importantes da noite paulistana, relembramos o sucesso da Alôca

Quem passa pela rua Frei Caneca em São Paulo no horário comercial e vê o local discreto que é o 916 não é capaz de imaginar a carga histórica, musical e underground que reside neste endereço e que dura mais de duas décadas. No último dia 08, o Alôca comemorou seus 21 anos de existência com uma super festa + after hours reunindo grandes personalidades que em algum momento se destacaram na cena desse inferninho tão adorado.

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21 anos de casa não é pra qualquer um!

Limusine na porta, tapete vermelho, canhão de iluminação e pequenos detalhes adicionais na decoração já são tradicionais nas comemorações de aniversário da casa. O clima era tipo reunião de amigos, daqueles encontros que você revê a turma da escola ou antigos vizinhos, só que com gente muito mais interessante. No som, uma loucura só: durante a noite um mix de nostalgias, muita Madonna, Cher, Amy Winehouse, até Spice Girls com direito a DJs fazendo coreografia na cabine. No after hours, nomes como Julião, Renato Cohen, Pil Marques, Glaucia ++, Lishy, Ronald e França ajudam a contar diferentes épocas do auge da música eletrônica por lá. Os clássicos da dance music também estiveram presentes durante toda a noite no Lounge com os queridos Marcelo Saturnino, Dany Bany, Nagel e Diego Tavares.

aloca3 Performer Kaká di Polly de Rainha de Copas, que é o simbolo da casa, recepcionando os convidados.

Deu Alôca!

Mesmo que você não conviva diretamente com gays, é muito provável que você já tenha escutado a expressão "alôca" sendo dita por alguém em alguma ocasião. Em 1995, Nenê Kravitz, promoter que conceituava o clube, atendeu o telefone desta forma e então surgiu o nome do lugar e a gíria, ambos vivos até hoje. Quem decorou o local foi o mesmo cara que criou os cenários do Castelo Rá Tim Bum da TV Cultura, decoração que está intacta e lembra uma caverna gótica suave. E se hoje em qualquer canto do Brasil existem after parties, saiba que Alôca foi pioneira nisso aqui nas terras tupiniquins — juntamente com o importantíssimo Hell´s Club — sendo por um período o único after em funcionamento no país.

Com os djs Mau Mau e Renato Lopes como primeiros residentes, e a primeira casa a residir o carioca Felipe Venâncio, Alôca chegou de mansinho mas não demorou muito pra cair no gosto de freaks de todos os tipos que buscavam mais um lugar pra curtir loucamente a noite de SP. O DJ Ronald Pacheco foi o criador do primeiro after do club dedicado ao techno. Esse time foi aumentando, novos projetos surgindo, e tudo evoluiu fazendo do final dos anos 90 até meados de 2006 a era de ouro do techno por lá. Por muitos anos Alôca foi lembrada como maior templo underground do país. O techno estava em evidência na época, e na Lôca ele foi muito influenciado pelo DJ Edinei, que além de ter sido residente também tinha uma loja de discos na então famosa Galeria Ouro Fino. Então foi só juntar a fome com a vontade de comer e temos na história da Lôca um período intenso de apresentações de DJs gringos.

Ade Fenton, Altern8, Axel Bartsch, Chris Liberator, Christian Fischer, Cristian Varela, Dan Physics, DAVE the Drummer, Godfather, Ian Cruickshank, Inigo Kennedy, Jeff Swing, Liza German, Marco Lenzi, Mark E.G., Pascal Feos, Patrick Skoog e Terry Mitchell são só alguns dos nomes que passaram por lá.

É importante lembrar que nessa época a internet ainda não era tão difundida aqui no Brasil, ou seja, era bem mais difícil obter informações, músicas, contatos. A forma com que tudo aconteceu na Lôca foi muito incrível; os brazucas bons eram muito mais valorizados e muita gente acabou sendo descoberta por lá também, que é o caso do DJ Nisek, que continua firme e forte na carreira, atualmente residente da festa mensal Vault em SP:

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A primeira vez que eu fui na Lôca foi num sábado em 1997. Apesar de frequentar outros clubes há 5 anos, eu fiquei bem impressionado com o visual cavernoso e também com a liberdade que o público tinha para se expressar lá dentro. Anos depois, minha primeira apresentação lá foi um momento inesquecível. Entrei às 7h da manhã e o set foi até às 11h com a pista lotada, e como o pessoal da casa gostou do resultado, passou a me convidar mais vezes até eu me tornar residente mensal. Independente dos horários que toquei, todas as minhas lembranças da pista da Lôca são muito boas.

Frequentei a casa não só pra tocar, lá foi um dos primeiros lugares a trazerem DJs gringos de techno. Muitos nomes famosos passaram por lá e um que muito me marcou foi Dave the Drummer tocando pela primeira vez num club. O Brasil ainda não tinha o costume de ouvir acid techno 'de rave' dentro de clubs, e na Lôca ele virou o povo da pista de cabeça pra baixo. Como frequentador, foi a noite mais marcante que tive lá.

Nos anos em que a era do techno reinou na Lôca, não importava o horário que você chegasse ou o dia que você fosse, era certeza de ouvir um bom som, de encontrar algum conhecido pois a pista era lotada do início ao fim e por pessoas que iam porque realmente curtiam o som. Atualmente, eu confesso que é bem difícil acontecer esse lance de você entrar num lugar e saber que vai valer a pena.

Com a chegada da noite System do DJ França, que era uma noite exclusivamente de techno às sextas-feiras, o clube conseguiu dar visibilidade para vários outros djs assim como eu, que a partir de então receberam convites pra tocar em outras casas. Por isso só tenho gratidão ao clube. Graças à oportunidade que me deram por lá eu consegui crescer como DJ dentro do cenário da época.Nisek

O rolê era regional e o techno era rei!

Alôca também atraiu pessoas de várias cidades nem tão próximas assim. Era muito comum conhecer semanalmente pessoas que moravam na região de Campinas, Vale do Paraíba, Sorocaba, litoral de SP, de outras cidades mais afastadas e saber das histórias sobre suas pequenas viagens só pra curtir a noite. Na Lôca a facilidade de conhecer gente sempre foi surreal! Além disso, algo que sempre existiu por lá e que não vemos tanto em outros lugares é que os DJs, quando não estão tocando, também são público e estão interagindo — sem essa de estrelismo.

Da turma de Campinas surgiu com destaque a dupla Eto&Gab, que foram residentes e mantiveram sua agenda entre SP e Campinas em grandes eventos de techno por um longo período de tempo. Atualmente Eto, ou Osclighter como também é conhecido, tem viajado bastante representando muito bem o Brasil musicalmente. Ele também nos deixou seu depoimento sobre sua experiência com Alôca como DJ e frequentador:

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Duas coisas que podemos afirmar do Alôca é que indiscutivelmente é um dos maiores redutos do underground de São Paulo e também que o que se passa no Alôca, fica no Alôca. De todas as maneiras, é muito bom recordar com carinho algumas das noites memoráveis do Alôca e eu poderia dizer também atemporais, pois há mais de 13 anos estava lá Inigo Kennedy, um dos personagens mais influentes na minha carreira como músico e DJ e que continua fazendo um trabalho soberbo. Essa noite e outras como a do Cristian Varela ficaram marcadas na memória de muita gente, bapho!

O Alôca foi um marco muito grande na minha vida, por eu ter feito parte como DJ residente, e por ter sido a maneira mais honesta de verdadeiramente ser graduado pela pista desse clube mítico que ainda vai deixar muitas histórias para contar.Eto

O DJ e produtor mineiro Anderson Noise, um dos principais nomes brasileiros quando se trata de música eletrônica, também teve passagem pela Lôca. O seu trabalho incessante e intenso durante mais de 2 décadas de carreira incluem apresentações em mais de 30 países e mais de 40 EPs lançados.

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Alôca é um clube que eu tenho um carinho gigante apesar de já ter um tempo que não me apresento lá. Sempre gostei da mistura que a lôca soube fazer de publico, do clima... é incrível ver há quantos anos ela está aí sem parar e sem desistir. Adoro a casa e o público. Pra mim foi uma honra fazer parte dessa história. Parabéns e desejo muitos outros anos de comemorações!Anderson Noise

Mara Bruiser vivia em Londres e arrebentava no hard techno por lá no final dos 90, confesso até que por um curto período de tempo achei que ela fosse gringa, mas pra minha alegria em 2001 recebi um flyer que anunciava que ela desembarcaria diretamente na Loca, e assim aconteceu!

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Só conheci a Lôca ("Doida" é como nós carinhosamente a apelidamos) em 2001 quando voltei a morar no Brasil. Havia um projeto às sextas lá organizado pelo DJ França que se Chamava System e com certeza era onde bombava o techno underground paulistano. Sempre lotada e suada, essas sextas arrepiavam! Na sequência vieram a Another Level do DJ Alemão, que tinha uma edição mensal só com mulheres no line up. Another Level Girls Night era onde se apresentavam as top djéias da cena techno brasileira e internacional, noites inesquecíveis!

Em meados de 2006 tive minha própria sexta na Loca: Mara Bruiser and Friends, onde recebia DJs de techno nacional e internacional, e projetos de outros djs como o Music is Music, do DJ e produtor Ronaldo Vetro. As sextas na Doida nos anos 2000 eram as melhores! Não havia lugar melhor para o techno paulistano. Só ia quem era technohead de verdade! Good Old Days!!Mara Bruiser

Maroka para os íntimos, atualmente vive na praia com os filhos e tem uma vida tranquila por lá, mas não resiste o convite quando a festa é boa e sobe a serra pra nos prestigiar com seus sets incríveis!

Fábrica de estrelas

Foi na época do auge do techno na Lôca que a Ana e o David se transformaram no PetDuo. A dupla mais incrível do hard techno foi responsável por muitas noites inesquecíveis na Lôca! Logo que fizeram sua primeira turnê pela Europa, caíram no gosto de muita gente e ganharam o mundo por onde passaram devido ao grande talento e forma peculiar de tocar que possuem. Ficaram um tempo na transição entre São Paulo e Berlim, mas por lá se estabeleceram e até hoje continuam tocando suas batidas pesadíssimas, muitas vezes em sets apresentados com 6 decks e 2 mixers nos principais festivais de techno do mundo.

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Alôca foi muito importante pra nós, ali que aprendemos realmente a tocar. Foi a primeira casa que abriu as portas pro nosso som e por uns belos 3 anos foi muito bom tocar ali!PetDuo
PetDuo se apresentando no festival Monegros (Espanha) em 2014. Como estamos bem representados no hard techno nesse planeta!

O poder da noite começa com a hostess

Dizem que a primeira impressão é a que fica, e nosso primeiro contato ao chegar num club é com a hostess. Dentre todas as hostesses que já vi por lá, todas incríveis, a Arethusa foi a primeira a me receber. Sempre com um sorriso no rosto, look impecável, sabe o nome de praticamente todos os frequentadores da casa. Minha amiga pessoal desde que frequento Alôca, sempre quis saber o que a manteve lá por tanto tempo.

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Venho de outras extintas casas como Sound Factory e Over Night, mas estou somente na Lôca há 17 anos atuando como hostess, e às vezes também fico no bar.
Desde que cheguei na Loca sempre fui hostess e por isso conheci muita gente e vi muitas histórias inesquecíveis e inacreditáveis. O que me fez permanecer todo esse tempo? Com certeza foram os clientes! Fiz grandes amizades por lá, e também por gostar de lugares sem frescura e sem carão, ainda mais quando se trata de balada gay, não encontro isso em nenhum outro lugar. Arethusa

A festa só acaba quando termina

Se você curte se jogar num after e estiver em São Paulo, o nome Julião precisa ser lembrado. São quase 3 décadas de carreira desse cara que esteve na Lôca desde o início. Conhecido por ter participado de toda a história de afters no Brasil e estar ativamente recebendo convidados ilustres até hoje em seu projeto atual "Vai ter After Depois", DJ Julião já tocou durante sua carreira ao lado de grandiosos nomes da música eletrônica mundial como Armand van Helden, DJ Hell, Erick Morillo, Jerome Hill e muitos, muitos outros.

Para comemorar seus aniversários, Julião sempre faz uma maratona com pelo menos 24 horas de festa e sempre com convidados pra lá de especiais. Algumas dessas comemorações já aconteceram na Lôca e são históricas.

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Toco na Lôca desde o início de funcionamento da casa, já tive vários projetos residentes lá. Dentre tantas e tantas histórias vividas ali dentro e todos os convidados que já tive, minha melhor lembrança foi minha festa de aniversário com o DJ Godfather. Nesse dia, a Lôca foi ao chão, fila na esquina pra entrar... inesquecível!Julião

Além do aniversário com Godfather, tem outra noite que considero inesquecível onde Julião tocou com Altern8 que foi de cair o cu da bunda:

Partes e final do set do Altern8 tocando com Julião na Loca em clima de clubinho

Liberdade e diversidade

Habitantes da Lôca! Esse foi o nome da comunidade mais bombada criada por um frequentador da casa em tempos de Orkut. Esse nome com certeza serviu pra representar algo que aconteceu fortemente lá: quem curtiu voltou, e voltou MUITO! Existiram várias galeras que se formaram lá e que frequentaram de verdade o clubinho assiduamente, habitando mesmo a caverna.

Alôca foi o lugar que conseguiu misturar todo tipo de gente, que deu espaço a todo tipo de minoria, fez dividir pacificamente o mesmo espaço clubbers gays, hétero, bi, tri, travas, drags, Mauricios e Patrícias cansados da mesmice, crossdressers, andróginos e toda nomenclatura usada para designar as pessoas exóticas, modernas, diferentes e incomuns e isso foi maravilhoso! A montação sempre foi 1000% permitida e muitos dos habitantes da Lôca seriam facilmente confundidos com personagens do famoso filme Party Monster (a mais famosa de todas sem dúvidas é a Elloanígena).

aloca10 Habitantes da Lôca

aloca11 Elloanigena e Pauletti Pink dando pinta na Lôca

aloca12 Maria Alice Vergueiro do vídeo Tapa na Pantera, comparecendo na festa de lançamento da noite também chamada "Tapa na Pantera" que durante anos lotou Alôca nas noites de terça-feira. Ela não só compareceu como subiu no palco, se declarou a vovó do underground e ofereceu um chá pra todos!

Ser quem você é e ser respeitado por isso fez muita diferença pra que Alôca se mantivesse por 21 anos de portas abertas.

Comecei a frequentar muito Alôca em 1998 e peguei uma fase ótima da casa, um dos melhores after hours que já teve em SP que foi o Wicked, as noites da Ana e do David e, além de fazer muitos amigos fortaleci a amizade com pessoas de lá que eu já conhecia, como Arethusa e Nagel. Pra mim, Alôca é um lugar histórico.

Quem é clubber desde os anos 90 até hoje e nunca pisou na Alôca não é clubber! Alôca foi um divisor de águas na minha vida. Vivi muitas coisas boas lá dentro, e obviamente algumas ruins mas isso faz parte da noite. Lá foi muito importante pra aquisição da minha identidade como gay, como pessoa e pro meu trabalho como hostess. Adquiri muita experiência lá vendo aquilo tudo acontecendo, de estar lá dançando com aquele povo, dando close com as bees todas! Sempre foi tudo muito divertido.

O que não pode faltar ao falar da Alôca é o Grind. A primeira festa de rock gay em SP que frequento desde que ela existe e era só uma matinê. O Pomba que é maravilhoso abriu as portas não só do clube mas até da casa dele pra mim. A festa é incrível e continua até hoje salvando nossos domingos. Já discotequei, já fiz performance de Ava Adore do Smashing Pumpkins e sujei todo mundo de sangue cenográfico (muitos risos). Eu vivi intensamente o Grind e as outras festas da casa!

Espero que Alôca comemore muitos outros aniversários, pois lá todo o staff é maravilhoso e merecedor.Xampy

Xampy é um clubber paulistano que viveu intensamente a noite em São Paulo desde os anos 90. Trabalha atualmente como Hostess em diversas festas e é nome de um curta-metragem que conta em resumo sua história, também intensa. O curta já foi exibido em festivais em mais de 20 países, e vale a pena ser conferido:

O legado do Grind

Seria mesmo muito injusto falar sobre a história da Lôca sem citar o Grind. O projeto idealizado pelo DJ André Pomba em 1998 parecia absurdo. Tocar rock para o público gay enquanto a música eletrônica estava vindo com tudo tinha grandes chances de ser uma grande furada. Foi um risco, pois não havia nada nem de longe parecido com isso acontecendo no Brasil, mas a verdade é que esse projeto foi a grande sacada e o responsável por transformar Alôca num local icônico.

O Grind tem tudo a ver com Alôca, uma salada musical que parece loucura, mas que deu e até hoje dá muito certo nas noites de domingo, encerrando apenas nas manhãs de segunda e também às quintas-feiras. Toque sucessos de Depeche Mode, Smiths, New Order, The Cure, adicione várias épocas de Madonna, Cher, Spice Girls, Alanis Morrisete, Hanson, e sem medo de errar misture com Indie, pop, mais anos 80... a fórmula do Grind consistiu em tocar esse turbilhão de coisas que jamais seriam misturadas, num clima descontraído e com convidados ilustres pra discotecar.

O sucesso do Grind foi tanto que ficou bem pop na primeira metade da década passada. Muitos famosos começaram a dar as caras por lá. Luciana Gimenez, Ana Paula Arósio, Maria Gadu, Eliana, Otávio Mesquita, Suplicy, Gretchen, James Franco e muitos outros famosos se arriscaram sendo pessoas comuns por lá. Marina Lima já até citou Alôca em sua música, e a festa de lançamento do filme A Concepção também foi realizada no Grind.

Com a virada do milênio e tudo isso acontecendo, Alôca se tornou referência da diversidade em São Paulo. Por alguns anos, Alôca chegou a participar com 2 carros na parada gay na Avenida Paulista em SP, e já chegou até a participar da parada no Rio também.

GrindZine foi um fanzine gratuito do Grind que teve 75 publicações e era entregue na Lôca. Isso foi bem incrível, pois mostrou a todo gay admirador de rock a conexão entre esses 2 mundos num tempo em que a informação não era tão facilitada como hoje. Todas as edições são facilmente encontradas online e possuem traduções de música, matérias incríveis, fotos, curiosidades e testes.

A festa chegou a ser indicada 3 anos seguidos como melhor noite de São Paulo. O idealizador e dj André Pomba foi premiado em 2000 como melhor promoter, mesmo ano em que Michael Love ganhou como Personalidade da Noite, figura carimbada que ficou famosa por suas performances e seus gritos na porta: "Pague pra entrar, reze pra sair"!

O cineasta Lufe Steffen é também autor do livro Tragam os Cavalos Dançantes, que foi lançado em 2008 quando o Grind fez 10 anos e também falou conosco sobre Alôca, o Grind, o livro e a noite.

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A loca foi um lugar muito importante na existência de uma cultura de noite, um lugar livre onde você podia viver suas experiências mesmo que pitorescas de amor, sexo, ferveção, exercer sua personalidade, sua sexualidade, ser quem você é e ao mesmo tempo com boa música, dança, enfim, os reais fundamentos da noite. Talvez hoje ela não tenha mais tanto essa força, mas já teve principalmente no final dos 90 e na primeira década do século XXI. Falamos da força da loca em geral, mas a grande revolução foi a noite de domingo Grind a partir de 1998, e através disso ela ganhou força pras outras noites também. Antes do Grind, se um gay quisesse ouvir rock ele teria que ir num lugar hétero. Hoje isso parece não ser muito importante, mas na época não era assim, então foi uma grande revolução você poder ouvir o som que você gostava e ao mesmo tempo ficar com as pessoas que você queria.

Aloca acabou virando um espaço de liberdade, foi um grande marco na cidade, tanto que virou moda, ficou famoso, todo mundo queria estar lá pois lá era "o lugar" pra ver e ser visto, era o lugar certo na hora certa e você queria ser a pessoa certa ali. Foi um momento muito intenso de noite, onde você não precisava mais combinar com alguém de ir lá, você podia ir sozinho pois fatalmente encontraria alguém e a noite seria incrível.

Foram tantas emoções vividas que não dá pra citar só uma. Eu adorava discotecar lá, a pista sempre era quente e você tinha liberdade de arriscar tocar coisas estranhas pois as pessoas estavam dispostas a descobrir, coisa que atualmente não rola mais.

Além de viver muitas peripécias pessoais, via amigos e pessoas vivendo e contando as histórias sempre com muita efervescência, com muita euforia, e então decidi registrar tudo isso num livro chamado Tragam os Cavalos Dançantes, que saiu em 2008 comemorando os 10 anos do Grind. É a minha maior contribuição pois o livro é um mosaico de uma época, onde entrevistei pessoas que contaram suas histórias dentro desses 10 anos — hoje a festa já está quase nos seus 20 anos de existência.

Foi uma época muito bacana, e esse momento áureo da loca reflete um período de liberdade no Brasil. Ainda não estávamos vendo essas coisas horrorosas que vemos hoje, agressões, assassinatos, e toda essa reação homofóbica e conservadora contra os gays. Foi um momento muito feliz, Alôca foi um símbolo dessa época quando ainda as coisas não estavam tão esquisitas. Estamos num momento estranho, bizarro, e isso reflete na noite. Aloca foi um dos últimos lugares onde você pode viver a energia da cultura clubber de verdade, de participar dessa contracultura por assim dizer, de uma forma intensa. Depois disso poucas coisas aconteceram e só agora que começaram surgir outras festas que parecem ser o novo caminho pra que tenhamos uma noite liberta. Mesmo ela não tendo a força e a importância que ela já teve, é um lugar que sempre vai ser respeitável. Devemos respeitar a imponência da história da loca.Lufe Steffen

Lufe é conhecido por seus filmes com temática LGBT premiados em vários festivais e mostras de cinema pelo mundo e Alôca já foi cenário pra ele em Os Clubbers Também Comem (1999) e A Volta da Paulicéia Desvairada (2012).

Com certeza todos que escreverem sobre a história da Lôca não serão capazes de expressar com clareza tudo o que ela representa pra história da noite no Brasil, será sempre só uma amostra histórica de coisas que lá aconteceram. De todas as pessoas que entramos em contato, não houve quem respondeu de forma negativa, confirmando assim o que Lufe registrou. A alôca com toda sua história e imponência só merece uma coisa de todos que curtem a noite: respeito.

Alguns dos flyers históricos do clube

1 ano

6 anos

alex bartfch

another level

christian fischer

dave the drummer

glaucia ++

ian cruickshank

jeff swing

inigo kennedy

mark EG

mixbrasil + dia das criancas

natal

petduo

system

terry mitchel

trade

Mil agradecimentos a todos que participaram desta matéria <3

Samuel Carvalho く(._.) ゝ

Autor // Paulista, 29 anos, publicitário, maluco por trance, amante de um bom techno, minimal e eletro, muito jovem, falador, adora descobrir tudo de novidade musical e falar sobre, fumante de cigarro de menta sim, odeia falar no telefone, bebe com muito gosto uma cerveja bem gelada sempre que pode, curte tomar guaraná no festival e é o louco do mentos.

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