Brazil Music Conference 2018: o que teve na conferência dos amantes de dance music?

Quem me conhece de perto sabe que não poupo recordações sobre como o Brazil Music Conference foi essencial no meu crescimento profissional. Foi o ambiente onde rolou todo o alinhamento dos planetas e fatores necessários pra que eu literalmente conseguisse meu primeiro trabalho na dance music em 2016, e vejo a história repetir-se com outras pessoas edição após edição da conferência, fazendo esse filme todo rebobinar na minha cabeça e me incentivando a voltar todo ano, desta vez como palestrante, pra quem sabe conseguir ajudar os próximos no mesmo caminho que trilhei.

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Abertura da conferência não falta. O BRMC é comumente um trabalho em conjunto de todo o cenário, e se você tem algo a mostrar e a vontade de contribuir, o BRMC é também seu e ele te espera. Eu mesmo tive a oportunidade de inaugurar a The BOREAL Agency — sim, este merchan brotou na tela do seu computador, berrou e saiu correndo — nos mesmos dias da conferência e foram inúmeros os benefícios em fazer parte de tudo aquilo. Conversar com pessoas com objetivos em comum, vincular convicções, trocar contatos, fazer debates e até mesmo desconstruir alguns paradigmas são coisas fundamentais no desenvolvimento profissional e é de se imaginar que muita gente saiu dali com a cabeça borbulhando de ideias.

brmc 8 Maria Angélica Comis, Coordenadora Geral do É de Lei

A Stereo Minds fez parte da conferência como media partner oficial, e agora que estou devidamente descansado vamos relembrar um pouco do que rolou neste super rolê que durou três dias pra quem só fez negócio e quatro pra quem dançou um bocado depois.

As pessoas

Costumo dizer que se você não fez contatos no BRMC foi porque você não quis. Com a participação de profissionais de vários escopos do cenário, é fácil trocar figurinhas com DJs, jornalistas, promoters, publicitários, fotógrafos, professores, bookers e tudo mais, em ambientes propícios a exercícios de produção de conhecimento, empatia, curiosidade e respeito. Agradecimentos especiais à Maria Angélica Comis (É de Lei) e ao Gabriel Pedroza (ResPire), que participaram do painel sobre Redução de Danos que a Stereo Minds fez por lá, no que foi uma sequência de verdades sobre tudo relacionado ao tema, desde problemas na política aos tabus mais terrenos — só que quem gravou o painel foi a House Mag porque a gente se ama e limite a gente não tem muito mesmo. Assista aqui.

brmc 5 Gabriel Pedroza, Redutor de Danos no projeto ResPire RD

As marcas aclamadas do mercado que apareceram por lá foram muitas, entre elas Universal Music, Só Track Boa, Sympla, Green Valley, Ambev, Pioneer, Aimec, DOC Records, Plusnetwork, Xxxperience, Som Livre, Live Nation, Abramus, D-Edge e mais um bocado.

No segundo dia, pude conhecer a maravitop Rivkah, conterrânea de Brasília que (pre-pa-ra) tem apenas 10 anos de idade e é a mais jovem produtora de música eletrônica do mundo de que se tem notícia. Só que de alma ela parece ter uns 25 mesmo, tomando o controle do ambiente com simpatia, carisma, pontas roxas estilosíssimas no cabelo e muito amor pelo trance e brazilian bass. Pra alguém que começou tão cedo é porque ama muito o que faz, e se ama muito o que faz o futuro é bem promissor.

Os espaços

O Unibes Cultural demonstrava ser um bom local pra atender a conferência quando este era anfitrião das edições regionais paulistas. Bonito e bem localizado perto do metrô Sumaré, no BRMC10 o Unibes foi um alívio pra todo mundo que sentia falta de um lugar mais arejado e cheio de boas áreas pra fazer networking, características ausentes no Museu de Arte do Rio (local antigo da conferência, no Rio de Janeiro). O defeito é o tamanho das salas: as duas salas principais eram boas, mas quanto ao restante, salvava-se quem podia.

Sobre a mudança da sede do Rio pra São Paulo, não há o que eu possa dizer sem acabar soando como aquelas pessoas anti-biscoito que encaram SP como a “dona do Brasil”, e por isso logo peço desculpas, mas é que você sente a energia da cidade, sabe? Um movimento constante e pulsante que você pode ver e sentir nas ruas, nos parques, na noite, em tudo, um lugar sempre ligado nos 220 volts com todo mundo realmente perseguindo seus objetivos (algo como uma Nova Iorque brasileira), e eu percebia a diferença até mesmo na abordagem das pessoas na conferência. O Rio de Janeiro está no meu coração — lá eu morei três vezes — mas a conferência da Cidade Maravilhosa pareceu uma memória bem distante perto do que acontece em São Paulo quando o assunto é oportunidade e ebulição cultural voltadas pra indústria da música do presente e do futuro.

brmc 4 Térreo do Unibes Cultural

Outro lugar maravilhoso escolhido pelo BRMC foi o terraço do MAC (Museu de Arte Contemporânea), que abriga o restaurante Vista, com um ventinho fresco que tornava agradável dançar ao som de house music e conversar com outras figuras do mercado e, principalmente, com um visual de cair o queixo que deve ter feito muito promoter cogitar fazer festa naquele espaço. E por falar em qualidade e em espaço de cair o queixo, foi com chave de ouro que o BRMC encerrou sua conferência no que é muito provavelmente meu club favorito em terras tupiniquins atualmente, a Ibiza no Brasil, a tenda de todas as tendas, o sonho eletrônico em plena Valinhos: Laroc club.

laroc

Programação e curadoria

Apesar de a completude da programação do BRMC ter sido entregue praticamente nos 45 do segundo tempo e cheia de alterações repentinas que num sentido diplomático não facilitaram praqueles que se planejaram pra participar da conferência, o resultado no fim das contas foi positivo levando-se em conta a relevância dos temas que rolaram por lá — estava pior que lineup de festival, bem difícil de escolher o que assistir em todos os momentos, já que quase tudo despertava interesse — e o esforço da equipe (que é claramente menor do que o ideal pra realizar um evento deste porte) pra fazer uma entrega o quanto melhor fosse possível.

brmc 14 Carlla Bastos, uma maravilhosa super-expert em Marketing Digital que participou ativamente da conferência

De todo o pouco que eu pude assistir no meio do redemoinho do networking, um dos destaques foi o painel da Gabi Loschi, da Boreal (no merchan intended), chamado “Conquistando a Imprensa: Como Divulgar Seu Projeto de Forma Cativante”, onde por motivos óbvios de espaço não couberam todos os players da imprensa de música eletrônica que muitos esperavam (Alataj e Play BPM, por exemplo) mas ainda assim deu pra mostrar que a imprensa está cada vez mais unida, profissional e mais disposta a eliminar a bullshittagem de conteúdo. Filmei aqui no meio de um resfriado incontrolável e recomendo a todos que ainda têm dúvidas de como emplacar aqueeeela pauta num veículo especializado e querem saber as opiniões de Flavio Lerner (Phouse), Carlla Bastos (Mkt e Etc), Jacidio Junior (Omelete), Nathalia Birkholz (Tropi.Press) e Igor Rodrigues (Apex Music).

brmc 2 João Anzolin (Subtropikal) e Marcelo Madueño (Tantsa)

O Women’s Music Event fez um painel liderado por uma de suas fundadoras, Claudia Assef, que dissecou junto a Eli Iwasa (Caos/Club 88), Tânia Saraiva (Tune Agency) e Aninha (Seas) a questão da pouca presença de mulheres nos lineups brasileiros. Um tema similar rolou em uma edição anterior, mas o aproveitamento de agora foi muito maior, pois as convidadas escolhidas realmente fizeram jus ao tema e quebraram quatro, cinco, talvez dez tabus, com direito a um vrá da Eli Iwasa na cara da sociedade sobre a imensurável carga superior de energia que uma mulher, em comparação a um homem, deve depositar em seu trabalho pra ser reconhecida no mercado.

brmc 12 Eli Iwasa durante o prêmio Heads of the Industry

Também em um painel apresentado pela Assef pudemos ver os olhos do Gui Boratto brilhando no Teatro do Unibes enquanto explicava o conceito do seu novo álbum, Pentagram, explorando as simbologias envolvendo o tema enquanto na caixa de som ouvíamos as faixas inéditas do álbum rolando ao fundo. Foi difícil prestar atenção em tudo ao mesmo tempo com um ouvido de alcance em túnel como o meu, mas só Deus sabe o quanto eu quero este álbum.

Outros painéis que posso destacar: “Marketing Artístico: A Alquimia Para Gerar Demanda”, com JORD, Juliano Polimeno (Playax), Matheus Tavares (HUB Recors) e Maurício Soares (Alma); “Os Desdobramentos da Nova Era LGBTQ”, com Andre Almada (The Week), Caca Ribeiro (Jerome, Lions e Yatch) e Guga Rahner (HH Entretenimento); e o DemoDayz, que eu perdi, mas todo mundo me disse que é tão legal que eu tive que colocar aqui.

brmc 19 Ju Cavaltanti (King Festival), Siofra McComb (!K7) e Amanda Chang (D-Agency)

Já sobre a distribuição de temas entre as salas, é compreensível que a curadoria do BRMC queira direcionar os painéis e workshops com participantes mais prestigiados para as salas maiores, mas na prática isso não parece ser sempre o que dá certo. É com frequência que painéis com temas mais requisitados pelos DJs, como alguns aspectos da produção musical, marketing e relacionamento, ficam abarrotados de gente em territórios mais “Lado B” como os que haviam no segundo e terceiro andares — vi pessoalmente o painel com convidados da imprensa resultar em uma fila que desceu dois andares da escadaria de emergência e vi, também pessoalmente, painéis no Teatro (a sala do Unibes com as maiores dimensões) com ocupação bem menor do que a metade permitida.

brmc 20 painel da AIMEC no BRMC

O que temos, então, é um erro recorrente da conferência, unanimemente reiterado por várias pessoas com quem conversei, demonstrando uma certa insistência do BRMC em deixar pra lá a oportunidade de equilibrar um pouco mais a relação espaços x temas de prestígio x temas de desejo, questão que infelizmente já não é muito facilitada pelo pequeno espaço que o Unibes Cultural ofereceu pra uma conferência que almeja ser cada vez maior e mais internacional. Talvez um estudo mais aprofundado de público ajude-os a perceber que a imensa maioria dos participantes da conferência são DJs aspirantes, emergentes ou recorrentes do mercado, e que eles merecem se preocupar menos com a possibilidade de ficar de fora de alguma palestra.

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Homenagem BRMC

De um modo geral, rankings e premiações no Brasil são no mínimo problemáticas para um nicho como o nosso. Em uma cena que parece não ter chegado ainda ao seu máximo de tamanho e maturidade, é muito fácil as marcas, artistas e outros projetos se sentirem lesados diante da exposição privilegiada de outros players do mercado, além de que as votações nos anos anteriores do que chamávamos de Prêmio RMC ficavam nas mãos de embaixadores de Norte a Sul cujas opiniões e preferências podem ser muitas vezes naturalmente parciais.

Fazendo uma manobra que agradou a muitos, o BRMC resolveu transformar o Prêmio BRMC em Homenagem BRMC - Líderes da Indústria, destacando figuras específicas do mercado e reconhecendo sua contribuição pro ecossistema da indústria da dance music no nosso país, cada uma por um motivo em especial e não exatamente uma categoria, aspecto bem interessante desta cerimônia.

brmc 11 Claudio Filho (o cara que é o BRMC em pessoa), Claudia Campa (a maravilhosa multi-tasker simpaticíssima que leva muito do BRMC nas costas), Franklin Costa (um dos mais experientes pesquisadores do mercado do entretenimento) e Erick Dias (se você já pirou na Xxx, dê graças a ele)

O outro lado desta moeda é que essa mudança inevitavelmente coloca ainda mais responsabilidade nas mãos da conferência, que precisará provar-se nas próximas edições, apresentando uma diversidade de homenageados da maneira mais justa e imparcial possível para assim evitar a mesma “negligência” que alguns profissionais questionavam nas premiações anteriores.

Os homenageados desta edição foram:

- Alok, “por colocar a dance music brasileira no topo do mainstream internacional” Junior C, “pelo agigantamento frente a uma dificuldade”
- Erick Dias (Xxxperience), “pela consistência de reinventar e moldar um festival brasileiro ao longo do tempo e gerações”
- Roland Leesker (Get Physical), “por trazer um olhar diferente para o mercado latino americano, sob a perspectiva internacional”
- Gui Boratto, “pelo talento e maestria em continuar inspirando novas gerações”
- Mau Mau e Anderson Noise, “pelos 30 anos de carreira”
- China (Mothership D-Edge), “pela importância do papel do promoter para o desenvolvimento de uma cena e a condução de uma noite que atravessou gerações imponentes na noite de são paulo” - Renato Cohen, “pelo pontapé inicial”
- Gabe, “pelos 20 anos de carreira com extrema consistência”
- Sandro Horta, “pelas grandes turnês internacionais em solo brasileiro ao longo de anos”
- Eduardo Philipps, “por gerenciar o melhor clube do mundo, em solo brasileiro”
- Gustavo Rassi (Warung), “pelos anos de conhecimento compartilhado através de management de artistas”
- Memê, “por sempre conectar o pop com a música eletrônica”
- Mario Sérgio (Laroc), “pela prova de que grandes sonhos tornam-se realidade”
- Claudia Assef e Monique Dardenne (Women's Music Event), “por colocar a mulher em destaque na indústria da música”
- Caio Taborda (Gop Tun), “pelo poder coletivo de renovação de um cenário musical”

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 24 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Vivo amando coisas diferentes em diferentes momentos, mas meu coração sempre afixou-se no Stephan Bodzin e no Porter Robinson; naquele techno mais macumbeiro, naquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, naquelas músicas que tocam a alma e em tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Gosta de experiências. Grato pela vida.

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