Por que os clubs estão em baixa no sudeste brasileiro?

Uma grande mudança está acontecendo na cena noturna do Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Estamos vendo surgir uma quantidade significativa de festas nas principais capitais e um certo desinteresse das pessoas em frequentar clubs. E queira você ou não, essas festas são o que há. Ao mesmo tempo, muitas pessoas estão sentindo falta dos clubs (inclusive eu) e, por isso, escrevi esse texto para tentar explicar o que está acontecendo, na minha visão, com a ajuda de depoimentos de alguns profissionais do mercado.

GabrielQuintão.com The Year, uma das opções noturnas de São Paulo. Foto: Gabriel Quintão

Má administração; falta de direção artística e programação adequada; atendimento e serviços ruins; staff mal preparado; filas imensas na entrada — muita boate segurava a fila pra parecer que tava bombando —; a própria mudança de comportamento do público; preços altos; e curadoria duvidosa foram alguns motivos para o público não se sentir mais atraído em frequentar os clubs. Não que as festas sejam mais baratas — às vezes são até mais caras — mas muitos clubs não se tornaram relevantes e interessantes ao longo do tempo.

A tendência de festas itinerantes emergiu em São Paulo e Rio na última década e se estabeleceu como a maior forma de entretenimento para os que curtem a vida noturna. Hoje em dia, a oferta é gigante com eventos de diferentes tipos de som, estilo e preços — muitos são de graça na rua. O sucesso desse tipo de festa, aliado a uma busca contínua por novas experiências fez com que os clubs perdessem parte do atrativo. Além disso, são poucas as casas noturnas do Brasil que conseguem oferecer ao mesmo tempo uma curadoria musical afiada, espaço amplo/confortável e preço acessível, elementos que diversas festas têm conseguido disponibilizar ao público.Inacio Martinelli, redator Projeto Pulso

Resultado: parte dos clubs fecharam as portas, as festas foram crescendo e isso colocou o mercado de casas noturnas (principalmente as mais comerciais) em baixa no Rio e em SP, diferente do Sul do Brasil. Vemos a falta de empresários com boas ideias e dinheiro para investir em bons clubs, seja do pequeno ao superclub, além do momento econômico não muito favorável no país.

Acho que vivemos o pior momento e fase dos últimos 15 anos - enquanto algumas pessoas dizem que é o melhor. Não temos opções de clubs, não tem como julgar o que não temos. Acho um erro falar que o público prefere festas, pois não temos clubs para as pessoas irem. Boa parte dessa culpa associo à má administração e pessoas que abrem um club para "tirar onda", fazendo do seu empreendimento um playground, que agora cansaram e fazem festas. Festas nunca substituirão clubs, porém ambos têm sua importância no mercado.Marcelo CIC, DJ e produtor

Desde sempre escuto muita gente reclamando que a noite do Rio e de SP está ruim mas, além das festas que estão rolando, temos alguns bons clubs nesses lugares: Privilège, Air Rooftop, Clash, The Year, D-Edge, 00, Silk Beach Club, Sirena e Fosfobox são alguns deles.

Eu não gosto de extremos; uma noite baseada apenas em clubs e sem festas é perigoso e chato, e vice-versa. Acho importante ter essas festas grandes, pois elas geram uma experiência muito bacana pra quem vai, até pela duração, que é mais longa que nos clubs. As festas têm esse poder da novidade, mesmo num local que as pessoas já conhecem, pois vivem uma nova experiência, já que têm outra decoração e aspectos diferentes. Aqui no Sul não temos essas festas; 80% da noite funciona nos clubs, que ditam a noite. A minha opinião é que vão pipocar pequenos clubs em breve no Rio e SP para no máximo 250 pessoas.Sandro Horta, sócio-fundador da DJcom
ee2293fc-ae19-45c3-8aa3-5d4d2b15ed17 (1)Air Rooftop

No Rio, por exemplo, tem um núcleo grande de festas sazonais bem legais acontecendo, não só de música eletrônica. De um lado temos Love Sessions, Rio Me, RARA, Base, Noon, ODD, Music Motion, Selvagem, Azteca, Moo.

De outro, festas com temáticas mais pop e "open format" onde toca-se de tudo um pouco, focadas em diversos tipos de público que não ligam de se misturar na pista. Aí estão Scheeeins, The BlackHaus, Hashtag, Vambora, Brasa BBQ, Rocka Rocka, Baile do Zeh Pretim, Nas Internas, Baile da Favorita, Modinha, Carrapetas, Sopa, Manie Dansante, Fica Comigo, Bailinho e Pool Me In, fora os projetos de curta temporada como Cafe De La Musique, Projeto V, H.A.R.A.S. e Jack Daniels Rock Bar, que funcionam melhor sazonalmente.

Além disso, temos o boom dos festivais de 2014 pra cá e o aumento na quantidade de shows, as festas de rua, a quantidade de blocos no Carnaval que não para de crescer a cada ano e o crescimento dos bares, que levam uma parte significativa do público que quer sair com os amigos e busca opções mais baratas de diversão.

A longevidade de um club se dá devido a consistência e a constância na sua abertura. Escuto muito sobre a queda dos clubs x festas no Rio de Janeiro e realmente concordo; nos últimos anos conheci poucos profissionais empenhados em fazer a diferença em seus clubs. O público quer novas experiências sim, mas por que não criá-las dentro do próprio club? Volto a dizer, abrir um club é fácil, o difícil e muito raro de se ver são proprietários de clubs investindo na profissionalização criativa de seu staff, programação e comunicação.Paula Miranda, gerente de operações, curadora artística e booker do Grupo Privilège Brasil

Clubs voltados para o público LGBT como a antiga Le Boy também estão fechando, pois parte das pessoas agora acaba preferindo ir a festas onde o público se mistura, o que reduz a demanda por locais rotulados. Champanherias e dining clubs com DJs, muito tradicionais nos Estados Unidos e na Europa, estão abrindo como opções para jantar e comemorar aniversários sem percorrer madrugada adentro, como Bagatelle, Ovelha Negra, Blankara e Skye Bar. Sunsets nas praias do Rio com DJs também, como o do Riba, Bar do Lado e Classico Beach Club começam a bombar no verão.

raraFesta RARA

O grande “boom" tem a ver com as gerações mais novas. Minha geração de 30 e poucos viveu a época das boates e a nova geração é muito diferente, respira novidades o tempo todo e quer as coisas rápido, não necessariamente o melhor, mas querem experimentar o novo. Ninguém quer ir em lugar ruim, mas as pessoas se preocupam em ter uma experiência inovadora, isso está na frente de ser muito bom e depois experimentar novos lugares. O que fazemos hoje em dia no Palaphita Gávea, por exemplo, é uma boate que opera em regime de eventos. A pessoa vai no mesmo lugar, mas a casa sempre está diferente, desde a temática, a estrutura até as atrações e os estilos musicais e, pra mim, isso é o que faz um club durar tanto tempo hoje em dia. Eu tenho saudade das boates e como tudo na noite é cíclico, espero que elas voltem. Até pela economia do país, o evento mesmo sendo mais informal em tudo, é mais rentável para os produtores.Bruno Malta, produtor de eventos

Mas e as "baladas ostentação"? Essas sim, vemos talvez o fim de uma era; a “desglamourização” na noite onde o importante era luxo, dresscode, entradas caríssimas e doors que selecionavam quem deveria entrar — lembram quando homem só podia entrar acompanhado de mulher? — enfim, ambientes mais para ver e ser visto. E assim essas pessoas acabaram também migrando para festas com esse perfil, como as festas do Oscar, do Polo, do Tim e do Patrão. É o circuito premium, agora mais fora dos clubs.

No mês que vem vai inaugurar um club no Rio que anunciou que só entrarão sócios “endinheirados” (como parte da imprensa costuma falar) - os convidados terão que desembolsar R$ 6k anuais para fazer parte desse seleto club. Será que alguém pagaria esse valor hoje pra frequentar um club, sendo que ninguém mais hoje tem fidelidade a lugar algum? Talvez queiram focar no público mais velho, mas será que esse público iria com frequência a um club para mantê-lo girando semanalmente?

O Rio tem um dos melhores cases do país - o club Nuth, que tinha essa política de priorizar a entrada de seus sócios e de quem seria interessante estar lá. E assim, foi feliz ao selecionar as pessoas certas segundo eles, para serem uma das 5 mil sócias do club - que comportava 700. Distribuíram as carteiras sem cobrar um único centavo, gerando um grande desejo dos sócios e dos não-sócios de frequentarem o club que durou 15 anos.

847caef7-a168-4794-8b4d-26db01303f6bNuth Lounge

No tempo da Nuth, as pessoas eram muito fiéis e frequentavam muito o club, indo diversas vezes por semana até. O club abria de segunda a segunda e era onde podíamos ir para encontrar os amigos e se divertir. Criamos o cartão fidelidade de sócio que fez a casa girar por muitos anos com um público que queríamos. Mas hoje em dia a noite está muito diferente, as pessoas estão buscando ir a festivais e grandes eventos, com diferentes atrações e estilos musicais e acho que falta criatividade e novas idéias dos empresários da noite carioca para idealizar novos clubs. E isso leva o público a buscar essas festas.Guilherme “Neco” Boetger, foi dono do club Nuth Lounge

Será que o comportamento de grande parte do público jovem atual, que não é fiel a nada (a local, estilo musical, etc) e que busca novidades o tempo todo é parte responsável por essa mudança?

A queda dos clubs em São Paulo é grande em quantidade e público, mas acho que as festas passaram apenas a ser mais importantes porque estão sendo a maior possibilidade de entretenimento, já que os clubs não representam mais o que já foram. E o público jovem não está crescendo com essa cultura de club, então vejo as festas como tendência. Clubs underground se mantém, mas dos clubs comerciais na capital, infelizmente não sobrou quase nenhum.Joe K, DJ e produtor

O Rio, SP e algumas outras cidades estão muito longe do Sul do Brasil, é fato, mas as coisas estão acontecendo com ótimas opções semanais nesse novo formato que reúne e movimenta um grande público. A música eletrônica é para todos e o acesso a ela por todas as classes é o que está fazendo a cena acontecer e crescer por aqui — mesmo sem os clubs.

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Eu citaria a palavra "acomodação", principalmente para o Rio. Nos últimos 10 anos houve um boom da música eletrônica no Brasil onde a maioria dos clubs direcionaram seus holofotes pra esse estilo. Não basta contratar aquele super artista se você não tem uma noite bem promovida e bem frequentada, porque o público da música eletrônica é exigente. E de fato os clubs foram sufocados pela economia. Dólar e euro nas alturas e a acomodação dos empresários fez com que a música eletrônica voltasse a estar em terceiro plano. Com isso, os eventos ganharam espaço trazendo conceitos diferentes ao que o público consumia nos clubs. Os formatos day party e sunsets explodiram Brasil afora e com isso centenas de novos produtores ganharam mais espaço no mercado.Anderson Rago, empresário e sócio da Boosh MGMT

Esse blog aqui conta um pouco dos clubs que já fecharam no Rio e, abaixo, mostramos que alguns dos principais clubs do Brasil têm sua identidade visual e comunicação muito bem desenvolvidas, trabalhando cada dia da sua programação como se fossem eventos únicos.

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Rodrigo Rodríguez ( ͡° ͜ʖ ͡°)

Colaborador // DJ e curador musical, além de publicitário e jornalista por formação. A&R do selo Austro. Apaixonado por música eletrônica e festivais. Ligado sempre em 220v. Só bebe água e nada de álcool. Já curtiu muito trance europeu, mas de muitos anos pra cá é do house. Viciado em séries. Fã de Daft Punk, Jamiroquai, The Chemical Brothers, New Order, Disclosure e Erick Morillo. Ouve música e fica conectado quase 24h por dia.

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