Culto ao drop: estaria o brasileiro distorcendo a essência do psytrance?

Estamos completando quase 4 décadas desde o surgimento da música eletrônica psicodélica no mundo. A evolução no estilo é incrível, mas, dependendo do ponto de vista, pode ser também um tanto "preocupante”. A cada ano, as produções se distanciam cada vez mais daquele projeto fundador, daquela imagem que nos guia, e quem se prende ao movimento raiz é pouco valorizado ou até mesmo esquecido.

O psy surgiu de um movimento de contra-cultura, mas sua massificação e a constante busca pelo capital encontraram no 'high BPM' uma praia pouco explorada e de mão de obra barata. Com isso podemos notar a popularização do novo progressive trance e o surgimento de sub-vertentes que carregam gigantesca semelhança a esse novo estilo de produção progressiva, mas com poucas criações técnicas. São músicas voltadas ao único momento de resposta do público: o drop.


vini vici Foto: reprodução (YouTube)

A sensação que se tem é a de que passamos a valorizar o trabalho de um produtor não pela construção técnica de uma track, mas pelo que ele consegue proporcionar nos seus momentos mais climáticos. Então vamos lá, eu preciso perguntar: se a música compreende um mix tão grande de sentimentos e emoções que não apenas estão ligados a um kick e a um bass marcantes, então por que desconectamos a música e passamos a supervalorizar o “drop"? Em que momentos passamos a endeusar a música em seu momento explosivo e não em toda sua construção harmônica?


Um ponto interessante de onde podemos partir nesse debate foi colocado em pauta no Purpletrance, ainda em 2014, em uma entrevista feita com o Fabio Leal. “Você pode ter feito um set irado, com técnica perfeita, mexagens cabulosas, tracks maravilhosas e inteligentes, mas se o público não entendeu, vai dizer que você não tocou bem, não contagiou a galera, tocou um som esquisito.”, explica Fabio, ao ser perguntado por que o som tocado no Brasil é diferente do europeu em níveis de “agressividade".


Se vem o próximo no lineup e manda um set bem simplório, com mixagens abaixo da média, técnica questionável (…) tocando todas as tracks mais conhecidas do momento — aquelas das explosões e drops épicos — dando aquela animada de torcida, subindo na mesa, pulando, fazendo aquele show, a percepção será a de que ‘nossa, aquele cara tocou muito, ele é muito bom, destruiu!’. A expressão ‘tocar muito’ aqui no Brasil não significa que o artista tenha habilidades técnicas e artísticas excepcionais'Fabio Leal

Vejam o dilema em que o produtor de música eletrônica está inserido, onde ele precisa dividir entre trazer algo diferente ou agradar ao público. E a massificação do psy vem impactando diretamente nesse cenário. Hoje é bem comum DJs de [euro]trance encerrarem suas performances no estilo “let's go hard", subindo o BPM, equiparando ao progressive trance psicodélico, mas sem psicodelia alguma. *BOOM*! Explosão, propagação, pouca informação. Mas não entenda isso de forma totalmente negativa, não. Eu também gosto, desde que não se torne irresponsável e propague algo tão confuso e tão contrário à cultura propagada pelo psy.




Sempre falo o quanto é importante para todos nós que trabalhamos com isso nos posicionarmos claramente e respeitosamente, procurando informar de maneira adequada as pessoas quando pedem nossa opinião. Não acho legal dar tapinha nas costas de algum artista só porque ele é famoso; ele tem que estar preparado para ler e receber críticas construtivas.Fabio Leal

O “marco” dessa nova propulsão de prog ocorreu após o lançamento do álbum Future Classic (2015) do projeto hitmaker Vini Vici. Iniciava ali a ascensão de um projeto com produtores de bastante bagagem — sdds Sesto Sento, inclusive — que viram o que o mercado queria, que enxergaram essa demanda. Depois de emplacar vários hits até 2016, Vini Vici chegou ao seu ápice ao realizar uma parceria com Armin van Buuren. Em pouco tempo, Great Spirit se tornou a música referencial tanto na cena psicodélica quanto na maistream, tornou-se a verdadeira track "let's go hard" que todos os djs colocavam em seu set pela resposta que ela tira do público.





Todos os lives mais conhecidos e mais bem pagos do momento sabem muito bem disto. Eles sabem que, se querem manter sua renda proveniente dos eventos brasileiros, precisam se adequar a esta regra.Fabio Leal

O que eu quero levantar aqui não é uma simples questão raiz versus nutella nem ser contra o surgimento de novas vertentes, de forma alguma, e sim a “zona de conforto” e falta da crítica sobre a música. Não é sobre ser “anti-drop”, e sim sobre a responsabilidade que o público mantém ao popularizar soluções musicais pouco criativas como um ápice de qualidade na ascensão de um DJ.

Estamos avaliando as coisas pelo momento mais comum e menos didático do DJ, até ouso dizer, estamos avaliando a música pelo "ser DJ"; sabe aquela definição bem antiquada de que o DJ anima a festa, nada mais que isso? Pois é, doeu aqui também. E a grande questão é justamente essa: isso não veio como resultado do produtor, mas sim do público que deposita sua resposta a tracks cada vez mais 'offbeatizadas' e 'cavalgadas'.

Eu sou contra mesmo é à descaracterização e deturpação dos princípios de uma cultura, uma cena e um movimento tão ricos. Espero que, dentro de toda a “resistência”, resista também a psicodelia.



Foto de capa: Reprodução (edmmagazine.com)

Vinícius Arcelino ♬♫♪◖(●。●)◗♪♫♬

Autor // Recifense, 24 anos. Eclético musicalmente. Adaptável quando estou com amigos. Amante das raves e do mundo psicodélico. Cerveja gelada, amigos, sorrisos e boa música pagam minha vida.

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