A EDM é tudo igual: verdade ou mito?

Como um apaixonado por música eletrônica (e isso inclui muita música mainstream) eu seria o primeiro a xingar alguém que falasse que "EDM é tudo a mesma merda". Mas como um pesquisador musical exigente, tenho que reconhecer que a dance music sofre de um "mal" que atinge muitas músicas e artistas dos principais gêneros do mundo: a mediocridade.

A música comercial sempre viveu em fases, ciclos de tendências (como explica o gráfico ~meramente ilustrativo~ abaixo). Algum artista pioneiro lança um som bacana e diferente, acerta em cheio em agradar o público e faz sucesso. E aí outros artistas passam a modificar ou adaptar suas identidades musicais para lançar músicas similares, porque né, está aí uma oportunidade de cair no gosto do público e se manter relevante. Mais músicas parecidas são produzidas e lançadas até que essa estrutura musical se torna uma fórmula e vira tutorial de YouTube para produtores iniciantes. A partir daí, tudo já se tornou bem cansativo e saturante. E então outro artista começa algo diferente e o ciclo se reinicia.

comportamento comercial da música eletrônica

Alguém aí lembra do big room?

Ah, o big room... Surgiu ali meio que com Epic do Sandro Silva & Quintino, em 2011, e teve seu auge com Animals do Martin Garrix em 2013. O big room impulsionou a carreira de inúmeros novos artistas, popularizou a dance music no mundo e guiou a ascensão dos grandes festivais. Foi tudo de bom, mas como qualquer movimento musical que cresce rapidamente, o big room sofreu suas consequências: saturou, enjoou e perdeu a graça. Em 2015, o que era enérgico e histérico se tornou chato e barulhento.

Mas aí veio o Diplo. Ano passado, o cara foi o maior trendsetter da EDM atual (mas que está hoje numa bad trip de falar mal da própria EDM), lançou Where Are Ü Now com Skrillex e, com Major Lazer, lançou Lean On. Um pouco antes disso tivemos também Tchami e Oliver Heldens com o tal do future house. São sons que substituem perfeitamente o serrote do big room e atendem ao desejo do público por uma coisa mais fresh, mais house.

Hoje, em 2016, esses sons estão explodindo e a minha previsão é que no final do ano o pessoal já esteja enjoando, porque a quantidade de faixas similares sendo lançadas é pornográfica — a linha da mediocridade aumenta semana após semana. Pegue todos esses artistas e junte suas produções em um único áudio: é tudo tão parecido que você não saberá que música é de quem apenas ouvindo. Aliás, não precisa fazer isso, já fiz por você.

Fórmula "On My Mind"

O future house teve várias pequenas ondas ao longo do tempo, em que o movimento se renovava continuamente. Tudo começou com Gecko, Koala, Untrue, After Life e outras músicas do Oliver Heldens e do Tchami. Foi um estouro! A segunda onda veio com os grandes DJs da EDM aproveitando essa tendência e lançando tracks para acompanhar o mercado. É o caso de Never Sleep Alone do Kaskade, THIS do Sander van Doorn em collab com Heldens e Bouncybob do Martin Garrix, por exemplo. A terceira onda vem com novos artistas tentando ganhar visibilidade, como Curbi, com Discharge e Pep & Rash, com Rumors.

Há quase um ano, Don Diablo lançou On My Mind, cujo clipe tem mais de 21 milhões de visualizações no YouTube. É uma baita música, fez muito sucesso e virou a nova tendência. Ou seja:

On My Mind, seguido de 10 drops de músicas diferentes.

Fórmula "Lean On"

A levada moombahton de Lean On conquistou o mundo inteiro — só o clipe oficial tem quase 1,5 bilhões de views! Diplo simplesmente definiu um novo estilo de som para a música pop. E pode ter certeza que não foi por acaso. Ele sabia que o povo estava sedento por um som mais lento e dançante - o tropical house já anunciava isso.

Lean On, seguido de 7 drops de músicas diferentes

Fórmula "Where Are Ü Now"

Depois de Where Are Ü Now, o que teve de música com sonzinho de flauta ou voz aguda e bassline de deep house não consta no livro dos recordes.

Where Are Ü Now, seguido de 6 drops de músicas diferentes.



Sim, é obvio que o problema das tracks genéricas não acontece somente na EDM. Também tem a fórmula do brazilian bass, a fórmula do deep house comercial, do future bass e até a fórmula do techno. Não entrarei no mérito de discutir a mediocridade em todas as vertentes, mais importante é entender um pouquinho o cenário por trás disso. Se houver alguma "culpa", ela se divide entre gravadoras, artistas e público.

spinnin-sessions

Gravadoras

Você sabe que um novo movimento musical vai se tornar saturado quando a Spinnin' Records começa a lançar tracks explorando tal sonoridade. As grandes gravadoras, por essência, sempre vão contribuir em prol da falta de originalidade.

Entendam, essas labels precisam minimizar riscos. Elas precisam garantir que tudo que promovam venda, ainda mais no momento delicado em que a indústria passa, com a queda vertiginosa das vendas de CDs e downloads de MP3 e a ascensão do Streaming.

As músicas da moda são o que chamamos de "low risk songs". Se é o que o público gosta e consome, então é o que vai gerar lucro garantido. As big labels passam o tempo todo procurando a próxima grande tendência ou artista para explorá-los ao máximo. Elas optam por faixas que foram meticulosamente projetadas para agradar a massa, e os artistas se tornam reféns disso, principalmente os novos talentos: "olha, com esse som estranho aí você não vai lançar música aqui, tente em outra".

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Artistas

Se você é um artista desconhecido e quer atingir o sucesso rapidamente, o mais lógico a fazer é copiar o som de quem faz sucesso, porque é esse o som que os grandes selos e o público querem.

Para alguns artistas, há uma linha tênue entre sucesso comercial e expressão artística. Labels querem artistas que vendam músicas e mídia, enquanto artistas precisam da distribuição das labels e sua expertise. Mas nem sempre essa relação é amigável. As labels podem pressionar demais os artistas para fazer verdadeiros bangers.

Essa questão pode ir além da música. Os DJs bem-sucedidos se tornaram marcas poderosas, cujas fotos no Instagram são essenciais para vendê-lo. Hoje, mais do que nunca, você ouve lançamentos por causa do nome do artista, você escolhe em qual festa ou festival ir por causa dos nomes que estão no flyer. Aliás, você lembra do nome das últimas 5 músicas que ouviu? Nem eu, mas uma há a probabilidade de essas cinco músicas soarem muito parecidas umas com as outras.

ultra-miami

Público

OK, a rotina e a repetição são aspectos naturais do ser humano. Já foi provado que se alguma coisa soa parecida com o que você já ouviu, é mais provável que você goste. Isso se chama familiaridade. É algo que não podemos evitar e a indústria sabe disso.

A internet deveria ter sido o grande canal para distribuição aberta e ilimitada de músicas e artistas de todos os tipos. Tudo que a gente deveria fazer era passar 5 minutos navegando e achar ao menos 30 novos produtores/djs com sons que nunca ouvimos antes. Mas nem sempre é assim.

Pegue o Spotify, por exemplo. A própria plataforma foi desenvolvida pensando nisso. Funcionalidades como artistas similares, sugestões de músicas similares para você adicionar a playlists e até a playlist "descobertas musicais", que nada mais é do que músicas parecidas com as que você costuma ouvir. É um sistema que não te motiva a sair da zona de conforto, e faz todo o sentido. O Spotify quer que você passe maior tempo possível na plataforma.

Talvez seja esse o paradoxo do streaming: ao mesmo tempo em que temos acesso a uma coleção gigantesca de músicas e artistas, ficamos presos a alguns poucos e familiares. As plataformas de streaming coletam dados que revelam o que queremos ouvir, para que possam tomar decisões baseadas nisso e dar mais do que já gostamos.

agora

E agora??? E agora a gente vai indo...

...literalmente dançando conforme a música. Esse é o music business. A mediocridade existe em tudo que é monetizado. Comecei esse artigo achando que acharia "culpados", mas na real, é assim que as coisas funcionam.

A boa notícia é que a renovação de tendências também existe e é constante. Mal ou bem, sempre haverá algum espaço para o novo. O que podemos fazer é acelerar esse processo. Talvez sermos mais exigentes com o que escutamos, tendo mais vontade de buscar novas sonoridades e explorar novos artistas. É uma questão de sair do automático e prestar atenção ao que se ouve. E aí, o que você vai escutar hoje?

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