Deficiências e festivais: unidos em qualquer “diferença”

A música eletrônica já mostrou ser uma vertente bem democrática e muito solidária. O que todo amante desse gênero musical pode dizer com certeza é que sempre se sentiu muito bem acolhido em um festival, por exemplo, e a liberdade é predominante nesses espaços. Muito além da personalidade, toda essa vibe positiva da e-music é lazer pra todo e qualquer público.

Os eventos eletrônicos estão cada vez mais presentes na vida de quem tem algum tipo de deficiência. Não importa se você é cadeirante, tem deficiência visual ou auditiva; até quem não ouve não deixa de aproveitar a diversão que só um bom festival pode oferecer. Em primeiro momento podem passar pela nossa cabeça muitas dúvidas sobre como as pessoas com qualquer uma dessas deficiências curte um evento como esses - o que é compreensível e não precisa ser encarado como preconceito propriamente dito. É natural a falta de familiaridade com uma realidade tão diferente da própria. Não significa que portadores de deficiências não curtam dance music, né?

Pra responder essas dúvidas e mostrar que existe music lover de todo tipo, nós fomos atrás deles. Pra começar, é bom deixar bem claro que todas as pessoas que têm algum tipo de limitação precisam de atenção diferenciada para frequentar espaços que costumam ser pensados para pessoas sem deficiência. Então é claro que muitos dos nossos amados festivais de música ainda precisam evoluir bastante no quesito acessibilidade.


Pedro Américo não só curte a vibe como virou youtuber com o projeto "Mais Uma Rodada", para mostrar suas experiências na perspectiva de cadeirante nos eventos que frequenta.

A acessibilidade para os portadores de alguma limitação não é nenhum bicho de sete cabeças, porém não é ainda uma realidade 100% aplicada por aqui. Rampas de acesso, intérpretes de libras, conteúdos em braile, bares, banheiros e áreas especiais com pessoas habilitadas para atender esse determinado público, etc, ainda não são características usuais em raves e festivais. Quando estão presentes, ainda são encaradas como um "diferencial" ou "exclusividade" — quando deveria ser mais uma obrigação.

Quando o assunto é deficiência física, a primeira que vem à nossa mente são limitações locomotivas que exigem o uso de cadeiras de rodas. O festival é pra animar, dançar, gritar, extravasar e compartilhar momentos únicos com as pessoas ao nosso redor, e é exatamente isso que os cadeirantes fazem! Só que sobre rodas.

Me identifico como um raver por ter um ambiente que transmite alegria, festa, amizade! Não se vê pessoas tristes em raves, gosto do gênero por me impulsionar, me trazer alegria, e assim tenho ânimo no dia-a-dia que, cá pra nós, é pesado. Tem que ter coragem pra enfrentar ruas, pessoas e preconceito.Daniel Toruh, 26 anos - SP

O Daniel passou a ter que usar cadeira de rodas após ter levado um tiro, mas isso não o afastou das pistas nem diminuiu seu amor pela música eletrônica. Para ele, o que falta são melhorias nos acessos.

Lugares reservados para pessoas com deficiência geralmente são muito longe dos palcos ou com pouca visibilidade e conforto. Em raves ou festivais maiores, o solo de terra atrapalha", disse ele, mas é aí que a vibe PLUR faz toda a diferença. "A galera me levanta na cadeira de rodas, me proporcionando não só uma visão privilegiada como uma sensação de alegria inexplicável.Daniel Toruh, 26 anos - SP
FB_IMG_1437250582239 Daniel Toruh

Praqueles que são deficientes e ainda não tiveram essa experiência, podemos garantir que essa pode sim ser também a sua praia. Tanto é que o fisioterapeuta Cassiano Cardoso deu sua orientação profissional para quem possui deficiência física e quer fazer parte desse público "raver".

A diversão através da música é de grande importância para as pessoas. Seja com ou sem deficiências, a música tem a propriedade de influenciar no humor; ela trabalha a motivação, nos induz ao movimento, e contribui para novas amizadesCassiano Cardoso - Fisioterapeuta

Ele ainda orientou a aproveitar os eventos consciente de suas limitações, mas sem deixar de se divertir. "Levem somente o necessário. Se possível, vá acompanhado, com amigos, fiquem atentos ao seu redor e, no mais, curta o show. Qualquer paciente meu que goste [de dance music] e gostaria de comparecer tem o meu apoio". Não tem mais por que não ir, né?

Recentemente estivemos no Ultra Brasil no Rio, e no meio de toda aquela agitação do main stage do primeiro dia de festa, encontramos um grupo de amigos rodeando um raveiro mais que especial. Tiago Pinto, de 19 anos, tem Amiotrofia Muscular Espinhal (AME). De origem genética, essa condição se caracteriza pela atrofia dos músculos e degeneração de neurônios motores que ficam no interior da medula espinhal, o que limita os movimentos.

Tiago chamou nossa atenção não só pelo fato de ser mais um raver em condições de deficiência, mas por ter identificado que e-music é lugar pra qualquer pessoa que queira sentir o que ele sente.

As festas de música eletrônica são minhas favoritas, pois o público de forma geral é um público muito acolhedor e que se preocupa exclusivamente em curtir aquele momento. A vibe dessas festas é diferenciadaTiago Pinto, 19 anos, estudante

Apesar de EDM significar "Electronic DANCE Music", Tiago sabe muito bem que é muito mais que isso que ela pode oferecer e não dispensa elogios ao gênero preferido. "A música eletrônica cria um momento intimista também, onde nem sempre o que importa é nosso movimento e sim o que sentimos. Além disso, as pessoas envolvidas, principalmente meus amigos, fazem com que eu me sinta totalmente parte daquela atmosfera." Claro que sim Tiago, e nós sentimos o mesmo que você!

WhatsApp Image 2016-10-25 at 21.31.21 Tiago Pinto - UMF - RIO

Pra ele e pros seus amigos, as maiores dificuldades além da acessibilidade nos eventos é na hora de entrar. A sua condição exige acompanhantes e a maioria dos eventos só oferece a opção de uma única pessoa para isso. Outro quesito apontado por ele é que os banheiros precisam considerar não só cadeirantes, mas também pessoas que não tem força muscular na parte superior do corpo. Ele também elogiou o público frequentador de festivais e raves.

Acredito que a música eletrônica e o ambiente dos festivais eliminam todas as diferenças, e isso consequentemente é um fator que incita a inclusão social não só de deficientes físicos, mas racial e de gênero. É um ambiente que engloba diversos tipos de pessoas e as diferenças e peculiaridades de cada um agregam ainda mais valor ao momento.Tiago Pinto

Para quem tem deficiência auditiva, a experiência musical é ainda mais autêntica. Pode parecer surreal que eles curtam música, porém eles não só curtem como sentem a música, literalmente. As batidas do som produzem uma vibração que pode ser sentida no corpo de forma mais acentuada por deficientes auditivos, já que todos os outros sentidos se aguçam para equilibrar as sensações que o corpo pode ter. Natália Lóssio é um exemplo disso.

"[A EDM] É um estilo de música que tem um ritmo vibrante. Sinto o som no meu corpo todo."

Ela garante, entretanto, que um detalhe pode prejudicar sua curtição. "Quando o som está baixo eu não sinto a vibração, aí a festa fica sem emoção". Para ela ainda falta muito a ser desenvolvido para que esses ambientes sejam completamente adequados para pessoas com deficiência.

As pessoas falam muito de inclusão, mas na verdade não entendem muito do assunto. Deveriam dar oportunidade para todos os portadores de deficiências. Hoje existem vários tipos de deficientes que são capazes de levar uma vida normal e independente. Seria muito bom se em todas as festas tivesse um intérprete; se alguém precisar de ajuda, [a pessoa] se sentirá mais seguraNatália Lóssio

O filme This Was Tomorrow, de 2015 — contendo imagens dos Tomorrowlands realizados na Bélgica, nos EUA e no Brasil — mostra Kyleigh e Courtney, deficientes auditivas que sentiram toda a vibração do festival e demostraram o quanto a música eletrônica é importante para elas. E por falar em Tomorrowland, esse vídeo fofo abaixo mostra outras duas amigas no festival, desta vez Keelin cantando em libras a lindíssima U, do Gareth Emery, pra sua amiga Monica.



Eu diria para as pessoas [portadoras de deficiências] que dessem uma oportunidade para viver novas experiências como essas. Às vezes o preconceito acaba nos tirando inúmeras oportunidades de ser um pouco mais felizes; isso vale para tudo na vida, não só para as festas. Viver é diferente de estar vivo... Life is good!Tiago Pinto

Todo nosso agradecimento aos que contribuíram para essa matéria e aos que ajudaram nossos convidados a responder as perguntas — e que os acompanham nos eventos tornando suas vidas tão incríveis quanto as de qualquer raver por aí.

Nayara Storquio ᕕ( ᐛ )ᕗ

Autora // Jornalista, mato-grossense de 26 anos. Formada em Argumentação, pós-graduada em Sarcasmo e PHD em Acidez. Todas pela Universidade Brasileira da treta saudável. Amante da música e de festivais e incentivadora do positivismo. Fã de grandes ídolos do trance como Armin Van Burren e Tiesto, mas com espaço no coração para boas produções de Progressive House e vertentes High BPM. Se sinceridade matasse, já estaria presa. Tem sérios problemas com padronização. Não curte ser guiada, nem na dança e nem na vida.

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