[REVIEW] Que tiro foi esse, São Paulo? Veja o que teve no Dekmantel Festival 2018

Segunda: sinais de febre
Terça: paralisia parcial do corpo
Quarta: falência múltipla de órgãos
Quinta: a definir

Devia haver uma bula pra se medicar de Dekmantel.


Quando um festival chega ao Brasil e faz um barulho de tamanho eco como o Dekmantel em 2017 é um caminho sem volta. É como se tornar governador e ter nas costas o peso de começar um mandato a partir do sucesso de um mandato anterior: cria-se a responsabilidade de pelo menos não deixar a peteca cair. Tem que ser do nível conhecido pra cima. Já dizia a raposa d'O Pequeno Príncipe: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas, não é mesmo?

Em sua segunda edição, o Dekmantel, sob elogios de ser um divisor de águas entre os festivais no Brasil, voltou a São Paulo e tomou sim o controle dessa responsabilidade por quem cativas, ativas, passivas, trans, héteras, drags, futuristas, fashionistas, techno lovers, house lovers e tudo mais. Foram dois dias de um festão altamente pirofosfórico, com qualidade de estrutura e curadoria praticamente no talo e muitos momentos que mais uma vez ficarão na memória. Em meio às fotos oficiais do festival e nossas imagens vagabundas que tanto amamos capturar em nossos celulares, o que teve, afinal, no Dekmantel Festival São Paulo 2018?

dekrev2 foto: Ariel Martini

Teve Playcenter em pele de Chernobyl

Para os paulistanos que estão na faixa dos 30 e puderam viver a época áurea do Playcenter, foi impossível conter a nostalgia de estar nesse local icônico que fez história na capital paulista e que já foi palco de outros festivais de música eletrônica com o parque ainda em funcionamento, sendo inclusive o local de uma das nossas primeiras raves lá em meados de 2003.

Nina Kraviz no main stage

Pra quem é de fora, também como muitos de nós, a disposição do festival no cenário apocalíptico, arborizado e espalhado pelo local que já parece uma usina abandonada onde floresceu ainda mais vida, tudo funcionou muito bem e não deixou chateações pra ninguém que amava o Jockey, local do ano passado — aliás, tinha espaço suficiente pra transar e urinar pela cidade do jeitinho que a família brasileira e a Jovem Pan gostam, rsrs.

Passando por áreas lindas como o Selectors, ali entre as árvores, com iluminação meio Blade Runner 2049 e muita fumaça, aquele ar enigmático que bem combina com a maioria dos sons que ressoam ali, ou o UFO, que era basicamente a sauna bagunçada de onde não se volta com as mesmas perspectivas de vida, já dava pra saber que não iríamos nos opor ao Playcenter se tornando o local do festival por mais alguns anos, se for o caso.

dekrev4 foto: Ariel Martini

Teve conforto pq conforto é sempre bom

As filas, quando existiram, foram bem organizadas e rápidas. Com todos os espaços muito bem sinalizados desde a entrada, não foi difícil se locomover em nenhum momento. Banheiros? Quem frequenta festival sabe o drama que essa parte costuma ser, mas foi bom mais uma vez entrar naqueles boxes — que podiam ser femininos, masculinos ou unissex — com álcool em gel, pia e iluminação particulares.

Já na entrada, teve distribuição de capas de chuva e, acredite, de repelente — um upgrade dos protetores solares que foram besuntados no público no ano passado. Com a festa acontecendo num local repleto e rodeado de árvores, foi um mimo bem coerente.

Costumamos ser chatos com os preços dos bares sempre, mas até que tomar Stella Artois ou Hoegaarden (com raspinhas de laranja <3) por 12 e 18 golpinhos respectivamente não foi um impacto tão grande pro bolso. Os bares estavam lindos, e também tinha um bar da Stella com uma “chapelaria” para celulares, e lá o festivalouco que deixasse o celular trancado ganhava uma cerveja.

dekrev-3 foto: Ariel Martini

Teve estrutura digna de vídeoclipe, muito som bom e o queridíssimo palco UFO

As pistas ganharam uma atmosfera bem particular. O Mainfloor manteve sua grandiosidade, e dessa vez com uma cobertura que graças a Deusa existiu, porque Cacique Cobra Coral mais uma vez não ajudou e tivemos chuva nos dois dias, embora infrequentes. Já sobre o som, os ~problemas technos~ durante o Four Tet (logo no início do set, quando abria com a belíssima faixa "Planet") proporcionaram um momento de apreensão em quem não conseguia ficar mais de 10 segundos sem música, mas faz parte, né?

Four Tet tocando Selena Gomez porque sim.

Embora no ano passado já gostássemos do UFO como palquinho inferninho com conceito churras na laje onde você tinha que passar por catracas pra entrar, o nosso stage favorito do rolê recebeu uma atenção especial nesse ano, com uma super tenda que abrigou mais uma vez as mais maravilhosas piores melhores pessoas do techno, pra quem gosta de seguir num ritmo mais trash e sem se preocupar com o tamanho da pizza de suor no sovaco. Também, pudera, quem tocou por lá está entre os ativadores de dança mais competentes que se conhece, como Interstellar Funk, Elena Colombi, Zopelar, DJ Stingray e outros. A produção ficou bem atenta aos elogios generalizados ao Anthony Parasole no ano passado e o colocou desta vez em horário de headliner pro que foi provavelmente um dos melhores sets do festival.

Modeselektor

No sábado tivemos destaque pra Peggy Gou e Modeselektor, incluindo em seu set a faixa "Born Slippy" que, quer queiram quer não, é clássica simmmm, assim como "Domino" (cof cof) que brotou no evento noturno. No domingo o main estava incrível, desde o set delicinha do Vermelho no meio da tarde enquanto a galera chegava, passando pela incrível sonoridade do Four Tet. E a Nina Kraviz? Ahh, essa dispensa apresentação, né, mores? Apesar de não ter explorado 100% do seu potencial como fez no Caos, em Campinas, dias antes, o set foi mais pesado e enérgico que ano passado e mostrou o motivo de novamente ser um dos grandes nomes do festival. Menções honrosas: Kobosil e Randomer.

Este vídeo representa bem a bagunça maravilhosa que é o palco UFO. Mal dá pra enxergar <3

O aconchegante Gop Tun, com suas teias de aranha gigantes, recebeu atrações diferentes como Maria Rita Stumpf, que fez uma apresentação impecável seguida de Carrot Green. No domingo, pode-se destacar o live d'Os Mulheres Negras.


dekrev-lena Lena Willikens e Vladimir Ivkovic

Teve os donos da porra toda

Lena Willikens & Vladimir Ivkovic, nossa senhora! Foi impressionante, apoteótico estar lá. Era difícil sair pra pegar cerveja, ir ao banheiro ou ir dar uma conferida nos outros palcos. O que eles fizeram foi emocionante, envolvente, era nítido ver o público e os próprios DJs realmente cativados por aquele som.




WhatsApp Image 2018-03-07 at 19.05.55 (1) aaaaaaaaaaa, olha só esse time...

Teve o after dos afters

As festas noturnas, ou como todos chamam carinhosamente, os "afters", aconteceram no Sambódromo com uma estrutura que achamos um pouco mixuruca a princípio, até porque o vazamento de som entre a Area 1 e a pistinha externa dlç da Area 3 foi um tanto amador pro nível que a produção tem. Mas isso acabou fazendo pouca diferença quando no sábado tocou Lena Willikens novamente e no domingo… bem, no domingo, simprisment um B3B épico entre Marcel Dettmann, Nina Kraviz e Kobosil que deu até nos mais quietinhos a vontade de, sei lá, subir numa estrutura, berrar aos quatro cantos, abraçar geral.

Foi tudo muito lindo de curtir e foi claramente o sepultamento da nossa saúde e imunidade. Outros dois encontros de titãs aconteceram entre Parasole e Danny Daze de um lado e Four Tet e Floating Points na pista externa, sob uma Lua cheia inspiradora que nos guiou de volta pra casa já querendo um fast forward pro ano que vem.

dekrev6 foto: Ariel Martini

Teve apenas um ou outro pontinho negativo

-> Podia ter rolado não apenas mais lixeiras, mas educação do público do techno, que ainda precisa aprender e muito o caminho do lixo pra não dançar no meio de tanto copo e lata no chão.

-> O ano é 2018, mas apesar da nossa política de drogas aqui no Brasil ser muito retrógrada e não se atentar a diversos fatores básicos, um festival de música eletrônica contratar seguranças apenas para recolher drogas das pessoas de forma truculenta e ainda não contar com uma tenda de redução de danos, com uma equipe multidisciplinar que dê informação sobre o assunto e acolha pessoas em momentos difíceis, é ignorar injustamente (e pelo segundo ano seguido) uma situação séria em seu momento de maior necessidade com o público que mais precisa.


por Samuel Carvalho e Rodrigo Airaf

foto de capa: Eduardo Magalhães
vídeos: Raiane Reis

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