O Fantástico decidiu falar sobre drogas. O que achamos disso?

Em 20 de Julho de 2013, eu engoli meia grama de um pó que era 91% ecstasy. Eu morri horas depois de overdose acidental.
O fato de que a droga era ilegal não me protegeu e toda semana 50 pessoas morrem no Reino Unido por causas relacionadas a drogas.
Minha mãe quer todas as drogas tiradas das mãos dos criminosos e passadas para os profissionais de medicina. Por favor, ajude-a a evitar que outras famílias sofram devido às leis que não estão mantendo as pessoas seguras.Simulação de carta post-mortem de Martha Fernback, feita por sua mãe em seu site que condena a atual legislação de drogas.

O Fantástico veiculou ontem (10) uma matéria envolvendo drogas, em especial as “drogas legais” na Inglaterra — drogas que, por serem muito novas e/ou pouco pesquisadas, ainda não foram proibidas. A matéria acompanhou uma outra reportagem feita pelo canal britânico BBC chamada How Safe Are My Drugs?, onde a DJ canadense B.Traits, consideravelmente conhecida na cena techno, sai noite adentro desvendando o tema.

A reação foi instantânea entre os fãs de música eletrônica. Só se falava disso nos grupos relacionados a música eletrônica ou festivais. Algumas pessoas, com bom humor, brincaram: “Está rolando matéria sobre drogas na Globo. Tire os seus pais da sala!”. Outras criticaram a emissora por estar mais uma vez associando o uso de drogas à música eletrônica, questão que eu nem vou abordar agora, já que eu disse tudo outro dia. E teve até teorias conspiratórias sobre a coincidência de a reportagem ter sido veiculada poucos dias antes do Tomorrowland Brasil.

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A reportagem começa com uma narração conveniente: “É festa de música eletrônica. Som no volume máximo e muuuuuuuitas drogas”. Naquele momento eu apertei os cintos e me preparei para uma dose letal de jornalismo feito para quem o Twitter chama de “família tradicional brasileira”. É a Rede Globo. Brace yourselves. Tudo pode acontecer.

B.Traits quer descobrir o quão seguros os jovens estão quando usam suas drogas. Então começamos a acompanhar a história de dois deles: Britney e Solomon — este último com 16 anos. Eles vão até uma rave em uma fazenda fora da cidade de Londres e usam o que têm disponível, em destaque a AMT, uma droga alucinógena legal por lá até o momento das gravações da reportagem.

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O grupo de amigos curtiu na rave por horas até que Britney passou muito mal e teve que ser sedada. A cena seguinte é a de Solomon arrependido. “Se eu não tivesse levado a droga, isto não teria acontecido”. Solomon, não é porque você levou a droga, é porque você e seus amigos não sabem o que estão tomando, não sabem qual seria a dosagem mais segura nem como proceder em uma situação de risco.

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No dia seguinte, B.Traits conversa com o pai do Solomon, que sabe que o filho usa drogas, e pergunta a ele o que ele acha mais importante: que o filho não use drogas ou que ele esteja seguro caso as use. Depois de muito pensar e hesitar, o pai de Solomon responde: “eu quero que ele esteja seguro”. Assim chegamos no ponto alto da matéria e eu percebo que finalmente a redução de riscos e danos está sendo abordada em uma grande mídia nacional.

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Um pouco depois disso, a matéria passa por B.Traits indo se apresentar no The Warehouse Project, club de Manchester entre os 100 melhores do mundo, e lá descobre que o lugar tem um sistema capaz de descobrir o conteúdo exato de uma pílula em até 60 segundos. Há um laboratório dentro do club que testa as drogas apreendidas na festa e torna mais fácil saber o que está rolando de perigoso. É um tanto incrível — ainda que o funcionamento do laboratório dependa de drogas que os seguranças tomaram da mão das pessoas e não de um teste voluntário por parte dos usuários. É um trabalho de dentro para fora, já que a pesquisadora pode publicar alertas na Internet sobre as drogas que considerou perigosas. Imagine como seria se todos os principais clubs fizessem isso. Teríamos uma Folha Diária de Alertas Sobre Drogas.

drugs-1 Também teve a participação desse cara que usou maconha sintética, dita como sendo até 100 vezes mais forte do que a maconha comum.

Agora na parte brasileira da matéria, o Fantástico vai a uma rave em São Paulo e assim vamos "do luxo ao lixo" em dois minutos: de Gabriel Bonfim, psicólogo e parte do projeto Respire, conversando sobre o intuito do projeto, a três meninas raveiras que mostram ao repórter as drogas que levaram ao evento e falam sobre as suas experiências.

Esta cena é um clichê do jornalismo televisivo. As vozes das meninas foram alteradas e suas imagens foram transformadas em silhuetas. Os erros de português delas foram colocados em itálico nas legendas. O repórter procurava contradizê-las. Uma delas responde a uma pergunta do repórter com um “quero ficar velhinha e continuar vindo nas festas”, nestas palavras. A esta altura você já estava puto da cara enquanto assistia, pensando no porquê de entrevistarem três trouxas para acabar com a reputação das raves enquanto uma pesquisadora da Unifesp bota abaixo o que elas dizem, item por item. Mas é isso mesmo: essas meninas, infelizmente, são a prova viva da juventude desinformada e da verdadeira roleta-russa que é usar drogas. Elas são a prova viva da urgência de se pensar em redução de danos.

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Ao final da matéria, voltamos à BBC e vemos o desfecho da história de Britney e Solomon. É uma coisa meio “encontrei Jesus e o aceitei na minha vida”. Solomon e Britney não querem mais saber de drogas. Em um momento, Solomon, do alto da sua sabedoria de adolescente de 16 anos, diz: “estou tentando diminuir […] ou só beber, como qualquer um”, como se o álcool fosse muito seguro só porque é legalizado. O álcool é muito mais perigoso e também já foi proibido, como mostra essa matéria da Play EDM sobre este mesmo assunto.

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O que existe em comum entre o traficante de drogas e o Solomon pós-encontro com Jesus? Ambos compram o discurso de que tu te tornas eternamente responsável por aquilo que ingeres. Se algo deu errado, foi porque o usuário foi irresponsável e tudo é castigo por ser um drogado. Ambos aceitam que o que faz mal são as escolhas cegas de cada um, e não a proibição e a guerra às drogas. E este é o mito que a Globo ainda não faz questão de desfazer.

O que vimos ontem foi uma matéria para a "família tradicional brasileira"? Foi sim, só que com verdades no meio. O Fantástico é claramente sensacionalista, mas pelo menos admitiu que a falta de informação é um problema real. Então não tire os seus pais da sala da próxima vez. Deixe-os ver. Um dia a questão das drogas implode por aqui e em outros lugares do mundo e a mídia nacional vai poder ultrapassar a barreira desse grande elefante que ainda está na sala: o da regulamentação das drogas. Só é uma pena que muitos jovens morram até lá.

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas, daquelas músicas que tocam a alma e de tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Bebe pra caralho. Gosta de experiências. Grato pela vida.

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