É noise! Entrevistamos Dirty Noise do alto da sua animação pós-show no EDC Brasil

Foi difícil transcrever em um só artigo a ótima conversa que tivemos com Dirty Noise — ou Pablo — que durou nada menos que uma hora e meia. Muitos papos bons ficaram de fora. Foi uma conversa livre, como num bar. O cara é gente finíssima, tem uma experiência invejável — afinal, ele está na área desde os anos 90 — transborda carisma e tem uma paixão pela música que não se vê sempre hoje em dia. O tempo na entrevista voou sem que ninguém percebesse.

Um dos representantes brasileiros do trap e do dubstep no EDC Brasil, que aconteceu em São Paulo no início deste mês, Dirty Noise não se intimidou com o horário das 21h. Tocou um set que, segundo ele, foi do jeito que ele queria. Nunca vimos um palco encher tão rápido. Foi coisa de dez minutos. Dirty Noise já lutou muito pelo seu espaço na cena e o EDC foi seu primeiro grande festival. 2016 promete pra ele. E agora, ele compartilha com a gente um pouco do que foi o EDC, e um pouco da sua história e da sua visão.

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Stereo Talk: Dirty Noise

O que você tinha em mente pra sua apresentação no EDC?

O meu palco foi o bassPOD, um palco de bass music pra galera da bass music, então eu poderia tocar livremente o que às vezes eu não consigo tocar. Em outros eventos, eu preciso misturar com algumas coisas mais comerciais, ainda que dentro da bass music; um remix da Rihanna, por exemplo, ou as músicas do Skrillex, que são bem mais conhecidas. Mas dessa vez, foi livre. Gosto de tocar muitas novidades, mas como oportunidades com ótimo público e ótima estrutura são raras, eu também queria tocar algumas faixas clássicas dos meus sets, como a Bass Cannon do Flux Pavillion e a Insane do Vaski.

Eu não queria tocar músicas dos outros artistas que iam tocar no EDC. Já aconteceu de outros DJs tocarem antes de mim uma música minha, por exemplo. Isso é horrível. Ou então, vários DJs tocarem a mesma música por ela estar "na moda". Eu queria fugir disso. A princípio pode-se pensar que é difícil, porque eu costumo tocar músicas de vários artistas que se apresentariam no festival, como o Excision, o Zomboy, o Skrillex, o Yellow Claw. As pessoas poderiam imaginar que com isso eu tocaria músicas ruins, que eu só tocaria “as sobras”. Mas eu pesquiso e ouço tantas músicas que eu tenho segurança pra fazer um set por muitas horas e agradar, sem precisar tocar músicas de determinados artistas.

Então você não é refém dos hits...

Não sou. Por exemplo, eu sabia que muitos DJs iriam tocar o novo remix do Skrillex para a música Red Lips, do GTA, lançado na semana anterior ao EDC. Então eu optei por tocar alguns hits mais antigos, hinos do Dubstep como "Seven Lions - Days To Come" e "Flux Pavilion - I Can't Stop". Por ter bastante experiência, consigo saber qual música vai deixar o pessoal mais louco, mais animado, mais zen ou fazer o pessoal bater palmas e cantar junto, como aconteceu quando toquei essas duas faixas.

Como foi a ansiedade pré-show?

Foi meu primeiro grande festival, mas eu não estava nervoso. Eu também dizia isso antes da minha primeira viagem de avião, mesmo assim fiquei apavorado (risos). Mas eu estava louco pra subir lá e tocar logo. Na verdade, gostaria de ter tocado por várias horas. Foi emocionante. Quando eu acabei meu set, tive que respirar fundo pra não chorar.


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Foi legal ver você lá no meião da galera no BassPOD escutando seus artistas favoritos. E como foi o passeio com os caras pelo festival?

Comigo não tem frescura, quando tô a fim de curtir o set de um DJ, fico junto com a galera mesmo. Na hora do Excision eu já estava na grade. E o Kill The Noise estava atrás dele, curtindo o set. Durante o set do Zomboy, eles continuaram lá. Até que decidi ir lá fazer algumas fotos... tietar mesmo (risos). Quando eu estava no meio do caminho, encontrei o Excision já saindo, junto com o Kill The Noise e os dois caras do Dirtyphonics. Pedi pra fazer uma selfie e eles atenderam meu pedido. Até que o Kill The Noise me abraçou e disse: “Vem com a gente!”. E eu travei, pois não falo inglês. Apenas me viro no inglês escrito, mas na conversação não sai quase nada (risos). Fomos andando pelo festival até a área dos camarins. Eu ficava de boca aberta, pois estava andando com meus ídolos. Foi demais!

Você chegou a falar com o pessoal do dubstep, tipo o Datsik? Levou um pendrive pra ele?

Encontrei com o Datsik já na area dos camarins. Ele estava fazendo um after no camarim dele, junto com Bro Safari e mais um pessoal que não reconheci. Entrei, fiquei um pouco, fiz uma selfie com o Datsik e fui pro hotel. Não levei pendrive porque eu não tenho produzido muito atualmente. Como costumo dizer que sou mais DJ que produtor. Não gosto muito de produzir. Minha última produção é a The Top, de 2014. Foi a faixa que abriu meu set. Eu a reformulei pra tocar no EDC. Ela já não tem mais a ver com o meu set, mas eu ainda toco porque fiz ela pro meu público. É a ideia de que eles me levam pra cima, ao topo.

Então pra 2016 você vai fechar só como DJ mesmo?

Eu não tenho nada preparado. Eu sei que seria mais fácil pra mim fazer um punhado de músicas e ter pelo menos uma delas tocada por um grande artista gringo, mas acho que sou mais útil fazendo a minha base de fãs, promovendo bastante o dubstep para o público brasileiro, divulgando músicas mesmo que sejam músicas dos outros. Quando eu lanço uma tracklist de 40 músicas, são 40 músicas que o público que não conhece tanto Dubstep tem a oportunidade de ter em mãos, sem precisar ir pesquisar ou ir no Top 10 do Beatport, por exemplo. O Beatport mostra o quanto vende, mas não o quanto é bom. Então eu gosto de alimentar essa rede que eu já tenho.


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Falando em ajudar, e os planos com o Kaos Bass Crew?

Por enquanto o Kaos Bass Crew está indefinido, mas em 2016 eu acho que vou reformulá-lo. Eu quero muito dar oportunidades a novos artistas da Bass Music, e até incentivar artistas que não são da Bass Music a virem para o lado negro da força (risos). Tem uns artistas novos por aí que estão com “sangue nos olhos”. Estão loucos pra aparecerem, mas não têm espaço. Assim como eu não tinha espaço pra tocar em grandes eventos, eles não têm espaço pra tocar nem em pequenos eventos. Eu sempre fui de querer ajudar. Eu mesmo cresço, mas nunca cresço sozinho.

Eu quero muito que essa molecada de 15, 16 anos que me segue consiga ter oportunidades. Até porque daqui a pouco já terão 18 anos e estarão lotando os eventos. É um público meio esquecido; ninguém gosta de adolescentes numa festa. A maioria não pode entrar nos eventos, então eles ficam meio excluídos. Eu aprendi que isso é uma bobagem. A gente tem que “cultivar” esse pessoal. Eu penso que posso educá-los musicalmente.

Então essa molecada que se amarra em dubstep vai crescer e ajudar a aumentar o público de bass music por aqui. Como você avalia a cena bass no brasil?

Sim, eu boto fé na "gurizada". A cena está aumentando cada vez mais. Por causa da mistura com o rap e até com o baile funk, o trap hoje está mais forte que o dubstep. Tropkillaz está arrebentando no trap e eu estou correndo atrás de promover meu dubstep. E assim a cena está aumentando, sem espaço em grandes eventos (o EDC é uma exceção) e na grande maioria das vezes sem apoio de empresas. Eu gostaria de ter o apoio de uma empresa pra levar o Kaos Bass Crew a várias cidades. E também poder contar com outros tipos de artistas no projeto, não só DJs. É um projeto incrível que ainda não teve oportunidades.

E que conselho você daria a esses jovens produtores?

Eu já vi outros produtores darem o conselho de “produzirem mais”. Não penso assim. Aí os caras vão ficar trancados no estúdio. Acho que o principal atualmente é formar a base de fãs. Divulgar o seu trabalho. Não dá pra pensar apenas em produzir. Vai faltar gente pra tocar.

Não queiram se mostrar mais inteligentes musicalmente do que o público, mesmo que obviamente sejam. Mesclem o que é inteligente com o que eles querem.

Queiram fazer o melhor possível. Não pode ter preguiça. Tem que fazer bem feito, mesmo com poucas condições.


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E sua história até chegar onde chegou, aqui, hoje?

No início dos anos 90, mal tinha música eletrônica na maioria das festas. Eu comecei tocando em “clubes sociais”, onde tocava de tudo: pagode, pop, axé, reggae… E eu queria introduzir a música eletrônica. Mas eu era cabeça dura; Não queria tocar as músicas mais comerciais da época porque elas eram ruins, muito longe do que são as músicas do David Guetta hoje, por exemplo. As músicas do David Guetta são perfeitas comparadas às músicas comerciais do início dos anos 90. Eu queria tocar o techno da época ou o que se chamava “música rave”.

E isso não era muito pesado pros “clubes sociais”?

Era sim. Foi muito difícil. O que eu tocava soa como o hardstyle de hoje em dia, só que mais lento. Os donos dos clubs não gostavam daquilo. Quase ninguém gostava na verdade, era uma pequena parcela que gostava. E eu queria introduzir aquele som. Eu tocava por refrigerante, tinha uns 14, 15, 16 anos. Foi com 18 anos que eu comecei a tocar em clubs de verdade, quando ganhei um campeonato de DJs daqui do Sul onde estavam até mesmo DJs respeitados por aqui.

Então, quando penso que, com 25 anos de carreira, tocar em um festival grande, depois de tanta luta, depois de tanto brigar pra tocar em eventos pequenos, eventos médios e apenas sonhar com eventos grandes, me emociono. Lógico que eu sempre soube do meu potencial, mas nunca havia tido essa oportunidade. E eu sabia que tinha que fazer um set muito bom, pra provar porque eu estava ali em meio a grandes nomes internacionais.

Você pausou sua carreira em 2014. Falaram que você não voltaria.

Eu tive uns problemas de stress e passei mal, fui parar no hospital, mas depois ficou tudo bem. Aí eu pausei. Eu até fiz um post anunciando o fim da carreira. Eu e minha filha lemos centenas de comentários legais e choramos muito. Fiquei aos prantos. Mas no início de 2015, decidi voltar. Não aguentei. Amo ser DJ. E agora não paro mais. É muito louco isso, porque um ano depois que eu encerrei a carreira, recebi o convite para o EDC.


Valeu, Dirty Noise! E não paramos por aqui não, tem o set dele guardadinho pra gente curtir:

Live at Electric Daisy Carnival Brasil 2015 by Dirty Noise on Mixcloud

Fotos: Bassrush

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