O EDC Brasil deixou São Paulo bem feliz no fim de semana passado

Primeiras edições de festivais conhecidos sempre trazem aquele dilema: você não sabe se cria alta expectativa porque é um festival conhecido ou se cria baixa expectativa porque é só a primeira edição. No fim das contas, o EDC Brasil não foi a primeira edição de um festival conhecido. Foi um fim de semana lindo e um festival sensacional. Dois dias, três palcos, muita luz e um line-up de cair o queixo, com direito a atrações inéditas em território nacional. Tudo isso no Autódromo de Interlagos, praticamente nossa segunda casa em São Paulo. Vamos lá ver o que rolou.

Brinquedo Electric Daisy Carnival EDC Brasil

A experiência elétrica

A quantidade de instalações do EDC Brasil pareceu um pouco limitada pra quem está acostumado a ver aftermovies das edições gringas — poxa, cadê a famosa lagarta psicodélica? — mas lembremos que o Autódromo de Interlagos também é limitado em espaço. E quando a noite chegou, pudemos ver que a distribuição foi ótima, entre brinquedos, instalações interativas com ou sem performers, carrinhos alegóricos como o iradíssimo fantasminha do Pacman e lugares decorativos que também serviam pra descansar, tudo muito colorido e brilhante.

Comida era o que não faltava em qualquer um dos palcos e não se soube o que era uma fila, nem mesmo na entrada. A água era gratuita e o EDC acabou tacando o foda-se à regra de que só daria água a quem comprasse garrafas d’água no merchandising do festival; distribuíram água também em copos de plástico. Ponto pra eles. Só faltou um número maior de estações de água.

Por falar em regras, foi muito bom o EDC ter banido a entrada de paus de selfie e impedido as pessoas de subirem nas costas umas das outras. Todo mundo conseguiu ver os shows em paz. Por outro lado, comidas lacradas e frutas foram proibidas. Também não podia levar mais de uma carteira de cigarros, mas ao chegar lá dentro, as poucas opções de marcas de cigarro e a distância da tabacaria não tornaram fácil a vida dos fumantes.

O sábado de EDC teve tanta lama quanto teve gente, mas não é como se fosse possível operar milagres sobre essa questão. Se o festival é open air, onde há chuva, há lama. E já vemos por aí o pessoal comentando sobre como a lama foi top, topíssima. Esse é o povo do eletrônico como sempre sabendo lidar com o que cai no seu colo. Mas onde há chuva, também deveria ter capas de chuva nas lojas oficiais de merchandising, e não foi o que aconteceu.
 
Palco NeonGARDEN EDC Brasil Festival

O NeonGARDEN estará eternamente em nossos corações

 
Mermão… o NeonGARDEN era nada menos que um baita monumento de LED em homenagem ao house e techno. Line-up impecável, bom espaço pra curtir, palco lindo e talvez a melhor qualidade de som do festival ajudaram Gorgon City a ser um dos melhores shows do EDC BR. Isso porque os instrumentos da banda ficaram na alfândega e eles tiveram que se virar no DJ Set. Devem ter ficado meio putos e por isso decidiram fazer um show memorável. Estamos gratos.

Nosso reizinho do groove Luciano conseguiu nos colocar em um delicioso estado de transe, com seu som mais loopado que nem sempre é tão digerível pra todo mundo mas que definitivamente combina com pista. Renato Ratier, mandando techno e tech house mais encorpados, fechou o festival no último horário do sábado com a destruidora Opus do Eric Prydz em pele de Four Tet e foi como jogar água em um deserto entre vários peregrinos sedentos. Vintage Culture claramente se tornou a entidade das raves, pois lotou o NeonGARDEN como já vem lotando qualquer palco onde toca.

O transporte pro EDC Brasil era de boas

Só teve dificuldade pra sair de Interlagos quem quis ter dificuldade pra sair de Interlagos. Os horários de funcionamento da estação de trem próxima ao Autódromo tornaram fácil a chegada e a saída do público. Ninguém ficou refém de opções de transporte pouco econômicas nem precisou se revirar pra alugar uma van, pegar busão ou depender de horários de excursão. Pedimos desculpas aos trabalhadores paulistanos que tiveram que lidar com raveiros sujos e fedorentos de manhã; os deuses do eletrônico recompensarão vocês.
 
Palco Kineticfield EDC Brasil Festival

Até a coruja do KineticFIELD perdeu a cabeça de tanto dançar

No belíssimo KineticFIELD, tivemos Tiesto tocando o pior remix de Adele já feito na história da humanidade e várias demonstrações de egocentrismo cafona do Steve Aoki, que no microfone fazia o público gritar seu próprio nome e puxava coreografias com os braços a cada dois minutos como se estivéssemos em uma piscina de hidroginástica com nossos avós. Mas tudo foi ofuscado por KSHMR provando que existe diferença sim entre farofagem boa e farofagem ruim, levando um set impecável enquanto contava uma história sobre a guerra em um país chamado…KSHMR! Quase no fim do festival, Knife Party atualizou a definição de “frenético” em nossos dicionários e tirou do chão todo o pessoal que já estava com o corpo pedindo arrego.

Foi um belo festival pros tranceiros

No EDC, nomes importantes e com bons shows como Martin Garrix e Skrillex foram apenas a porta de entrada pra drogas mais pesadas chamadas Above & Beyond e Dash Berlin. Ninguém conseguiu superar o que foi Above & Beyond no sábado, com um set fenomenal, paisagens no telão e mensagens de amor. Above & Beyond mostraram que um show incrível envolve uma coisa básica: conexão entre música boa e fãs. A felicidade ficou pra quem entende que o trance não tem pressa, que a progressão vale ouro, que nem tudo tem que ser sempre um drop a cada minuto. Na sexta, Dash Berlin rendeu sorrisos e braços abertos aos céus durante sua curta hora de apresentação, tocando um repertório que surpreendeu por ter menos hits EDM à la mainstage do Ultra Miami e mais remixes clássicos. Queremos segundo round disso tudo na próxima edição.

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Os fãs de bass music mereciam um BassPOD melhor

 
Ao contrário do NeonGARDEN e do KineticFIELD, a produção não colocou piso especial de plástico na pista do BassPOD. No segundo dia de festival, a lama não deixou barato por ali. Conseguimos imaginar o quão foda teria sido um montão de gente enfurnada em frente ao palco nos shows de caras como Zomboy, Excision e DJ Marky, se soltando na dança por todo aquele espaço como se não houvesse amanhã, mas o que rolou foi um BassPOD um tanto quanto depressivo: a pista em frente ao palco vazia, um punhado de gente aglomerada no chão de concreto ao lado dos banheiros, apenas as duas dúzias de felizardos que se seguraram na grade pulando e o resto do pessoal se contentando em mexer os ombros e a cabeça.

Felizmente, a sexta-feira foi abençoada com muita energia e com a incrível sequência Bro Safari e Datsik. Quem já é ligado na novidade do future bass se sentiu no paraíso durante a segunda metade do Adventure Club. O brasileiríssimo Dirty Noise tirou da manga um set de auge de festival em pleno horário das 21h.

pacman-edc-brasil
 

A staff deu um show digno de ser parte do line-up

 
O EDC foi um dos poucos festivais onde não tivemos que lidar com equipes mal instruídas, como já vimos em muitos eventos gigantes por aí. Apesar de alguns seguranças rudes na entrada, os funcionários dos stands eram simpáticos e solícitos. Os performers mais pareciam raveiros pagantes. O pessoal do ground control refletiu bem a preocupação do festival com o bem-estar e a segurança do público; ofereceram até água lacrada de graça no meio dos palcos àqueles que estavam sentados e cabisbaixos. Onde já se viu algo assim?

O público estava não menos que maravilhoso

 
Talvez pelo fato de o EDC ser um festival com menos grife que o Tomorrowland, por exemplo, e que usa o discurso PLUR de amor e amizade pra realizar sua experiência, o público tinha bem mais a vibe de we don’t give a fuck e let’s dance and get loved-up. A chuva não intimidou ninguém e até lavou os espíritos de muita gente. Não tinha tanto aquela onda do “vim só pra conferir o hype”. Não vimos nenhuma discriminação e nenhuma briga. Só esperávamos mais gente fantasiada pra abrilhantar mais a vibe do lugar.

A estrutura conseguiu promover bem a experiência que esperávamos e pouquíssimos problemas chamaram nossa atenção. Questões como preços, sinalização, etc, não foram mencionadas porque seguiram a normalidade da maioria dos festivais. Estamos bem satisfeitos e já ansiosos pra próxima edição. O boss Pasquale Rotella garantiu que vai rolar sim mais um EDC BR em 2016 e muito possivelmente em outra época do ano, sem chances de rolar a chuva que tanto derramou em Interlagos. Vamos ficar ligados.

Above and Beyond EDC Brasil Festival

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas, daquelas músicas que tocam a alma e de tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Bebe pra caralho. Gosta de experiências. Grato pela vida.

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