Entrevista com Amanda Mussi: “Ainda reproduzimos muito as tendências lá de fora”

Quando se fala em DJ de pesquisa, que cavuca raízes, facilmente lembramos das selectas atemporais de Amanda Mussi no underground paulistano. A DJ e exímia construtora de pontes sonoras começou tocando uk garage e breaks nas festas de rua da Metanol FM há cerca de cinco anos e hoje coloca sua criatividade à disposição de jornadas mais densas, fixando-se no techno com grande afinco por tudo que é menos óbvio no cenário.

Recentemente visitamos a festa de três anos da sua festa Dûsk e ficamos empolgados ao embarcar em uma outra dimensão de sons hipnóticos e ácidos. Mas ao contrário do que se imagina, Amanda desacelera o pé no old school e diz estar com os ouvidos no momento presente. Aproveitamos a entrevista pra futricar ainda o lado de sua mentalidade experimental com o design e as artes visuais, e pedir a ela três indicações de capas de discos icônicas pra espalhar pela página. Confira.

amussi2 Foto: Marcelo Elídio

Se você pudesse escolher um momento da história da música eletrônica que mais te encanta, qual seria?

Eu escolheria o agora, pois os produtores, selos e equipamentos não param de se reinventar. Temos uma junção de tudo que é parte da música eletrônica, como disco, funk, hip-hop, techno, house, IDM, etc, e muito mais repertório para fazer infinitas colagens.

fd9221b198f2452898beca7baf50b7bc Amanda indica: Grace Jones - Portfolio

Como você vê o espírito atemporal ganhar vida no cenário underground de São Paulo, onde as pessoas estão mais abertas para timbres clássicos do que antes?

Não enxergo dessa forma. Isso é uma mudança natural. Talvez quando a gente fosse mais novo aconteceu isso também, as pessoas cansaram, vieram novos ritmos, daí veio a era do eletro, do maximal, do trance, da Voodoohop, e depois o techno e o house mais tradicionais ficaram em evidência de novo. Mas isso é no mundo todo, não só em São Paulo, nós ainda reproduzimos muito as tendências lá de fora.


Quais são suas maiores referências nas artes visuais?

Emerson Pingarilho a.k.a. Aural Ars, um grande amigo e um dos melhores artistas visuais que já conheci. Também gosto muito do trabalho do Hugo Frasa, que também é daqui, a Pilar Zeta da Argentina, Salvador Dali, Hieronimus Bosch, Alexander Rodchenko.

maxresdefault Amanda indica: The Emperor Machine - Mono Mono

O que está em pauta quando você senta pra escrever qualquer projeto novo? Aproveite e explique seu processo criativo na arte, música ou em produção de festa. O que você acha que define sua visão?

Eu não tenho feito projetos novos além da Dûsk, mas quando vou criar as novas edições da festa eu sempre procuro um tema relacionado à astronomia e daí começa o briefing, pesquisa de imagens, testes de layout etc. Mas basicamente é isso sempre, um ponto de referência, muita pesquisa, testes e mais testes até sair o resultado. Com música é parecido: começo com o básico, um drumkit legal, synths, e vou lapidando até limar o que está sobrando e ficar o mais enxuto possível.

Acredito que minha identidade é bem ligada a referencias ligadas à colagem, ao surrealismo, construtivismo russo, minimalismo, seja na música ou imagens, mas sempre tento traduzir da forma mais autoral possível, eu gosto muito do tema astronomia e coisas do espaço, metafísica, coisas ligadas à espiritualidade em outras dimensões, e ritmos hipnóticos, dançantes com instrumentos que soem de uma forma mais crua e densa. Eu adoro colagem, é ultimamente o que tenho mais feito com artes visuais e musicalmente isso se aplica sempre, no uso de samples e referências também.

8ce51af1edabf2e7c613b72da9b65df1 Amanda indica: Aden - Whip

A Dûsk completou três anos recentemente com a casa cheia e uma grande festa de sonoridades ácidas e pesadas. Quais são os planos para o novo ano do projeto em termos de curadoria e no geral?

Os planos são criar cada vez mais uma estética musical dentro do que é proposto pela festa, bem isso, ácidas e pesadas. Agora quero apostar mais em long sets, convidado menos artistas pro line e deixando cada vez mais tempo para cada um tocar. Tem muita gente na fila e tá difícil encaixar todos, tem muita gente maravilhosa tocando música boa, mas aos poucos vai rolando, com as edições menores de quinta no Lourdes conseguimos abrir um espaço maior na curadoria. Estou também constantemente pesquisando mais mulheres, trans, negrxs, e pessoas de quaisquer outros grupos menos favorecidos para terem mais oportunidades de trabalho dentro deste mercado e que também tenham a identidade musical proposta.


Quais são os planos pra sua nova turnê anunciada no Facebook?

Por enquanto é só minha viagem de férias, rs, eu ainda estou fechando mais datas. Não posso revelar muita coisa... estou bookada em 2 festas em Berlim e vendo outras cidades para tocar e passear. Gostaria muito de comprar discos e conhecer novos artistas, assistir pessoas que admiro e ver como funciona a cena por lá.

Foto de capa: Marcelo Elídio

Felicio Marmo ɾ⚈▿⚈ɹ

Colaborador // Habitué da cena underground paulistana, 30 anos, apaixonado por arte e inovação. Tudão em prol do rolê desde os 17, se divide entre DJ, publicitário, promoter, professor de marketing e jornalista especializado em música eletrônica com mais de uma década de publicações em revistas, sites e campanhas.

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