Utopia: como seria o festival dos sonhos?

Hoje a gente acordou numa onda sonhadora. Amamos tanto festivais que paramos pra pensar: como seria um festival perfeito? Muito além de apenas um lineup, o festival dos sonhos cumpriria certas responsabilidades sociais, investiria em elementos importantes merecedores da alçada “festival” e focaria no conjunto da obra.

Além dos itens básicos, como transporte decente, sinal decente de telefone e internet, entre outros, decidimos colocar algumas ideias no papel. Afinal, sonhar é de graça e não vale um cachê; vamos chamar nosso festival de Stereo Minds Festival? O que rolaria?

Dois main stages

Briga entre as cenas mainstream e underground? O som underground ficando nos palcos menores sempre? No more. No nosso festival, teríamos dois main stages espetaculares pros amantes dos dois mundos. O único detalhe é que no main stage EDM o uso do microfone seria proibido — nós ouvimos um “amém”?

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Line-up misterioso

Será que o brasileiro, que depende de muitos fatores pros seus DJs favoritos virem ao Brasil, estaria disposto a comprar um ingresso de festival às cegas sem saber o line-up? No nosso mundo utópico sim. E nem é impossível de acontecer: na Alemanha, por exemplo, existe o Fusion Music Festival, que não anuncia o lineup e mesmo assim nunca decepciona, com o festival lotado de gente atrás da experiência como um todo.

Arte e cultura

Seria uma tentativa de criar um mini-Burning Man num festival brasileiro, muito mais que só palcos com DJs. Instalações de arte, performances, áreas interativas e vários chill-outs maneiros espalhados pelo festival seriam algo no mínimo diferenciado, né? Grandes festivais como o EDC até colocam uns brinquedos, mas seria interessante ver trabalhos de artistas nacionais e internacionais sendo exibidos em um festival, algo que vá além de uma instalação empacotada por marca de bebida. Já acontece por aqui em festivais da cultura psicodélica como o Universo Paralello, mas falta isso no talo em um festival mais abrangente.

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Horários espalhados

Geralmente é assim: você fica animado com o line-up, compra o ingresso, mas quando os horários são divulgados… vish… bateu tudo. Os nomes mais aguardados tocam sempre no fim do festival, no mesmo horário e em palcos diferentes. Só fazendo um clone pra conseguir lidar. Sem contar que você passa o dia rodando pelo lugar e vira uma abóbora cansada no fim do dia. No festival dos sonhos, os horários seriam bem mais embaralhados e disso sairiam momentos interessantes, tipo um Guetta da vida tocando no pôr-do-sol, por exemplo. Além do mais, os DJs brasileiros também merecem horários melhores.

Muitas DJanes

A realidade que temos aqui é de uma média de 3 DJs mulheres em um line-up com 60, 70 atrações. Mas nem é porque tem poucas DJs, é mais uma questão de serem bookadas mesmo. Um lineup mais perto do equilíbrio entre DJs e DJéias comprovaria de vez que elas são tão fodas quanto eles e que tem mais espaço pra elas sim.

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Redução de danos e testes colorimétricos em drogas

Quem acompanha a gente aqui já sabe que acreditamos que a guerra às drogas funciona tanto quanto um cavalo sem patas. A redução de danos já acontece em muitos festivais estrangeiros e em algumas raves por aqui também, mesmo de modo mais “underground”. O teste de drogas é a forma mais honesta de verificar se o que o usuário comprou contém de fato o que esperava, sem julgamentos ou medo da polícia, e projetos como o SOS Bad Trip do Coletivo Balance são uma mão na roda nos casos que deram errado. Implantar isso em grandes festivais mainstream seria uma inovação.

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Sets mais longos

A crise pegou e fez com que no último Tomorrowland Brasil tivéssemos apresentações mais longas de DJs que inicialmente veríamos tocar por apenas uma hora. Nesse ponto, a crise funcionou benzão. Sets de 1h30 ou 2h, no caso da EDM, são perfeitos para o DJ contar musicalmente uma história, com início, meio e fim, sem desespero pra encher o set de drops a cada 45 segundos. No caso do underground, quem acompanha a cena sabe a delícia que é um long set de 3h pra cima. Sets bem montados, cheios de altos e baixos, com momentos de curtição e momentos de fechar os olhos, superam a quantidade de DJs em um line-up.

100% sustentável

Os festivais movimentam milhares de pessoas que acabam deixando pra trás centenas de toneladas de lixo, além dos gastos com energia e outros impactos ambientais menores. Pra minimizar tudo isso, o festival perfeito deve ter foco em ser verde sempre que possível e oportuno, como por exemplo painéis que captam a energia solar durante o dia e alimentam a iluminação e sistema de som dos palcos à noite, ou uma campanha de coleta de lixo com foco em reciclagem. E se a estrutura e cenografia dos palcos fosse feita de materiais reciclados? Que tal também copos e talheres feitos de materiais biodegradáveis? Essas iniciativas também podem se expandir para outras áreas de um lifestyle green, como aulas de ioga e meditação ou comidas orgânicas.

Pegando carona na inspiradora abertura das olimpíadas do Rio, surge uma ideia: se o festival acontecer em um campo verde aberto, que tal escolher uma área degradada e criar uma floresta, ou bosque, ou jardim? Cada festivalouco, artista e funcionário plantaria sua semente. Já imaginou voltar ao festival 5 anos depois e dar de cara com sua árvore e todas as memórias que com ela você guardou?

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Sem acordos com agências

Do ponto de vista do business, é claro que isso funciona e é uma decisão inteligente. Mas quem é apenas público acaba pagando o pato das rivalidades entre agências de bookings, quando uma comanda festival X e outra comanda festival Y e o line-up fica sem muitos DJs amados por aí. Diversidade é bom demais!

Água gratuita

Esse item é o que chega mais perto da nossa realidade. Festivais como o EDC Brasil, o Tomorrowland Brasil e uma das edições da Kaballah acertaram em cheio. O prefeito de Amsterdã, por exemplo, assinou em 2014 uma lei que requer que os organizadores de festivais ofereçam água gratuita ao público. Água é essencial para o ser humano — não se vive de refrigerante e cerveja — e qualquer festival que faça isso merece o nosso respeito.

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Um palco de live sets

Tem muita coisa boa acontecendo por aí que não envolve apenas um par de CDJs. Num tempo em que a tecnologia avança rapidamente, o pessoal cria, recria, monta, desmonta seu som de várias maneiras interessantes. O Ultra Miami está na frente nesta questão, com o palco Live Stage. Veja aqui.

Campanha clara contra o assédio

Não só uma campanha contra o assédio às mulheres — algo que infelizmente ainda é muito comum — mas um manual de regras de comportamento visível e amplamente divulgado seria muito importante. Existe um lado ruim nos festivais que não vemos nos aftermovies, aquelas atitudes ruins praticadas por algumas pessoas que têm uma ou duas lições pra aprender. Mostrar seus valores de bom convívio deveria ser parte das prioridades de um festival.

Abolir o espaço VIP

É uma ideia ousada e que significa um bocado de grana a menos nos lucros de um festival, mas o legal de se estar em um festival é no meio do povão, correndo o gramado, todo mundo sendo igual, passando certos perrengues sim, sem champagne que solta foguinhos, sem mesinhas, sem buffet, sem essa de não se misturar. Ir a um festival é ir a um festival. Botem a cara no sol, manos e manas.

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Um aftermovie mais realista

Os aftermovies dos festivais de música eletrônica, principalmente os mais mainstream, seguem um roteiro bem marketeiro e apelativo, afinal o objetivo é criar desejo e interesse para os próximos anos. Muitos festivais, dentro de seus conceitos, divulgam a ideia de pluralidade mas se limitam a pessoas com padrões de beleza socialmente aceitos.

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Foto de capa: Tomorrowland Brasil - Divulgação
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