Como a internet limitada pode prejudicar os DJs e a cena eletrônica

O anúncio da internet fixa limitada por pacote de dados tem assombrado todo mundo. As operadoras Vivo, NET, Claro e Oi decidiram que em 2017 restringirão a navegação na web ao tamanho das suas franquias de dados, estipuladas em contrato. Ou seja, se o usuário ultrapassar o limite contratado, sofrerá com a diminuição da velocidade e até com o corte do serviço. E aí o usuário terá duas opções: esperar o próximo mês, ou comprar mais dados.

Essa medida absurda não só vai contra o desenvolvimento tecnológico que estamos vivenciando, como também ao comportamento moderno da sociedade: nós estamos cada vez mais dependentes da web para entretenimento, comunicação e trabalho.

O Brasil é o quinto país no mundo que mais consome e utiliza a internet no dia-a-dia. Isso significa 107 milhões de internautas brasileiros que representam a segunda maior audiência global do YouTube e a terceira maior do Netflix.

A revolução digital do streaming está acabando com as operadoras brasileiras. A nova geração não assina mais TV a cabo - e portanto não adere aos planos de TV por assinatura das operadoras - e consome dados de uma maneira que essas telecons não conseguem mais sustentar. Vivo, NET, Claro e Oi estão tendo que torrar muita grana em infra-estrutura.

A solução encontrada pelas operadoras foi descontar no bolso dos queridos clientes. A experiência do usuário estará ameaçada. Vamos pegar como exemplo dois serviços de streaming, mas antes saiba que o plano de dados mais alto e caro da Vivo é de um pacote de 120 GB:

Um episódio HD de 50 minutos de uma série da Netflix consome cerca de 3 GB. São necessários apenas 43 episódios para esgotar a franquia mensal. Se você assistir a uma média de dois episódios da sua série favorita por dia, só na Netflix você acaba com o seu pacote de dados.

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O streaming de uma música no Spotify, com duração de 3 minutos e em média qualidade (192 kbps), consome cerca de 4,8 MB. Isso significa que em 2 horinhas diárias ouvindo música você gasta 192 megas. No final do mês, você consome 6 GB somente ouvindo música no Spotify.

Soma-se a isso o quanto é gasto usando YouTube, Soundcloud, Redes Sociais, Skype, fazendo download de games, programas, trabalhando, e todas as outras atividades de navegação online. Coloca aí também a quantidade de dados que outras pessoas que moram com você consomem. Ah, e não esquece os tablets e celulares conectados via wi-fi. Nem o pacote de 200 reais da Vivo vai dar conta. Será um pesadelo.

E como fica a música eletrônica nessa história?

Pedimos a opinião de três profissionais da cena: Felippe Senne, do curso online de produção musical Make Music Now; Ilan Kriger, co-fundador da escola de DJs AIMEC, e Igor Rodrigues, da agência Drop.Cool, especializada no mercado da música eletrônica.

Todos os três concordam que essa decisão por parte das operadoras é, como disse o Igor, "um retrocesso na vida de todos brasileiros". Ou seja, "é algo que põe em jogo não só o desenvolvimento do setor de DJs e produção musical quanto da educação, pesquisa e desenvolvimento nos mais variados setores do Brasil", completa Senne.

O exercício da profissão DJ será extremamente prejudicado: "Os DJs em sua essência pesquisam muito e alguns escutam centenas de horas de música por mês", afirma Ilan, que complementa: "O DJ também cria e disponibiliza conteúdo na internet e sem conexão ele não vai poder fazer o upload de músicas, sets, vídeos, fotos e etc."

Como se não bastassem os equipamentos caros e os diversos gastos com promoção, branding e imagem, o DJ vai ter mais uma despesa para pagar. "Afetará diretamente no bolso, pois a pesquisa é essencial para todo e qualquer DJ poder desenvolver seu trabalho. Com ou sem limitação, a pesquisa musical deve continuar para que o profissional consiga se destacar", afirma Igor.

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Senne amplia a discussão para o caso dos já sofridos produtores musicais: "Para o produtor musical nem se fala, já que qualquer download de uma atualização do seu software de produção, ou de um plugin pesado, vai custar praticamente toda a banda mensal em pouco tempo. Existem algumas bibliotecas de instrumentos sampleados (violão, piano, orquestras, etc), que possuem mais de 10, 50, 100 gigas de tamanho. Sem contar os produtores que trabalham em formato de colaboração com outras pessoas, e precisam volta e meia fazer o download e upload de projetos de suas músicas, que podem chegar uns 5 a 10 gigas cada um".

O impacto igualmente desastroso para a galera que está estudando produção musical deixa Senne preocupado: "existem arquivos de uma aula/tutorial em HD que podem precisar de mais de 1 giga de transferência".

Nem o público, os amados fãs, escaparão. Tanto o Igor como Ilan argumentam que a limitação vai atrapalhar muito na busca por novas descobertas musicais: "com certeza isso vai limitar o tempo e profundidade de buscas por novos artistas e músicas.", destaca Ilan, e Igor menciona que "o público vai procurar ouvir o que mais lhe agrada, indo pelo caminho mais fácil. A busca por novas sonoridades, artistas desconhecidos, sons menos explorados e a criatividade dos ouvintes devem cair".

Em resumo, só temos a lamentar. "Todos saem perdendo, infelizmente é muito ruim para a cena num contexto geral, as pessoas irão ficar mais presas às suas bolhas e o mercado deve sentir negativamente essa estagnação", conclui Igor.

Senne finaliza, "Esse limite vai atrasar o desenvolvimento das pessoas e da indústria da música eletrônica como um todo, já que a internet é a ferramenta principal de informação, divulgação e interação de tudo o que acontece no meio - lamentável".

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