Michael Douglas, funk e Hardwell. Nosso papo com o João Brasil rendeu um bocado!

Polêmica, irreverente e de duplo sentido, a música Michael Douglas, do João Brasil, sintetiza parte do cotidiano e lifestyle da nação dos fritos na música eletrônica. Sim, o termo "Michael Douglas" faz referência à metilenodioximetanfetamina, a pílula do amor, mais conhecida como ecstasy, MDMA ou MD. E a brincadeira toda começou a circular há um tempo atrás, a partir de um áudio muito engraçado no whatsapp.

Costumo dizer que é uma música surrealista aberta a interpretações João Brasil, sobre a música Michael Douglas

Esperto e antenado as tendências a sua volta, o músico João Brasil fez do meme uma canção. A ideia surgiu em um momento totalmente espontâneo: "eu estava tocando num club, no Rio Grande do Sul, e uns amigos se abraçaram, começaram a pular cantando 'nunca mais eu vou dormir'. E aí, eu complementei com 'ih que isso... Michael Douglas' e o povo chorou de rir. Vi naquele momento que tinha um hit. Voltei para o Rio e produzi a música", conta João.



Michael Douglas foi lançado como parte do novo EP do artista, chamado #NuncaMaisEuVouDormir, que conta com outras tracks igualmente zoeiras, dançantes e pra cima, como Hey Pugliesi, Deixa Eu Comer Maionese, que faz referência a blogueira fitness cujo abdômen não é de deus.

No Spotify e no YouTube, Michael Douglas já é sucesso, acumulando mais de 500 mil streams - e ganhando remixes inéditos. O som decolou depois que vimos o Hardwell encerrar seu set no Ultra Brasil com a track. Foi o suficiente para cair nas graças da galera, que saiu do festival cantarolando "nunca mais eu vou dormir", expressão que acabou virando lema e piada interna entre o pessoal da música eletrônica.

Pra quem acha que João teve apenas sorte, o mesmo revela: "eu fiz uma campanha para o Steve Aoki tocar Michael Douglas no Ultra. Consegui uma pulseira que me dava acesso ao backstage, e ao chegar, vi que o Steve Aoki estava conversando com o Hardwell. Dei um pendrive, uma máscara e contei sobre a campanha para o Aoki, ele disse que estava sabendo da campanha. Minha sorte é que tinha levado dois pendrives, e aí, dei um para o Hardwell também".

"Assisti o show do Aoki ali do backstage e ele não tocou, assisti umas quatro músicas do Hardwell, que entrou depois do Aoki, e fui para casa triste pois a campanha não tinha dado certo, e ainda iria tocar numa festa de Halloween nessa noite. Quando cheguei em casa meu telefone não parou de tocar, o Hardwell tinha fechado o Ultra com Michael Douglas e eu tinha perdido. Foi história de cinema!"

14680840_1163051693760666_6991302505614218226_o João Brasil com Hardwell e Steve Aoki

Não é a primeira vez que um grande DJ toca música brasileira em seus sets. O mesmo hardwell já inovou com Baile de Favela, do MC João, e fez até um remix para a música. Também tivemos Jack Ü chamando um MC Bin Laden visivelmente emocionado para cantar Tá Tranquilo, Tá Favorável no Lollapalooza, e, no mesmo show, lançar o remix do Omulu para Veja Só No Que Deu, do Wesley Safadão.

Em menor escala, existem outros DJs que usam o funk como referência em suas produções, como em Sow, de Baauer, e toda identidade musical do excelente Sángo - o maior exemplo de artista gringo que valoriza mais a nossa cultura que muitos brasileiros.

14233228_1133397220059447_236205379602315307_n João Brasil tocando na abertura das Paraolímpiadas.

Também não é novidade que, sempre que rola funk nos sets e produções, o povo da música eletrônica se divide entre orgulho e preconceito. Em relação a isso, João tem uma opinião firme: "o brasileiro tem um problema crônico de não aceitar o que é dele. Temos vergonha e nos achamos inferiores aos gringos. O preconceito é tão grande que ainda separamos o funk da música eletrônica, funk é música eletrônica".

O "complexo de vira-lata" se mistura à resistência em aceitar uma cultura popular que dá voz a uma classe social que ninguém quer ouvir nem lembrar: "Esse preconceito é puramente social e racial. O funk é um grito do Brasil, é música eletrônica genuinamente brasileira, pois é produzida por samplers e computadores em home studios espalhados pelo país", afirma João Brasil. Que complementa justificando, que "o funk usa pontos de candomblé em seus beats, faz montagem com trechos de filmes, usa timbres e samples do que está acontecendo no mundo, é de altíssimo nível."

O funk é um grito do Brasil, é música eletrônica genuinamente brasileira, pois é produzida por samplers e computadores em home studios espalhados pelo país.João Brasil

João Brasil é a prova viva de que a cultura popular brasileira e a música eletrônica podem conviver em harmonia. Ele, que sempre gostou de EDM, e escuta caras como Skrillex, Diplo, DJ Snake e Disclosure, inovara antes com Moleque Transante, lançada junto com seu projeto Rio Shock - "uma mistura de bases de deep house com vocal funk", descreve.

O Sucesso de Moleque Transante, com mais de 1,5 milhões de reproduções no YouTube, revela que mais produções nesse estilo podem e devem ser feitas. João acompanha a cena eletrônica brasileira e está otimista: " acho que a juventude tá vindo nervosa nas produções. A música eletrônica brasileira está só no começo e já tá crescendo absurdamente bem. Torço muito e fiquei muito feliz com o Alok e o Vintage no top 100 da DJ Mag. Acho o som deles incrível, adoro o som do Cat Dealers também".

Torço muito e fiquei muito feliz com o Alok e o Vintage no top 100 da DJ Mag. Acho o som deles incrível, adoro o som do Cat Dealers também.João Brasil

Esse é só o começo para João, que já estudou na Berklee College of Music, em Boston, e sempre teve apreço gigantesco pela música brasileira. Ano que vem ele quer lançar um álbum e misturar tudo: funk, bass house, future bass, techno, trap e muita zueira.

Matheus Tavares (ノ°ο°)ノ

Co-founder/CEO // Música eletrônica é vida.

Publicidade

Participe da conversa