O que está havendo com a cena eletrônica nacional, afinal?

Que a cena eletrônica brasileira está crescendo todo mundo já sabe. Ano passado, a indústria faturou um total de 3 bilhões de reais e teve 28 milhões de pessoas indo a eventos e festivais eletrônicos no país (RMC, 2014). Esses números só não ficarão maiores esse ano por causa da forte crise que ainda assombra o Brasil. Mas mesmo assim o momento é favorável com a chegada de grandes festivais internacionais no país e do amadurecimento/desenvolvimento profissional da galera da cena.

Nessa análise, contamos com a colaboração de Felippe Senne – DJ criador do curso de produção musical online Make Music Now; e Ilan Kriger – DJ/produtor e co-fundador da escola de DJs AIMEC e uma das pessoas à frente do Censo DJ Brasil, o primeiro levantamento completo da indústria da música eletrônica.

Os brasileiros estão curtindo mais os brasileiros

Na música eletrônica, aquele “complexo do vira-lata” de achar que tudo o que é nacional tem qualidade questionável está enfraquecendo. Ao longo desse ano, tivemos a percepção de que o público está valorizando mais os artistas brasileiros. Além disso, a alta do dólar caiu como uma luva para que mais DJs brasileiros fossem bookados.

"Eu vejo isso como algo cíclico, e também depende do seu ponto de vista, porque sempre existem momentos em que determinados artistas nacionais estão aparecendo, outros no topo, e outros em decadência. Cada geração que vai entrando no mercado tem esse tipo de percepção no momento que os novos artistas que surgem com ela começam a ter mais destaque", ressalta Senne.

Nunca antes vimos uma galerona lotar palcos pra ver DJs brasileiros em festivais onde as atrações principais são internacionais. No Kaballah Festival, por exemplo, Groove Delight e Vintage Culture abarrotaram os stages em que tocaram, deixando no chinelo o DJ Snake, o suposto grande headliner do festival.

vintage culture no tomorrowland brasil Vintage Culture também arrastou multidões no Tomorrowland Brasil.

DJs como Felguk, Repow e Tropkillaz conseguem gerenciar suas marcas de forma excelente, ganhando seguidores brasileiros fiéis, orgulhosos e ativos. “Alguns artistas nacionais têm grandes equipes organizadas, e com isso conseguem atingir um público maior (com vídeos, mídias sociais, músicas e afins)”, aponta Ilan Kriger.

Não podemos esquecer do DJ nacional com maior fanbase: Alok. Estando certo ou não, naquela treta com o Amine Edge, esse rapaz conseguiu ressuscitar em nós o nacionalismo que só aparecia em época de Eleições ou Copa do Mundo. A galera levantou a voz e chamou pra briga: “Isso aqui é Brasil! Respeita os artistas brasileiros, aqui tem música boa também”.

O mundo está de olho

Ilan menciona outro fato importante que justifica a maior valorização dos artistas brasileiros: os caras estão produzindo músicas com mais qualidade. "Os produtores nacionais estão se especializando em alguns gêneros. De uns 2 anos para cá formamos muitos talentos em deep house e atualmente os brasileiros dominam os charts de indie dance”.

Houve um tempo em que o máximo que um gringo conhecia de artistas brasileiros do eletrônico era Gui Borrato, DJ Memê ou DJ Marky. Hoje, a coisa toma novos rumos. Temos o produtor brasileiro Sugar Hill atingindo o #1 no top nu disco no Beatport pela segunda vez; Volkoder, Blancah, Jakko tendo suas tracks tocadas por nomes do nível de Roger Sanchez, Solomun e Nicky Romero, respectivamente; Chemical Surf  e Illusionize fazendo com o Sharam Jey a ótima Bass, um dos maiores hits do verão passado.

Os grandes selos internacionais também estão de olho nos talentos nacionais, como comenta Ilan Kriger. “Acho que além de boa música, os brasileiros estão conseguindo chamar a atenção de grandes selos com as boas vendas. Isso causa um efeito cíclico ótimo, pois bons selos divulgam melhor o trabalho [desses artistas], que geram mais vendas e mais fãs”.

FTampa teve um 2015 fantástico nesse sentido. Depois de assinar as tracks That Drop  e Troy com a Revealed Recordings, label de Hardwell, sua nova Strike It Up, lançada pela Musical Freedom de Tiesto, alcançou o primeiro lugar no chart de electro house do Beatport. FTampa já foi convidado pela Spinnin' Records pra fazer um mix pro YouTube e seu vídeoclipe para a 031 já tem quase 1 milhão de views.

Os brasileiros estão compartilhando conhecimento

Em 2015 começamos a vislumbrar uma mudança de mentalidade na cena. Os produtores e profissionais estão mais abertos e mais dispostos a compartilhar conhecimento, ajudando uns aos outros a se desenvolverem. Já conseguimos enxergar um "espírito de equipe" e a compreensão de que existe espaço para todo mundo na cena. Senne comenta que "a molecada (na faixa dos 18 anos) que faz o curso da MKMN já tem essa mentalidade, a de que todo mundo ganha mais se misturando –agora é só uma questão de tempo para que as coisas por aqui sejam 'mais holandesas'".

Temos uma lista crescente de profissionais que fomentam isso aqui. Temos Rafael Araújo da escola de DJs AIMEC; Everson K da Academia de Marketing para DJs; Camilo Rocha e a galera do Rio Music Conference; o pessoal das escolas DJs Ban e Yellow; os próprios Senne com a MKMN e Ilan Kriger, que agora comanda o amplo Big Spaces Brasil, seu empreendimento mais recente.

Esse movimento já existe há 10 anos – mas agora se consolidou. O lado legal é que os jovens podem apostar em uma carreira que agora é mais segura e promissora”, diz Ilan. Um dos resultados do Censo DJ Brasil aponta que aproximadamente 35% dos entrevistados trabalham exclusivamente como dj/produtor musical. Em 2016, esse número pode aumentar.

"São todos negócios tocados por gente de verdade, que realmente faz esse tipo de trabalho pois gosta e acredita no potencial brasileiro", comenta Senne. "Eu particularmente sempre acreditei que nós brasileiros não deveríamos aceitar esse papel de segundo plano nas coisas, então a minha resposta a isso foi há alguns anos dar dicas de produção para iniciantes pelo Youtube e pelo meu antigo blog, e mais recentemente organizar um curso completo pela Make Music Now. Acredito que a motivação principal é ajudar a acelerar o processo de formação de novos talentos e futuros ídolos brasileiros da música eletrônica".

Eu sempre acreditei que nós brasileiros não deveríamos aceitar esse papel de segundo plano nas coisas.Felippe Senne


djs brasileiros versus djs holandeses

Algumas coisas ainda precisam melhorar (e vão!)

Recentemente, o meme acima circulou nas redes sociais. É verdade. Apesar dessa “boa vontade” de todo mundo se ajudar e das iniciativas empreendedoras, os DJs brasileiros não possuem ainda muita perspectiva. Fazem a música mas não sabem como distribuir e promover seu trabalho.

Ilan Kriger justifica: “No geral, isso acontece porque no Brasil os jovens ainda acreditam que para trabalhar com música eletrônica, ele tem que ser DJ/produtor musical. Por isso somos carentes em praticamente todas as outras áreas (distribuição, marketing, direitos autorais, design, etc.)”.

De fato há uma diversidade enorme de profissionais em áreas relacionadas à música eletrônica: são os designers, managers, bookers, produtores de eventos, promoters, donos de labels, empresários, advogados, entre outros. É com essa galera, que serve como "base de apoio", que o artista conta para se desenvolver.

"Sem dúvidas precisamos de mais gente competente nessas posições. Aqui no Brasil, nós temos excelentes managers, bookers, agências, entre outros, mas ainda são poucos na minha opinião. Mas isso vai surgindo naturalmente.", diz Senne.

A solução, segundo Ilan, é a criação de cursos para estes outros profissionais – “A Buma, que organiza o Amsterdam Dance Event, está criando esses cursos. Acho que com o tempo a novidade vai chegar ao Brasil, mas no geral todo mundo ainda quer ser DJ/produtor (ou pelo menos tentar)”.

E quanto à distribuição? É evidente a carência de grandes selos brasileiros. “O problema é que a venda de músicas está caindo ano a ano. Nossos selos vão crescer quando conseguirem transformar a sua empresa em uma ferramenta 360 graus para os artistas com agências de DJs, promoção e muito mais.”, afirma Ilan.

Nossos selos vão crescer quando conseguirem transformar a sua empresa em uma ferramenta 360 graus para os artistas com agências de DJs, promoção e muito maisIlan Kriger

Senne comenta que falta investimento: "Precisamos de grandes empresários investindo na criação de boas gravadoras de música eletrônica, criando bons canais de divulgação e fazendo circuitos de eventos pra promover novos artistas".

Estamos no caminho

A mudança de mentalidade, o empreendedorismo de diversos profissionais empenhados em desenvolver a cena e a profissionalização dos artistas brasileiros já são uma realidade. Precisamos abrir o olho e buscar soluções para desenvolver uma melhor infra-estrutura de distribuição, promoção e suporte, que fortaleça a carreira de nossos artistas, alavancando o mercado como um todo.

A perspectiva para o futuro é boa. Como o Senne nos disse, "se o público consumidor de música eletrônica continuar crescendo, daqui a pouco os grandes players desse segmento vão investir aqui dentro, assim como os players de grandes eventos já estão trazendo grandes festivais pro Brasil".

Em 2016 não vamos colocar uma meta: deixaremos a meta aberta e quando atingirmos a meta, nós dobraremos a meta. ;-D

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