Tessuto: “Os produtores não estavam se sentindo contemplados com o sistema em vigência”

2017 já começou bem agitado para ele. O DJ e produtor multifacetado Paulo Tessuto aka Tessuto aka Carlos Capslock comemora 6 anos da criação de sua festa. Também comemorou aniversário recentemente e nos deu um baita set no nosso podcast.

Conhecido por sua criatividade e performances inusitadas, também está escalado pra se apresentar na primeira edição de um importante festival holandês, o Dekmantel, que desembarca em SP no próximo mês e tem inclusive podcast especial rolando no SoundCloud da SM.

Batemos um papo com ele pra você conhecer um pouco mais desse artista que está lotando galpões e outros espaços por onde tem passado com suas festas malucas e incríveis!

12307547_1042768155774076_1043682483872788115_o Montação.

STEREO MINDS - De que forma surgiu a ideia de parar de tocar em clubes para atuar fortemente na produção e realização de suas próprias festas?

PAULO TESSUTO - Na verdade eu nunca parei de tocar em clubes. O que aconteceu foi que eu tinha uma festa que se chamava Plastik. Ela acontecia em clubes e eu decidi começar a Carlos Capslock com um novo conceito. No começo a festa acontecia na Trackers e depois eu acabei migrando para locações inusitadas e festas de rua. Também comecei a produzir ela como um todo: porta, bar, artístico, financeiro, etc. A ideia surgiu naturalmente. Foi um processo pessoal/profissional que eu passei em minha vida. Nada foi pensado. A criação do personagem e todas essas mudanças em minha vida aconteceram por uma necessidade pessoal e profissional.


A festa Carlos Capslock sempre foi conhecida por sua capacidade de inovação e pela liberdade e libertação que ela proporciona.

SM - Como foi a primeira Carlos Capslock?

TESSUTO - A primeira Carlos Capslock foi numa quinta-feira, dia 15 de dezembro de 2010 na Trackers. Em uma pista a curadoria era minha. Na outra era do Felipe Ribeiro, que fazia a Ruidocracia. Basicamente a pista dele só tocava noise/experimental e a minha techno. Foi uma loucura, muita gente sedenta por entender o que era Carlos Capslock. Lembro também que tivemos a performance sadomusiquismo do Daniel Fagundes.

12783751_1093308987386659_975478008036286900_o Capslock nos trilhos.

SM - De lá para cá, várias festas itinerantes surgiram por aqui. Principalmente em 2016 vimos este número crescer e as pessoas mais dispostas a curtir a noite, a se libertar, enfim, acredito que sua ideologia tem sido bem disseminada e suas ideias compreendidas por muita gente que procura um bom som pra curtir mas está cansada da mesmice e das casas noturnas. Como você vê o futuro da Carlos Capslock e também das outras festas itinerantes?

TESSUTO - Sim, é verdade que muitas festas surgiram de lá pra cá e isso me deixa muito feliz! Feliz em ver que os produtores estão fazendo acontecer. Se um sistema não funciona ou se ele não me agrada eu sempre procuro criar um sistema próprio ou mais alinhado com os meus ideais. Acho que toda essa mudança tem uma mensagem muito importante para a nossa sociedade: os produtores não estavam se sentindo contemplados com o sistema em vigência. Vejo um futuro pleno e próspero para todos os produtores que conseguirem enxergar o que o público de suas festas está buscando. Ao mesmo tempo a gente ouve falar por aí toda hora que tem pessoas querendo acabar com esse movimento. Eu fico muito triste quando vejo esse tipo de comportamento. Pagava-se mal o produtor, o DJ então nem se fale, daí as pessoas se propuseram a fazer por conta própria e agora querem acabar com esse movimento? Não faz sentido.


Pagava-se mal o produtor, o DJ então nem se fale, daí as pessoas se propuseram a fazer por conta própria e agora querem acabar com esse movimento? Não faz sentido.

SM - Quem são seus maiores parceiros atualmente e por que?

TESSUTO - Meus maiores parceiros hoje em dia são as meninas da festa Mamba Negra, L_cio, Fractal Mood. Existe toda uma equipe de produção completa trabalhando comigo, desde o bar, caixas, artistas, financeiro, etc. Porém essa equipe foi formada somente em 2015, quando a festa já tinha 4 anos de existência. Eu sou aquele tipo de produtor que acompanha tudo. Estou presente em praticamente todas as atividades do meu projeto. Não sou do tipo que só chega para tocar. Tanto que já faz 4 meses que não tenho tempo de sentar e produzir uma faixa. É muita coisa para produzir e eu gosto de deixar o meu toque em cada detalhe, cenografia, logística, staff, curadoria. Digo isso porque a Carlos Capslock sempre foi um projeto de certa forma muito pessoal, começou como um personagem, virou um perfil no FB, depois uma página, uma festa, e por aí foi. Também foi um projeto que contou muito do que vivi durante todos esses anos.

12377776_1107808625936695_8920397004458085843_o Amigos...

SM - Em 2016, na festa Carlos Capslock Entra Numas de Funeral Fora de Época você foi carregado dentro de um caixão pela pista. Qual é a cena mais engraçada já vivida nessas performances durante as festas?

TESSUTO - Sim, é verdade que eu fui carregado num caixão. Muita gente não entendeu a simbologia e achou pesado, mas arte é assim mesmo, ela choca, causa comoção, incompreensão, aversão. Foram muitas cenas engraçadas, mas uma que marcou com certeza foi esse ano na festa Miss Terio da Cultura! Nós decidimos fazer um concurso de Miss e uma das perdedoras não se conformou e atacou a vencedora. Arrancou a coroa da cabeça dela com alguns fios de cabelo. Pra mim foi algo muito surpreendente pois o concurso aconteceu em uma fábrica abandonada, com um tapete vermelho chinfrim, jurados em cadeiras de plástico que não falavam nada com nada, e mesmo assim teve um significado muito forte para as concorrentes. Também vale lembrar a festa onde eu coloquei um touro mecânico em uma das pistas que ocupava o espaço todo. Os DJs convidados chegavam para tocar e não acreditavam pois não havia mais espaço para ninguém dançar. Somente um touro mecânico mesmo...rs!


Arte é assim mesmo, ela choca, causa comoção, incompreensão, aversão.

SM - Já ouvi a Capslock ser comparada com festas da noite de Berlin diversas vezes. O que você vê de semelhante e de diferente na noite dessas duas cidades?

TESSUTO - Muita gente anda comentando isso mesmo. Eu acho que na verdade são cenas diferentes mas também têm suas semelhanças. Estamos passando por um processo que eles viveram há 15 anos. Muitos imóveis abandonados ou ociosos, um país dividido, as pessoas sedentas por novos rumos, novos movimentos culturais. Creio que muito dessa comparação se deva à estrutura que estamos oferecendo — que ao meu ver hoje é super profissional e com um custo benefício muito bom — a qualidade dos artistas e principalmente da experiência das festas. É verdade sim que eu me inspirei muito nas minhas viagens mas também temos nossa originalidade. Acho que é uma coisa tipo: nossa! As festas Carlos Capslock são tão boas quanto as de Berlim, muito respeito, muita liberdade, muita qualidade.

Capslock em Janeiro de 2016.

SM - O que você acha do Berghain e de toda essa coisa mítica que ele sustenta?

TESSUTO - Eu acho um clube incrível e ultra-profissional e que tem artistas maravilhosos, porém em Berlim você só consegue ver eles lá pois eles não tocam em nenhum outro clube. A questão do door policy não me agrada muito, deixa a experiência tensa para muita gente.

SM - Não poder fotografar numa das festas dividiu opiniões. De um lado, algumas pessoas acreditaram que a medida foi positiva pra poder transformar o evento em algo único apenas pra quem viveu. Por outro lado, houve pessoas que acreditaram que, se a festa é para ser livre, deveriam ter a liberdade de fotografar. Qual a sua opinião quanto a isso?

TESSUTO - O motivo dessa mudança foi por uma simples razão. A festa Carlos Capslock sempre foi conhecida por sua capacidade de inovação e pela liberdade e libertação que ela proporciona. Além de tornar a experiência única, pois realmente só sabe como foi quem esteve lá, faz com que a liberdade das pessoas seja preservada. Muita gente não gosta de tornar público os locais que frequenta, também não conseguem se libertar completamente com uma série de pessoas tirando fotos a todo momento. Seria legal se todo mundo compreendesse que quando você tira fotos e algumas pessoas saem nela ao fundo, ao lado, etc, você está invadindo a privacidade delas. Hoje em dia muita gente se preocupa em registrar o maior número possível de momentos em seus celulares, mas as memórias que valem mesmo são as que ficaram em suas mentes.


Hoje em dia muita gente se preocupa em registrar o maior número possível de momentos em seus celulares, mas as memórias que valem mesmo são as que ficaram em suas mentes.

SM - A Capslock faz 6 anos em pleno carnaval de 2017. Existe alguma programação ou comemoração especial?

TESSUTO - A Carlos Capslock fez aniversário em dezembro do ano passado, mas a tradição sempre foi comemorar em janeiro pois também é o mês do meu aniversário. Somente ano passado tivemos que mudar para final de fevereiro pois a Dinky não poderia vir em janeiro. No final ela teve que cancelar e a festa rolou mesmo assim. Carlos Capslock é isso: ausência de lógica.

Samuel Carvalho く(._.) ゝ

Autor // Paulista, 29 anos, publicitário, maluco por trance, amante de um bom techno, minimal e eletro, muito jovem, falador, adora descobrir tudo de novidade musical e falar sobre, fumante de cigarro de menta sim, odeia falar no telefone, bebe com muito gosto uma cerveja bem gelada sempre que pode, curte tomar guaraná no festival e é o louco do mentos.

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