Nem só de drogas vive a música eletrônica

“É festa de música eletrônica, som no máximo e muuuuitas drogas!”.

A frase acima inicia a reportagem produzida pela BBC e exibida pelo Fantástico no último dia 10 de março. A série foi produzida com o intuito de mostrar a importância de ter um conhecimento mínimo sobre as substâncias psicoativas que se consome recreativamente. Este texto não tem como foco apenas as festas de música eletrônica: compreende-se que o uso de drogas acontece em diversos ambientes, sejam eles festivos ou não. Em qualquer circunstância, é importante estar bem informado.

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É comum nos depararmos com matérias jornalísticas condenando o uso de drogas e estigmatizando os usuários, principalmente quando os mesmos representam uma classe de pessoas que fogem de um determinado padrão social: são consideradas desviantes. O consumo de drogas é uma decisão que cabe a pessoa e essa decisão pode ser em uma festa de musica eletrônica, como pode ser em uma festa de sertanejo ou axé. O uso de drogas não é uma exclusividade das festas de música eletrônica. Não têm sido raras as reportagens que vemos de apreensões de drogas ilícitas destinadas a grandes shows de música sertaneja ou micaretas pelo Brasil.

Quando se fala em informação relacionada ao uso de drogas, boa parte das vezes se leva em consideração apenas as premissas morais que envolvem o tema, desconsiderando o contexto das pessoas e suas histórias de vida. Quando se fala de pessoas que usam drogas, pouco se fala nas políticas proibicionistas que privam toda a sociedade de acessar informações seguras sobre o uso de substâncias psicoativas. Não se deve depositar a culpa nos usuários, que têm no uso de drogas o significado para questões referentes às suas histórias de vida.

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A seletividade entre as substâncias psicoativas promove uma segregação de grande parte das pessoas que escolheram usar as drogas ilegais. Não raro, estas pessoas terminam perdendo todo o amparo científico que um processo regulamentado poderia oferecer. A proibição de determinadas substâncias faz com que o alcance científico seja bastante limitado, o que dificulta descobertas e possibilidades que resultam em desconhecimento sobre as potencialidades de muitas drogas. Em decorrência das dificuldades de se estudar as substâncias proibidas, as pessoas que usam drogas acabam não acessando informações precisas sobre o nível de pureza das drogas, dosagem recomendável e aspectos positivos ou negativos decorrentes daquele uso.

Atualmente, na Europa e EUA, são produzidos alguns testes com reagentes colorimétricos que ajudam a identificar quais são os princípios ativos prevalentes nas Drogas. Mesmo com a disponibilidade dos testes, o ideal seria que houvesse um controle de qualidade na produção e distribuição para que essas substâncias fossem descriminalizadas, legalizadas e regulamentadas. Alguns coletivos de usuários de drogas, a exemplo do Coletivo Balance, que promovem redução de riscos e danos em ambientes festivos, usam estes testes em algumas de suas ações e atuam de acordo com a demanda espontânea: os usuários procuram o espaço para realizarem a testagem. Incentivar esse tipo de ação em ambientes festivos leva a uma associação inevitável de que há o consumo de substâncias psicoativas nestes espaços. Provavelmente este é o principal motivo para que esse tipo de iniciativa não seja fomentada.

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Por fim, deve-se respeitar qualquer pessoa que faz uso de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. A maioria delas consegue conviver bem com as suas escolhas de consumir alguma substância psicoativa — a minoria dos usuários desenvolve dependência química. O objetivo a ser alcançado é o de uma sociedade que compreenda o fenômeno do uso de drogas. Acolher as demandas dos usuários é uma tecnologia muito mais eficaz do que punir. É necessário que cada vez mais as pessoas que usam drogas tenham acesso às informações relacionadas ao uso de qualquer substância, para que através da informação elas consigam proteger a sua saúde e, consequentemente, a sua vida.

Texto: Guilherme Storti (Coletivo Balance; idealizador do 420 app)
Colaboração: Cacá Ribeiro e Ébano Augusto (Coletivo Balance)

Encontramos as fotos das festas rave em um ótimo artigo do Fotografia e Cia.

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