Drogas psicodélicas em tratamentos – a revolução na saúde mental

As drogas psicotrópicas/psicoativas (ou psicodélicas) são aquelas que alteram funções no cérebro como cognição, percepção ou o conduzem a um elevado estado de consciência. Podem ser categorizadas de acordo com seu efeito no cérebro e entre os psicodélicos clássicos estão o LSD, a psilocibina (componente mágico dos cogumelos) e ayahuasca (uma bebida indígena que contém o poderoso DMT).

Elas funcionam ao se ligarem com receptores no cérebro como a serotonina, relacionada a sensação de bem-estar. Já o MDMA (um dos componentes do “ecstasy”) leva à liberação de serotonina, e a Cannabis indiretamente eleva os níves de dopamina. O termo "psicodélico” foi criado por Humphry Osmond para descrever o efeito da droga, uma junção dos termos gregos “psykhé” (mente) e “deloun” (revelar), ou seja, “revelar a mente”.

O interesse nessa classe de drogas decolou seriamente após Albert Hofmann descobrir acidentalmente as propriedades alucinógenas do LSD nos anos 1940. Dentre os grandes pesquisadores desses “reveladores de mentes" estão Timothy Leary, Ram Dass, Alexander Shulgin, Terence McKenna e Stanislav Grof.


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Conceitos pré-estabelecidos

Nas décadas de 50 e 60, os psicoativos foram considerados um tratamento promissor para uma variedade de distúrbios psicológicos e psiquiátricos, como alcoolismo, depressão e estresse pós-traumático. O psiquiatra britânico Humphry Osmond foi um pioneiro em pesquisas com o LSD e testou a droga como tratamento para alcoólatras no Canadá. No entanto, a pesquisa estagnou em meados de 1970, pois o uso descontrolado da substância pelo movimento hippie culminou em um controvérsia político-social que a reclassificou como uma droga de abuso sem valor medicinal.

Psicodélicos são ilegais não porque temos um governo bondoso que está preocupado que você possa pular de uma janela do terceiro andar, mas porque dissolvem as estruturas de opinião culturalmente estabelecidas, os modelos de comportamento e o processamento de informações. Eles abrem a possibilidade de que tudo o que você sabe está errado.Terence McKenna - etnobotanista, místico, psiconauta, autor e defensor do uso responsável de psicodélicos naturais

Com o avanço da tecnologia e da ciência, as pesquisas dos psicodélicos estão de volta e as estrelas são a psilocibina e o MDMA, já que o LSD possui efeito alucinógeno duradouro — limitando seu valor terapêutico — e a aayahuasca seria difícil de padronizar pois é um chá preparado de 2 plantas. Sem mencionar todos os benefícios já encontrados para a Cannabis medicinal. E se essas drogas se mostrarem seguras e efetivas como pesquisas recentes sugerem, nós estaremos à beira de uma revolução na saúde mental.


albert-hoffmannAlbert Foffman // foto: Novartis Company Archives

Os medicamentos psicodélicos, segundo Kenneth Tupper, especialista em ayahuasca e diretor de implementação e parcerias do Centro de Uso de Substâncias da universidade de British Columbia, no Canadá, não são uma cura universal, mas as pesquisas são muito promissoras. Ele afirma que “os psicodélicos, sob condições cuidadosamente controladas, podem criar experiências de admiração e respeito, e uma conexão com um ‘reino divino’ que leva a mudanças comportamentais significativas”.

Aos poucos, cientistas acumulam evidências que apoiam o uso de medicamentos psicodélicos para tratamentos contra a depressão. Uma das teorias seria de que o estado de consciência alterado e a temporária falta do ego que resulta do uso dos psicodélicos pode recuperar pacientes com ansiedade, depressão e vícios.


ayahuasca Chá de Ayahuasca // foto: Alberto José Varella

A Ayahuasca e a Depressão

O neurocientista brasileiro Dráulio de Araújo, do Instituto do Cérebro da UFRN, estuda com sua equipe há 8 anos o potencial antidepressivo da ayahuasca, chá também conhecido como santo-daime e usado há séculos em rituais religiosos na América do Sul.

Fernanda Palhano, aluna de Dráulio, conta: “Vimos que, logo no primeiro dia após o tratamento, há uma diminuição significativa dos sintomas depressivos nos pacientes que beberam ayahuasca quando comparados aos que beberam placebo”.

No experimento em questão, foram selecionados 29 pacientes com depressão resistente a tratamentos com medicamentos. 14 receberam a ayahuasca e 15 tomaram um chá como placebo. Após uma semana, 64% dos pacientes do grupo da ayahuasca tinham apresentado redução nos sintomas da depressão. Para a antropóloga Beatriz Labate, o Brasil está assumindo um papel de destaque nas pesquisas sobre o potencial terapêutico da ayahuasca, principalmente devido ao uso ser regulamentado no Brasil.


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Cogumelos mágicos (literalmente)

Já sobre o uso de psilocibina (dos cogumelos) contra a depressão, o primeiro estudo clínico foi conduzido por Carhart-Harris, no Reino Unido. Três meses após o término do tratamento, 5 de 12 pacientes que antes possuíam depressão resistente a tratamentos convencionais não sofrem mais desta condição atualmente, um resultado por um time na Califórnia que revisou outros 7 estudos e confirmou que a psilocibina auxilia a tratar a depressão. Outra pesquisa que utiliza psilocibina mostrou resultados promissores em auxiliar pacientes com câncer terminal a lidar com a morte.


mdma ptsd foto: Pasieka/Zephyr/Science Photo Library

O êxtase da saúde

Assim como a psilocibina, o MDMA está sendo estudados para o tratamento de transtorno de estresse pós-traumático severo e intratável.

No dia 16 de agosto, a FDA, órgão de administração de drogas e alimentos dos EUA, concedeu ao MAPS (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos) a Designação de Terapia Inovadora para MDMA no tratamento de estresse pós-traumático. Isso só é concedido para tratamentos que são destinados para tratar uma doença, condição grave ou condição potencialmente fatal e que a evidência clínica preliminar indica que pode demonstrar melhorias substanciais em relação às terapias existentes (MAPS).

A realização do estudo no Brasil já foi autorizada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), do Ministério da Saúde, e o responsável é o neurocientista Eduardo Schenberg, diretor do instituto Plantando Consciência, organização que estuda os efeitos terapêuticos de substâncias como ayahuasca.

maps mdma foto: MAPS
É como se o MDMA libertasse o paciente do pânico paralisante gerado pelo trauma, e ele consegue falar mais abertamente, mais honestamente e mais profundamente sobre o que aconteceuEduardo Schenberg

Jessi Appleton esteve no estudo do MAPS e passou pela terapia assistida por MDMA. Jessi foi violentamente abusada sexualmente desde criança até a adolescência. As sessões de MDMA permitiram que ela processasse seus traumas passados e aprendesse a viver com mais gentileza e, por que não, auto-gentileza.

“A medicina e a terapia combinadas me fizeram pensar com clareza e de ser aberta e honesta comigo mesma enquanto experimentava tanta compaixão e empatia por mim, os principais efeitos da experiência com MDMA”, disse Jessi. Em apenas 3 sessões com a droga num intervalo de 3 meses, junto a sessões de integração, a vida de Jessi mudou para melhor.

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Karan Singh

Os psicodélicos não mudam você, elas não mudam seu caráter, a menos que você queira ser mudado. Elas permitem, mas não podem impor essa mudança.Alexander Shulgin - químico medicinal, bioquímico, químico orgânico, farmacologista, psicofarmacologista e autor que descobriu e experimentou 230 compostos psicoativos

Cientistas do Imperial College de Londres serão os primeiros a realizar estudos clínicos do MDMA para tratar alcoolismo. A meta do estudo será avaliar a segurança do tratamento e fornecer uma indicação preliminar se a terapia pode ter promessa terapêutica. Além disso, um tratamento radical com ketamina, um anestésico, tranquilizante e alucinógeno, poderia driblar o vício em álcool ao apagar memórias relacionadas à bebedeira.

No geral, existe a suposição social de que tudo que é ilegal é terrível. Claro que haverá esse tipo de visão intolerante. Mas se é seguro e eficiente o suficiente então deveria ser recomendado.Ravi Dias, um dos líderes da pesquisa no Imperial College of London.

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”Como bate” na vida?

O que faz a terapia psicodélica tão poderosa? Especialistas citam o profundo efeito emocional e biológico nos pacientes, que experimentam um senso transformativo de positividade, benevolência e unidade durantes as "trips místicas".

Normalmente, no cérebro, a informação é trocada em vários circuitos, como rodovias. Em algumas rodovias, há um fluxo constante de tráfego. Nas outras, no entanto, raramente há mais de alguns carros na estrada. Os psicodélicos parecem direcionar o tráfego para essas rotas mal utilizadas, abrindo dezenas de rotas diferentes e liberando espaço ao longo dos mais usados. Essas novas rotas permitem que emoções fluam livremente e faz com que o paciente se sinta mais conectado e estabelecido. As experiências vividas com psicodélicos podem ser responsáveis por este impacto a longo prazo.

Certamente, ainda existem muitos empecilhos políticos e regulatórios para a pesquisa dos psicodélicos — são necessários muito tempo e dinheiro para adquirir a licença para estudá-los — sem contar o “marketing” para popularizá-lo como remédio. No entanto, se as pesquisas continuarem a apresentar bons resultados, a especialização em saúde mental será muito diferente nas próximas décadas.



foto de capa: Julien Pacaud

Raiane Reis ᕕ༼⌐■-■༽ᕗ

Autora // Estudante de Química, paulista caipira de 22 anos. Fala poRta e bolacha. Queria que o Orkut voltasse. Na barriga da mãe já DALE. Puxou o pai no vício da música eletrônica. Rainha é Beyoncé, rei é Justin Timberlake, lenda é Armin van Buuren. Ouve de tudo mas o coração é do trance e psytrance. Not afraid of 138 BPM e forever in a state of trance. Quer conhecer o mundo (24 ✓) e seus festivais de música.

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