Não bebo, não fumo, não frito? Os sóbrios de rave estão entre nós!

"Rave é lugar de gente drogada". Quem nunca ouviu algo do tipo quando o assunto é ir a uma festa de música eletrônica? OK, vamos admitir, o público da e-music tem essa fama. Aliás, vocês bem sabem o que achamos das drogas na nossa cena. Mas hoje iremos olhar o outro lado… vamos ver se é mesmo possível aproveitar um evento ou festival EDM sem precisar de uma gota sequer de qualquer substância lícita ou ilícita. Ou você acha que eu estou falando só dos psicotrópicos?

Pois sim, essas pessoas existem e, para o nosso choque, são muito mais comuns do que nós imaginávamos. Apenas um post que fizemos em um grupo sobre um festival no Facebook onde gritamos “tem alguém que é sóbrio aê?", teve mais de 100 comentários e depoimentos de gente que está muito feliz sendo sóbria na rave.

Percebo que maior parte do público de festivais de música eletrônica faz uso de drogas, mas não me senti curioso a ponto de conhecer seus efeitos. Mesmo com a clara facilidade de acesso, nunca fui induzido a usar ou atrapalhado por negar. A música é meu maior vício e ela não deixa espaço pra mais nada.Sergio Jr. (Votuporanga -SP)
music is my drug

A música é uma arte, e toda arte visa proporcionar ao seu espectador alguma sensação, o que nós do mundo eletrônico chamamos de "vibe". Independente do gênero musical, o intuito é proporcionar uma experiência sensorial. O som, as luzes e o ambiente desses eventos são criados justamente para inspirar sensações. A dance music é um gênero praticamente feito pra isso, e a principal filosofia é promover a união e a felicidade. Então não faz sentido dizer que não podemos sentir essa vibe sem estar sob efeito de alguma substância, certo?

Eu vou pra curtir música boa, e a vibe que vem da galera junto com a música é totalmente capaz de me fazer fritar, e por sinal frito mais do que quem fica loucão com drogas. Yago Durval (Franca-SP)

Mas vamos falar de "sober raving", ou no brasileiro popular: não bebo, não fumo, não… ok, vocês entenderam.

Pra isso precisamos levar em conta se existe a real necessidade de dropar quitutes pra curtir um evento do eletrônico. Há quem diga que só consegue sobreviver a um grande festival sob efeito de MDMA ou LSD, pelo fato das substâncias proporcionarem energia extra. Pra começar, elas não lhe dão energia extra, elas ajudam a intensificar a produção de serotonina, endorfina e demais "inas" do seu corpo, e você tem a sensação de que a droga lhe deu "super poderes". A energia que você gasta já lhe pertence, então se você souber canalizá-la você vai pular, dançar, se divertir e socializar praticamente da mesma forma. Ou você acha que quem faz triatlo é mutante?

tml brasil 2016 Tomorrowland Brasil - Divulgação

Eu já fui pra festival de 12h e fiquei as 12h lá com a galera, aproveitando cada momento ao máximo (na medida do possível). O "pior" que aconteceu foi ter que achar um canto na grama em que eu pudesse deitar por meia hora. Depois foi só levantar e continuar curtindo. Quem gosta da [música] eletrônica vai gostar no cansaço ou na disposição. Camila Grotti

Diante dessa realidade, podemos dizer que muitos fritos fazem uso de drogas pra melhorar seu desempenho nas raves. Mas vamos combinar, se você realmente crê que precisa disso pra se divertir de verdade, freia! Freia que dá tempo ainda. Talvez seja necessário deixar a opinião alheia de lado e se conhecer melhor, e descobrir que sua personalidade pode te fritar mesmo sóbrio, como o Bradley Gunn, no vídeo abaixo:

O abuso de drogas é uma realidade. O que precisa mudar é a forma como encaramos essa realidade. O problema da utilização desenfreada de álcool e demais drogas não está na música, está nas pessoas. Culpar um determinado gênero não vai mudar isso. Abrir a sua cabeça para a possibilidade de se divertir sóbrio, sim.

Dá pra curtir tranquilo sem álcool e outras drogas, isso só depende da vibe da pessoa. Eu por exemplo nem preciso beber pra "perder a linha" Paulo Silva (Maricá - RJ)
tml brasil 2016 Tomorrowland Brasil - Divulgação

Não bebo e nem uso nada. Vou lá é pela música. O que vejo é que para muitos (não todos), ter que usar alguma coisa é quase que indispensável pra poder curtir. Esse negócio de "vamos fritar" parece que tira o foco da música e faz sobrar apenas as batidas Daniel Miguel (Guaramiranga, CE))

A vontade de se drogar também bate de frente com o medo de uma possível reação adversa, ou de princípios morais, religiosos — ou vai ver a pessoa fez Proerd, vai saber. Esses princípios podem chegar ao ponto de impedir não só que você consuma como até lhe limite o acesso a um festival de dance music, por exemplo, se deixar levar pelo preconceito. Tudo depende da sua auto confiança. Um exemplo disso que deu muito certo é o de Benny Herrera, que não deixou sua religião restritiva impedir que fosse curtir o EDC Las Vegas. Benny garante que a música foi o real motivo da sua experiência no festival e acredita que curtir a festa sóbrio não lhe privou de nada.

Eu vou pela música. Eu não vou pela bebida, e não vou pelas drogas. A música é a única coisa da qual eu preciso. Benny Herrera (leia a entrevista completa aqui)
tml brasil 2016 Tomorrowland Brasil - Divulgação

Não foi bem uma escolha, foi uma coisa mais natural minha, de não beber e não usar drogas. No começo em que eu ia [nos festivais], ao ver meus amigos usando eu ficava curiosa, mas já vi muitos casos de overdose, e então não tive mais curiosidade e eu curto tanto sóbria que não vejo motivo pra usar" Jessica Holzmann (São Paulo-SP)

Assim como a percepção das pessoas sobre você é alterada quando se está frito ou bêbado, a sua percepção do ambiente em sua volta também muda. Elas são alteradas de forma positiva ou negativa, como a famigerada "bad trip". Diante disso, é bom rever se o motivo que você procurava pra se embriagar ou se drogar realmente vale a pena. A única verdade absoluta é: música boa não precisa de drogas pra ser boa. E a mesma lógica se aplica ao público.

Curiosidade eu sinto. Na real, não é por ser totalmente careta. Geralmente quando saio, eu estou com minha namorada, então prefiro não tomar nada que me altere e tal. Simplesmente não gosto, prefiro muito mais um refri. E sobre os festivais, sem uma gota de álcool ou drogas eu frito a ponto de voltar com o pé inchado rs" Pedro Ribeiro (São Bernardo do Campo - SP)
tml-brasil-2016 Tomorrowland Brasil - Divulgação

Outra percepção que parece estar bem alterada é a da mídia diante de eventos de música eletrônica. O preconceito é quase universal, e o uso de drogas é retratado de tal forma que ofusca a beleza das experiências vivenciadas. Infelizmente, o "quarto poder" realmente pode alienar pessoas, com a ilusão de que está prestando um serviço de utilidade pública. Afinal, noticia boa não vende jornal.

Eu não sinto falta de usar outras coisas, porque dependendo do evento, a magia de lá já te deixa feliz por completo. O corpo começa a dançar sem precisar perder a vergonha. Nunca tive vontade de experimentar nada a mais". Letícia G Dias (Pindamonhangaba - SP)
tml-brasil-2016 Tomorrowland Brasil - Divulgação

Depois de toda essa argumentação sobre "frito ou não frito, eis a questão", o mais importante no fim é se conscientizar sobre drogas e lembrar que se você realmente se sente pleno dentro desse contexto, mesmo sem drogas ou álcool, deixem-que-pensem-que-digam-que-falem... Independente de você já ter usado ou não alguma substância psicotrópica na sua vida, crie sua vibe. Sair de casa só pela música e externalizar tudo que ela te inspira também é fritar. E o importante é fritar, com ou sem "super-poderes".

Quando comecei a sair com meus amigos, eu não tive vontade de tomar nada, não queria ser influenciado por nada, e como sempre curtia musicas sóbrio, continuei curtindo pelo simples prazer de ouvir música. Muitas vezes acabo ficando muito animado, feliz e agitado por estar numa festa foda e [as pessoas] confundem essa alegria com o uso de drogas Caio Saud (Niterói - RJ)

Os depoimentos da matéria foram feitos de forma espontânea a favor de “fritar sóbrio” como um estilo de vida totalmente possível no mundo da dance music. E por falar em super-poderes, uma sugestão de clipe que comprova que a única "vibe" da qual a gente realmente faz questão é a da música.




Capa: Tomorrowland Brasil - Divulgação

Nayara Storquio ᕕ( ᐛ )ᕗ

Autora // Jornalista, mato-grossense de 26 anos. Formada em Argumentação, pós-graduada em Sarcasmo e PHD em Acidez. Todas pela Universidade Brasileira da treta saudável. Amante da música e de festivais e incentivadora do positivismo. Fã de grandes ídolos do trance como Armin Van Burren e Tiesto, mas com espaço no coração para boas produções de Progressive House e vertentes High BPM. Se sinceridade matasse, já estaria presa. Tem sérios problemas com padronização. Não curte ser guiada, nem na dança e nem na vida.

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