Mega entrevista com o veterano techneiro faraônico Steve Rachmad (ou Sterac)

Steve Rachmad é um cara sobre o qual pouco pode ser dito sem parecer repetitivo. Sumidade absoluta entre seus pares e umas duas gerações de aficionados pelo Techno e Electro - além de curtir uma outra incursão episódica pelo House - ele é uma daqueles fontes inesgotáveis e sempre confiáveis de alegrias e padrões de excelência.

Nesta conversa ele fala de ocasiões lendárias em que se apresentou no Brasil, além de carreira, confissões de um viciado em máquinas e muitos outros temas que foram aqui tratados na devida profundidade. Já que aqui navegamos pelo passado, presente e futuro de um cara que faz o que faz por belos 30 anos, além de uma outra dica sobre o que ele está preparando para nós na próxima edição da Tantsa do dia 14, na qual será um dos headliners.

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O elo entre Amsterdam e Detroit foi forjado há bastante tempo e, se me lembro bem, foram você e Orlando Voorn que estabeleceram essa conexão seminal, junto ao pessoal da Eevo-Lute e alguns outros. Agora você tem na cidade um colosso como o ADE como o epicentro dos negócios da música num âmbito global. Como foi estar bem no meio dessas mudanças e testemunhá-las em primeira mão?

Eu de fato realizei uma bela jornada no decorrer de minha carreira e a cena como um todo se tornou algo complementar do que era naqueles dias. Gente como Quazar e Speedy J não devem ser esquecidos quando falamos desses começos. É necessário também me imaginar trabalhando numa loja de discos e tendo contato pela primeira vez com esse som de Detroit. E esse início dos noventa foi quando o Derrick May veio morar em Amsterdam. Eu sempre colava na casa dele com minhas músicas para ele ouvir, almejando que fossem lançadas pela Transmat. Ele me mandou voltar muitas vezes, dizendo que precisava aprimorá-las, modificá-las. Até o dia em que finalmente consegui que ele as lançasse.

Também como DJ, eu costumava coordenar meus próprios bookings naquela época. Eu devo ter ainda alguma lista de shows e cachês escrita a mão em algum lugar. Agora já se passaram 25 anos e as coisas funcionam de outra forma. Para começar, eu não trabalho mais numa loja de discos, tenho representação e management artísticos, além de um publicista. Deixei toda a parte de negócios com gente que é extremamente competente nessa área para poder me dedicar totalmente a minha paixão, a música.

Esta transição e outras semelhantes ocorreram no mercado como um todo. O ADE nasceu pequeno e o Techno praticamente era inexistente nos anos iniciais. Hoje em dia é provavelmente a conferência mais relevante para todas as vertentes da música eletrônica existentes. Ademais, os tempos mudaram para DJs e produtores, você precisa produzir se quiser tocar e acaba fazendo muito pouco dinheiro com vendas de música se comparado àqueles tempos, mas sem música você não toca. Um paradoxo realmente. E, além disso, há um excesso em todas as frentes, acompanhado de reduzido controle de qualidade, algo que se dava de forma muito diferente quando comecei. Ainda assim, sou muito grato por estar fazendo isto por tanto tempo, ter sido capaz de deixar minha marc na história do Techno, construir um legado não só para mim, mas para as gerações vindouras. Eu escrevi meu futuro naqueles dias e agora continuo escrevendo-o para os tempos que virão. Isto é algo que também recomendo a todo artista iniciante sempre que posso: você precisa estar 100% aplicado no que lança agora, já que isto vai lhe render frutos em 10 ou 20 anos.

Agora falemos da sua ligação com o Brasil. Em seu caso ela é bem sólida e aquela sua primeira apresentação na Circuito se situa entre alguns dos mais belos momentos da memória noturna de São Paulo. Você se recorda daquela ocasião? Metade da sua seleção foi uma primorosa viagem pela história do Electro desde os oitenta. Você ainda constrói sets assim?

Na verdade eu me recordo muito bem daquele dia e ainda cito ele como um dos pontos altos da minha carreira. Chegamos lá virados de outro show e nos deparamos com esse lugar lindo na natureza, à beira de um lago, repleto de amantes da música que chegaram dispostos a dançar sem parar. Eu toquei dois sets distintos ali, na verdade, primeiro Electro e depois Techno, algo que não consigo simplesmente fazer em qualquer lugar. Todo mundo foi de mente aberta e dançou com as mãos para o alto a tudo que toquei. Essa liberdade total de tocar o que eu quiser infelizmente não se faz presente em qualquer lugar.

Alguns clubes, cidades, países estão mais abertos para isso, outros não estão completamente. Se eu fizesse isso aleatoriamente por qualquer parte, temo que alguns públicos iriam me vaiar impiedosamente, já que tudo se origina da conexão com o público e encontrar os momentos certos onde aquela liberdade se torna possível. Ser um DJ envolve muita pressão - você quer fazê-los felizes mas não quer agradá-los em demasia. Eu preciso ser capaz de me manter próximo a mim mesmo, senão eu sairia devastado de minhas gigs. Sou feliz em poder viajar o mundo todo e sentir mudanças e transições que me desafiam de diferentes modos como artista.

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Esse conceito é inegavelmente incorporado em muito do que se refere ao Sterac Electronics e permeia o álbum todo que acaba de lançar. Você adotou uma abordagem similar nele em termos de tentar replicar técnicas e usar alguns dos equipos daqueles dias ou foi mais uma questão de criar sua própria interpretação desses sons desde o início?

O meu som com o Sterac Electronics sempre foi sempre esteve vivo, mas eu fiquei sem lançar sob esse pseudônimo por um bom tempo. Lá pelos meados dos 2000, quando toda aquela mudança musical ocorreu, eu lutei muito com minha identidade musical como DJ e produtor, já que eu não queria seguir tendências, eu precisava satisfazer a mim mesmo de qualquer forma. Essa foi a época em que fiz a maior parte das faixas desse álbum. No decorrer dos anos, aqui e acolá, fiz uma faixa naquela estilo novamente e, no final, deixei-as num canto. Quando o Tom Trago as ouviu há alguns anos, ele gamu imediatamente. O lance com essas faixas é que elas são atemporais e permaneceram relevantes. Isto é que sempre procuro buscar com toda música que faço e é o diferencial que mantém meu perfil em evidência até hoje. Então, ano passado ele entrou em contato novamente e perguntou: “ei que tal lançarmos um álbum pela Voyage Direct?” Essa paixão dele me convenceu, já que senti estar dandoas faixas para um devotado amante da música.

Não armei uma grande turnê ao redor dele intencionalmente, limitando tudo a alguns shows escolhidos a dedo, pois gosto de manter essa alcunha como algo mais exclusivo. É um álbum conceitual que se refere à música, pura e simplesmente, não havendo uma ideia comercial por trás dele. Quanto ao equipamento que usei nele, eu utilizo todas as minhas ferramentas antigas até hoje, brincando e revezando, não importando o estilo dentro qual esteja criando. Eu de fato produzo mais em plataformas digitais hoje em dia, mas isto tem muito mais a ver com o calendário atribulado de datas e a necessidade de produzir na estrada ou quando preguiça de sair do meu pijama para entrar em estúdio. Contudo, a faixa final sempre é mixada ali. Neste álbum você consegue ouvir com clareza minhas influências oitentistas, mas não só nele. Um ouvinte cuidadoso pode notar minhas raízes em meu estilo de produção, em tudo que ponho minhas mãos ou ouvidos.

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Ainda um pouco no tema dos recursos e como são utilizados, você sempre foi um profícuo usuário de sintetizadores, mas não necessariamente um ardoroso defensor de seu uso como parece ser popular ultimamente. É algo curioso para você olhar para o tipo de idolatria que envolve as ferramentas que se tornou popular hoje em dia, especialmente modulares?

Não são apenas os sintetizadores, mas também as baterias eletrônicas, os efeitos e muito mais. E não os uso para provar algo, não estou tentando parecer descolado. Esta é uma verdadeira paixão minha, sendo que minhas raízes nos oitenta e meu treinamento auditivo recebi nos estúdios profissionais em que passei minha juventude e que me trouxeram ao setup que tenho hoje. Não gostari que fosse de outra maneira e, claro, fiquei um pouco viciado nisso tudo, ainda tenho aquela comichão: quero ter este e aquele.

Eu sou um colecionador de equipos que realmente usa tudo em determinado estágio, então não é somente sobre a posse das coisas. Quanto à onda dos modulares, acho legal em certo sentido, mas não é para mim, já que preciso ter minhas mãos manuseando todos aqueles botões. A produção em modular implica num processo completamente distinto de pensar, no qual sequer acho que consiga me inserir. Eu vejo modulares como blocos de construção para construir um sintetizador, como se fosse um Lego. Eu prefiro ter um produto finalizado para brincar ou então me perco montando sintetizadores ao invés de tocar e não é aqui que meu interesse reside.

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Claramente vocais pouco aparecem em quaisquer de seus trabalhos e a título de curiosidade referente a sua obra: samplers são algo que você quase nunca utiliza em seu processo criativo ou isto é uma impressão errônea?

Samplers nunca foram a minha, mas são máquinas incontestavelmente fantásticas. Para as bases eu sempre prefiro as fontes originais a samplear. Por quê? Se você começar mixando um kick de 909 ou um sampleado numa mesa, vai imediatamente notar que há mais espaço para mixar na fonte original. Com samples eu sempre senti a limitação no espectro sonoro, junto ao fato de que todos os samples são apenas repetições e um kick de 909 está de fato vivo pois é gerado a partir de componentes eletrônicos que possuem falhas. Estas, por sua vez, criam essa sensação única de que nenhum kick é igual ao outro.

Como alguém que se utiliza de uma variedade de alcunhas e transita livremente (e elegantemente) através de cenas e sons, selos e gêneros: isto fica confuso às vezes? Sei que os disfarces são algo que visa lhe prover liberdade para criar e não ser estereotipado, mas eles vêm antes ou depois de uma faixa ser concebida? O mesmo ocorre com um álbum ou um projeto mais elaborado, como o que acaba de lançar?

Ah, não é confuso para mim, mas sim para as pessoas, hahaha. Antigamente, as diferentes alcunhas advieram da necessidade de assinar diferentes projetos com diferentes selos, já que eles pediam exclusividade e eu não queria me prender a uma única plataforma. En†nao o que fiz foi assinalar estilos distintos a cada pseudônimo. Mais recentemente decidi me concentrar em alguns deles, também por conta daquela exclusividade não ser mais exigida. Ademais, alguns deles eram muito próximos em termos de sonoridade. Hoje em dia você vai ver minhas produções sendo lançadas predominantemente sob o meu nome próprio, Sterac ou Sterac Electronics.

Em algum momento farei um álbum como Parallel 9 também. Isso tudo é apenas resultado da minha inspiração e escoadouros, pois não creio que vá me entediar jamais dessa forma: tudo isso sou eu mesmo! Nunca sei de antemão o que vai sair, entro no estúdio e produzo e às vezes os mais inesperados resultados saem disso. Eu também adoro saber que posso fazer muito mais e ainda é um sonho meu ter uma sessão com um vocal como o do Justin Timberlake.

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Já que citamos selos e cenas, algo que sempre apareceu como um dos principais trunfos da cena holandesa é a coesão através de famílias, grupos bem unidos como a Rush Hours, o Trouw, Dekmantel, Bunker, Kindred Spirits, Clone e muitos outros parecem ser o cerne de sua vivacidade. Ainda assim, sua carreira parece ter se feito como uma exceção a essa dinâmica no sentido de que seu trabalho sempre aparece numa variedade deles, mas raramente reaparece. Como isto se dá?

Você cita de fato algumas famílias bem fortes e eu sempre tive um contato íntimo com todas elas, tocando para ou com algumas delas e lançando minhas produções por uma ou outra. Mas eu segui meu próprio percurso durante a minha carreira e nunca quis ser parte de nenhuma panela ou grupo em geral. Meu alcance é internacional e sempre foi, além de que sou independente e tenho minhas próprias ideias, podendo levá-las a cabo eu mesmo. Mesmo assim, acho extremamente importante que as pessoas trabalhem juntas e se ajudem e eu mesmo faço isso sempre que posso, ainda que um pouco mais nos bastidores. Fiquei desapontado em ver como uma geração inteira de produtores holandeses chegou ao auge num momento para depois desaparecer. Achei que não teve laço familiar algum envolvido ali, o que particularmente não os ajudou a sobreviver no longo prazo. Fico feliz de ver esses caras que você menciona fazerem as coisas de um modo diferente e estou seguro de que permanecerão no panorama por um bom tempo, mesmo porque eles prezam a qualidade além de qualquer comprometimento.

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Outra coisa que sempre chamou a atenção desde o início com referência à estética geral dos seus projetos, além das alcunhas, são os nomes das faixas de algumas faixas. Elas sempre parecem evocar algo futurista e mítico, onírico e distópico ao mesmo tempo. Qual sua inspiração usual para eles e em qual estágio do processo criativo eles surgem?

Títulos de faixas nunca foram algo que eu realmente curtisse. As pessoas procuram histórias e significados mais profundos em tudo isso, mas deixe-me acabar com isso aqui mesmo: eu luto muito com nomes. Então coleto palavras divertidas e anoto numa lista enquanto viajo ou as relaciono ao equipo que usei, outra vez fiz uma coleção de palavras legais do dicionário de esperanto e latino e muitas vezes eu retorno a essas listas. Às vezes eu vejo algo fantástico numa série ou filme de ficção científica e guardo. É isso!

Após o álbum e esta turnê pela vizinhança, quais são os próximos passos para alguém que sempre pareceu tão incansável? E, se puder dividir com os novatos, qual o segredo para esse frescor sempre renovado em seu trabalho?

Não sei se incansável é a palavra correta. Eu sou mais o tipo que curte relaxar, mas isso não vem a calhar se você quiser se manter no jogo, certo?

Eu tenho uma batelada de faixas que estão quase prontas para serem lançadas no formato de um álbum. Não me pergunte quando, eu vou fazendo do meu jeito, no meu passo. Eu também entrei em estúdio com o Advent e temos agora muita música para ser finalizada - creio que muitos ficarão empolgados para que este saia. Neste momento dei uma pausa nos remixes e estou com os dedos coçando sobre o equipo, fazendo música e extravasando todas as ideias que tenho. TIve essa comichão por todo o verão e agora que a temporada em Ibiza chegou ao fim e o ADE acaba de terminar, estou fazendo música dia e noite. Em matéria de turnês. Você vai poder me ouvir na América do Norte e do Sul, Austrália e por toda a União Europeia, claro. Vou tirar Janeiro de férias como sempre faço, para me recompor e fazer mais música.

No que tange ao frescor, meus gostos musicais são bem variados e meu conhecimento é bem amplo. Minha mente sempre esteve aberta e eu constantemente aprendo e aplico minha inspiração retirada de diversas fontes. Mas, como disse, sempre me certifico de que a música seja duradoura e não sustentada por modismos. Isto é essencial, eu não olho para o que está voga ou o que qualquer outro artista de Techno anda fazendo. Eu faço o que quero e permaneço leal a meus próprios parâmetros. Esse é o único conselho que poderia dar para qualquer músico iniciante em geral.

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas, daquelas músicas que tocam a alma e de tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Bebe pra caralho. Gosta de experiências. Grato pela vida.

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