#TechnoRules: entrevista e set exclusivo do ˆL_ na Dopamine

ˆL_ é Luis Fernando — ou l control, caso você tenha se perguntado como você poderia pronunciar os caracteres. Brasiliense do techno e da música eletrônica experimental que acabou de voltar para o Brasil de uma turnê proporcionada pelo selo Antime, que lançou em fevereiro o seu álbum The Outsider — "uma experiência de salvação" segundo a revista Ravers. Este é o seu segundo álbum após Love Is Hell, de 2014, que foi igualmente pessoal e um tanto mais experimental. ˆL_ nos cede agora um incrível set exclusivo pro nosso podcast e conta pra gente um pouco sobre o seu som e seu período na Europa.



Você lançou há muito pouco o seu álbum The Outsider e os títulos das faixas me parecem bem pessoais, muito além de querer agradar uma quantidade X de pessoas. Confirma?

Sim! Todas as minhas faixas são extremamente pessoais, mas nem sempre expostas para quem escuta. Alguns temas são tão intimistas que prefiro guardar somente para mim. Mas posso dizer, sem dúvida alguma, que se trata de um processo complexo. Sempre fui um cara com muita raiva de tudo; raiva que, no fundo, poderia ser um tipo de tristeza e esse tipo de conflito sempre foi combustível para compor.

Quais são as principais mensagens de “The Outsider”?

Todas as faixas giram em torno de isolamento, deslocamento e principalmente niilismo. The Outsider é um disco que te diz para tacar o "foda-se", mesmo que gere uma certa reflexão, por mais contraditória que pareça. Hoje em dia, vivemos em um mundo completamente alienado e dominado pelo cinismo. Eu sou um fruto desse mundo: cínico e alienado. Sou um grande fã de escritores como Thomas Pynchon e David Foster Wallace — a voz na faixa que leva o título do disco. O texto que foi sampleado na faixa diz exatamente o que significa o álbum, vírgula por virgula.



Você está preparando mais algo pros próximos meses?

Eu tenho, aproximadamente, umas 30 faixas. Ainda não estão 100% finalizadas, mas bastante encaminhadas. Mas o meu objetivo, por enquanto, é promover o disco. Talvez saia alguma faixa pela Antime até o fim do ano, quando eles produzirem a sua compilação de fim de ano. Honestamente, não tenho pensado muito nisso, mas se a Antime pedir, eles vão ter.

A gente percebeu algumas homenagens ao acid house e ao hardcore no seu set, você tem uma alma old school?

Hum, nunca parei pra pensar nisso...



Quais são suas principais referências e como a sua temporada pela Europa com a Antime influenciou no seu som?

Aphex Twin e todos artistas da Warp, Plastikman, Legowelt, Surgeon são grandes referências. Dos artistas "atuais", Stephan Bodzin, Maceo Plex, Xhin, Nicole Moudaber, artistas da Drumcode... é complicado citar nomes, pois sempre surgem outros e acabamos esquecendo de citar alguém.

Sobre a minha temporada na Alemanha: fiquei mais tempo em Berlim, mas toquei em Hamburgo, Leipzig, Ausburg e Landshut, na Bavária. A minha "residência" foi mesmo em Berlim, e Berlim mudou a minha forma de enxergar não só a música, mas tudo relacionado a cultura em geral. É uma experiência que recomendo a todo mundo. A cidade respira música eletrônica — lembro de pegar um táxi e o motorista estar ouvindo uma mixtape de acid house... a coisa era assim, simples. Museus, concertos da filarmônica, cultura muito mais acessível e perto do cidadão. Lá ela cresce com você. É só vivendo, não adianta explicar.

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Ainda sobre o seu set, como você pensa toda essa atmosfera? Você usa também alguns aparatos analógicos?

Faço tudo de improviso, na hora mesmo. Vou tocando e trabalhando nas texturas e beats. Não tem um roteiro, é tudo improvisado. Gosto assim, gosto dessa coisa espontânea. Nesse live, de analógico usei apenas uma 303 da Roland. No mais, usei controladores (Akai, Korg e duas da Native).

Existe cena pro seu estilo de som aqui no Brasil? Pelo menos em São Paulo, a principal capital eletrônica, e em Brasília, onde você está morando?

Conheço poucos lugares, mais por minha culpa mesmo. Citaria a Techno Route, em São Paulo. Em Brasília tem o 5uinto e as festas do coletivo Crazy Cake Crew. Aqui em Brasília está rolando a revitalização do subsolo do Teatro Dulcina — provavelmente um dos lugares mais underground da história da cidade. Isso é algo que enxergo com bons olhos. Muito promissor.



Vimos fotos suas tocando em lugares incríveis lá na Alemanha, tipo essas da cadeia (abaixo). Eles parecem levar essa onda a sério. Como funcionam as coisas por lá?

Toquei nos locais mais absurdos possíveis. As pessoas vão pela música, vão para dançar. Não tem segurança mal-encarado na porta, simplesmente por não precisar de segurança; as pessoas são pacíficas. Elas te prestigiam, conversam com você após os sets e coisas do tipo. Toquei em Hamburgo uma semana antes do Actress tocar, no mesmo lugar, dividindo o flyer mensal da casa. O dono do pub, um senhor nos seus 50/60 anos, dançava que nem jovem e de forma contagiante.

O show em Landshut, o tal show na prisão, foi uma das maiores experiências da minha vida. Nunca imaginei que tocaria em uma prisão de cinco andares transformada em club. Preservaram as celas, os corredores, o clima underground e decadente e deixaram tudo como se fosse um filme. Lá eu sentei a mão com um set em 135bpm para uma pista cheia. Foi o melhor show de toda a turnê, o único gravado e Landshut foi a cidade mais linda que conheci.

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Confira o set exclusivo do ˆL_ na Dopamine Sessions desta semana, clique aqui.

Clique aqui para ouvir The Outsider no Spotify, e aqui para comprar o álbum.

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas, daquelas músicas que tocam a alma e de tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Bebe pra caralho. Gosta de experiências. Grato pela vida.

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