A treta do Ultra Brasil contada com fatos e memes

Na última semana, os Ultranautas viveram momentos de tensão e incertezas sobre a definição do local de realização do festival. Os órgãos públicos, faltando duas semanas para o evento, resolveram mostrar suas garras e, junto com a mídia preconceituosa, fizeram de tudo para destruir o nosso sonho de ter esta edição do UMF em terras cariocas. Mas no final, a nação dos fritos (e dos sóbrios também) venceu: vai ter Ultra sim e vai ser em terra de samba!

Agora vamos voltar tudo e contar essa história desde o começo. Já adianto, a trama é longa, mas assim como uma série original do Netflix, é muito interessante - tem várias reviravoltas, surpresas, revelações e 7x1s dignos de Game Of Thrones e House Of Cards. Vamos lá?

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O Ultra Brasil seria perfeito se fosse no Parque do Flamengo

Em março desse ano, o festival anunciou que esse complexo de lazer gigantesco chamado Parque do Flamengo seria a nossa Miami brasileira. E tinha tudo a ver; a bela paisagem da Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar ao fundo, a atmosfera tropical do Rio de Janeiro, os luxuosos iates embarcados na Marina da Glória e todo o belo campo verde com aquela brisa gostosa que vem do mar - em resumo, praticamente uma réplica do Bayfront Park. É um local foda.

untitled-design-5-min Na esquerda, o Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, e na direita, o Bayfront Park, em Miami.

Mas aí que chega um tal de Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para melar tudo. O órgão negou a licença do festival em junho, alegando que "o espaço é tombado e não comportaria a quantidade de gente esperada".



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Não entraremos no mérito de que o Parque do Flamengo tem 1 200 000 metros quadrados, que é o equivalente a 6,5 campos do Maracanã e 3 Parques Anhembi (SP), e que nesse espaço todo há sim alguma área legal para um festival deste porte.

O mais absurdo é saber que um mês depois do veto, aconteceu no mesmo espaço tombado o Rio Parada Funk - um evento com 13 palcos e cerca de 400 mil pessoas. Uns meses antes, no carnaval, o Bloco Sargento Pimenta reuniu 180 mil foliões no parque. Mas tudo bem, vida que segue.

2015021619221 Bloco Sargento Pimenta no Parque do Flamengo

A Quinta da Boa Vista era um ótimo plano B

Após exatamente um mês de silêncio total e indefinições, a produção do festival escolhe a Quinta da Boa Vista como nova casa. O anúncio vem por meio de um vídeo na página oficial do Ultra Brasil no Facebook. Os organizadores justificam dizendo que o motivo era "atender à enorme demanda por ingressos do público de todo o Brasil e do mundo".

Não colou. Os fãs não gostaram. Em meio a reclamações da Quinta não ter espaço suficiente, ser muito perigosa e mal localizada, o Ultra teve que enfrentar uma mini-crise. A gente entende os fãs. Qualquer mudança é chata. O Parque do Flamengo é legal, mas a Quinta da Boa Vista é bem interessante também, como já falamos aqui nesse ótimo texto, que rebate todas as principais críticas.

No final, a galera aceitou. E voltamos a ficar empolgados e ansiosos com o festival. Contudo, mal retornamos nossa atenção para os artistas e os anúncios do line-up quando, faltando 15 dias para o evento e com os palcos já sendo montados, a colunista do O Globo, Maria Fortuna, solta a bomba: "Festa de música eletrônica na Quinta da Boa Vista é vetada pelo Iphan".

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Vai ter Ultra? Não vai Ter Ultra? Tira o casaco, coloca o casaco!

De novo, o Iphan alegou que "um evento desse porte é incompatível com o lugar" e acrescentou que "seriam prejudicadas a fauna, a flora, além do prédio do Museu Nacional e seu delicado acervo arqueológico, que ficariam expostos às vibrações do som".

De novo, o mesmo órgão que veta o Ultra Brasil permite 7 edições do Louvorzão da Rádio 93 - um festival gospel para 200 mil pessoas e mais de 20 atrações musicais, além da gravação do DVD da banda Sorriso Maroto e 8 edições do evento Estação Rio no mesmo local.

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O mais estranho é o órgão ter se pronunciado faltando menos de 15 dias para o Ultra Brasil, sabendo que a Quinta da Boa Vista já havia sido anunciada há 3 meses. O que a gente conclui de tudo isso é: ou está havendo um preconceito muito grande contra a música eletrônica, ou é mais um episódio de politicagem que corre solto no Rio de Janeiro, ou os dois.

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Em seguida, no dia 03/10, somos surpreendidos com a notícia de que a Prefeitura, motivada pelo posicionamento contrário do Iphan, havia embargado a montagem da estrutura. A Seop (Secretaria municipal de Ordem Pública) afirmou que o Ultra Brasil não tinha "nenhuma autorização" para a realização do evento. A organização do festival negou e disse que a própria Seop já havia dado uma concessão em consulta prévia para a realização de uma versão menor do evento.

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Em meio a esse imbróglio político-jurídico, o Ultra Brasil emite um comunicado oficial em sua página confirmando a realização do festival na Quinta da Boa Vista.

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Ciente de que o Ultra Brasil continuava a montar seus palcos na Quinta, o MPF (Ministério Público Federal) moveu uma ação pedindo para que "os organizadores sejam impedidos de organizar, apoiar e realizar o evento sem a indispensável autorização do Iphan", sujeitos a aplicação de multas diárias.

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O pepino aumentou quando o Ibama se colocou no meio, alegando que, segundo O Globo, "a intensidade da música pode provocar estresse e levar a morte de diversos animais abrigados no parque". O órgão pediu para suspender os trabalhos de montagem das estruturas, definindo uma multa de até 1 milhão de temers.

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E tudo acaba em samba

Depois de muitas incertezas e decepções, o Ultra define o terceiro local de realização do festival: o Sambódromo do Rio de Janeiro. E assim como a Quinta da Boa Vista, a Marquês de Sapucaí foi criticada por alguns fãs que questionam a questão da falta de segurança, a "feiura" do local e o aparente espaço apertado.

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A gente poderia fazer outro textão explicando que o Sambódromo simplesmente recebe um dos maiores espetáculos da Terra e não tem nada de feio. E que também, além de ter infraestrutura compatível, está acostumando a receber grandes eventos internacionais, inclusive com esquemas de segurança e de transporte. Mas nesse caso, é oportuno tacar o bom e velho "foda-se" e, a poucos dias do Ultra Brasil, dizer que o que realmente importa é que vai ter Ultra e vamos curtir muito.

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A "mega rave" vs órgãos públicos, imprensa, moradores e sociedade

Embora encerrada, essa treta toda não está 100% esclarecida, o que abre suspeitas de decisões e ações motivadas por interesses políticos. Alguns fãs podem ter razão em criticar a produção por amadorismo ou desorganização, mas também sabemos que é real e histórica a maneira intolerante com que órgãos públicos, mídia e sociedade tratam eventos de música eletrônica no país.

O MPF, em seu documento oficial , refere-se ao Ultra Brasil como "uma mega festa rave, feita para dezenas de milhares de pessoas". O Jornal Extra também manteve essa linguagem em suas matérias, e assim como outros jornais, jogou muita lenha na fogueira.

capture Ação civil pública contra a realização do Ultra Brasil na Quinta da Boa Vista.

A galera da música eletrônica sabe que esses termos são propositais e sensacionalistas, e sempre me faz lembrar desse vídeo esdrúxulo. E não é de hoje que a grande mídia trata a música eletrônica como sendo som de drogado, e quando resolve se meter no assunto, é sempre com negativismo, replicando o discurso proibicionista do Estado. A gente já falou muito disso aqui e aqui, e foi o que o Claudio, um dos organizadores do Ultra Brasil, enfatizou nessa declaração ao site da Veja Rio:

As pessoas confundem música eletrônica com festa rave, que tem o estigma de drogas e bagunça. Mas o rock, o samba é até o funk também já sofreram com esse preconceito. Houve uma perseguição, eu creio. Esse embate com o Iphan se deu por questões muito subjetivas, sem espaço para conversa. Mas o importante é que o festival aconteça.Claudio da Rocha Miranda Filho, diretor da MM Live - que detém a concessão do Ultra no Brasil

Também não é de hoje que a sociedade comum olha torto para quem frequenta raves e festivais de música eletrônica. Saca só a maneira forçada com que os moradores de São Cristóvão tratam a questão:

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Apesar disso, entendo que seja super válido que essas pessoas se posicionem contra a realização do festival. Ninguém quer ser incomodado com som alto e multidão em suas áreas residenciais. Mas será que não caberia espaço para um diálogo? Uma empatia para ouvir o outro lado e chegar em um denominador comum?

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Senta aqui Iphan, vamos conversar...

Vamos falar sobre essa relação conflituosa entre o Iphan e o Ultra Brasil. Mas antes, cabe ressaltar que não tivemos acesso ao parecer técnico do Iphan comprovando que as altas frequências e vibrações decorrentes dos sistema de som danificariam o acervo do Museu Nacional (localizado dentro da Quinta da Boa Vista), além da sua fauna/flora. Como também não sabemos exatamente de que forma os organizadores do festival pretendiam contornar essas objeções.

O que sabemos é que, de acordo com o G1, a organização do Ultra Brasil "emitiu uma nota afirmando que foi feito um estudo de impacto sonoro em toda a Quinta da Boa Vista e os especialistas garantiram que 'se o som chegar ao Zoológico, será um som ambiente' e que, segundo eles, é 'incapaz de causar estresse ou outros danos à saúde dos animais'".

14559985_10154177046763999_2802623992102254654_o Mapa divulgado pela produção do Ultra Brasil quando a Quinta da Boa Vista ainda estava confirmada.

O G1 também diz que o Ultra se reuniu com a administração do Zoo para "garantir todas as medidas necessárias à preservação da saúde dos animais". Os organizadores do festival ainda ressaltaram que essa teria sido "a primeira vez, nos últimos anos, que a organização de um evento musical demonstrou esse tipo de preocupação".

Estando o Ultra Brasil certo ou errado, o que importa é que os organizadores demonstram boa vontade em se aproximar dos órgãos públicos e estabelecer um diálogo. Como questiona Franklin Costa, nesse ótimo texto do Projeto Pulso: "ao invés de simplesmente proibir, por que não propor aos organizadores um plano de recuperação do parque, abandonado há anos?".

O texto ainda cita como exemplo a bela relação que a secretaria de cultura e prefeitura de Barcelona tem com seus dois principais festivais - Sónar e Primavera Sound - que são realizados próximos ou dentro de construções histórico-culturais, como o Museu de Arte Moderna de Barcelona e o Museu de Arte Nacional da Catalunha. Se lá pode, por que aqui não pode?

O Sónar e o Primavera são exemplos de como uma cidade pode crescer quando o setor público e a iniciativa privada estão dispostos a conversar. Esta relação já passa dos 20 anos e a cultura, turismo e economia de Barcelona são prova viva de que - sim - é sempre melhor o diálogo que a censura.Franklin Costa, do Projeto Pulso
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