Vale dos Homossexuais: de uma simples zoeira a um point dos festivais de música eletrônica

Se tem coisa que o Brasil sabe fazer direito são os memes. Para um país já acostumado a trafegar entre dois extremos nas redes sociais — a zoeira absoluta ou os problemas do cotidiano — tudo pode se tornar meme. Um cara berrando "para nossa alegria" vira meme. Uma mulher dormindo de um jeito desengonçado numa poltrona vira meme. Histórias contadas no YouTube através de bonecos do The Sims viram meme. Apesar dos pesares, o BR é um lugar lindo pra se viver e eu honestamente não lembro ao certo como era a vida antes da conexão banda-larga.

O meme que vamos relembrar hoje é a raiz do contexto da história toda: a ilustre Yonara Santo, pastora evangélica que protagonizou há alguns anos, ao microfone e em cima do altar, um depoimento um tanto histriônico sobre suas 15 viagens ao inferno. Lá embaixo, na casa do tinhoso, a pastora teria feito uma tour por todo aquele fogaréu e dado de cara com o que ela chama de Vale dos Homossexuais e Traficantes. O depoimento de Yonara foi gongado à exaustão, de vídeos amadores no YouTube a ~blasfêmias~ do Danilo Gentili em TV aberta. Yonara caiu nas mãos de quem, assim como eu, quer mais é rir de meme em vez de se ofender.

Na interpretação de Yonara, que tornou-se habitué do lugar — das quinze idas ao inferno, seis passeios deram um pulo neste "vale" — os gays e zé droguinhas que já faleceram estão no dito cujo, posicionados um de frente pro outro enquanto ardem em meio aos elevadíssimos graus celsius. "Todos aqueles que praticam o homossexualismo (sic) vão para o inferno. [...] Eles sabem que quem pratica tal coisa merece a morte", disse Yonara no vídeo que está eternizado aí em cima e que, por falha minha em encontrar o vídeo original nos redutos da world wide web, vai ter que ser essa montagem caseira mesmo, mesclando o depoimento da pastora com imagens "sócio-humorísticas".

A reação das bees desse Brasil às palavras de Yonara Santo não foi apenas cagar baldes e sair andando pro que não foi nem o primeiro nem o último bafafá evangélico anti-LGBT a brotar na Internet. No melhor estilo "se não for pra causar eu nem desço", abraçaram com muito orgulho o primeiro Vale dos Homossexuais pra chamar de seu e, atualmente, o Vale já é tão parte do vocabulário gay quanto "Dar a Elza", "Lacrou" ou "Manas CSI".

vale1 O que não se podia esperar a partir daí era que toda essa mística do Vale dos Homossexuais seria transportada espontaneamente para o universo dos festivais de música eletrônica em território brasileiro, em especial os festivais mais de arena: Ultra Brasil, Tomorrowland Brasil, EDC Brasil, Xxxperience, entre outros.

Enquanto a celebração acontece ao som dos big DJs, o ponto de encontro tradicional do Vale pode reunir dezenas e até centenas de pessoas. "Após o Tomorrowland 2015, foi a vez do EDC; foi combinado nos grupos do Facebook que o lado direito seria o Vale e, após esses dois eventos, ficou automático o entendimento de que o lado direito seria o ponto fixo do Vale", comentou Allan Mourão, participante assíduo da cultura EDM, que completou: "um show bem marcante foi o do Aoki no EDC, talvez o momento mais frito do Vale, mesmo debaixo de chuva".

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Allan Mourão // Foto: arquivo pessoal

Até mais ou menos metade do ano passado, grupos no Facebook sobre grandes festivais internacionais vindo ao Brasil eram muito populares — alguns contavam com mais de 20 mil membros — e tinham alto índice de engajamento. Foi dessa mistura de ansiedade coletiva pros festivais com a vontade genuína de tirar gostosas gargalhadas que os murais dos grupos ficaram bem mais coloridos do que o comum. O Vale dos Homossexuais virou um point anunciado e muito comentado nesses murais, até mesmo nas imagens dos mapas dos festivais. É a parada gay dentro de um festival eletrônico.

Conversando com Bruno Bellato, frequentador de festivais de música eletrônica no Brasil e, claro, portador da carteirinha de membership do Vale (brinks) percebemos que só agora o Vale se chama Vale, mas os cantinhos mais amigáveis para os gays nas festas eletrônicas já existem há muito tempo. "Lembro das festas ainda não tão famosas aqui no Brasil, nos palcos alternativos das raves de psy-trance ou até mesmo na extinta Skol Sensation, todas já tinham um local especial para um gay permanecer mais à vontade", disse Bruno.

Sarrando, Bruno Bellato. Na frente, Viktor Raphael.

Pra que o Vale nascesse, além do empurrãozinho da nossa querida Yonara, o que mudou de lá pra cá foram duas coisas: a consolidação da Internet como um meio de comunicação mais presente nos lares brasileiros e o progresso na mentalidade de uma parte da nova geração sobre questões de gênero e orientação sexual, mesmo que no meio mais comercial da música eletrônica existam níveis de preconceito e intolerância praticamente desconhecidos no underground.

Não estou esquecendo, claro, dos ainda muito cruéis ataques físicos e/ou verbais aos LGBT que acontecem todo dia em um país tão heteronormativo e conservador como o nosso, mas é que, agora, nunca foi tão fácil — mérito de todos que lutaram e ainda lutam pela causa — dizer que é do Vale sim e que vai ser viado pra sempre sim e que vai curtir o calor de um set do Sunnery James & Ryan Marciano com as amigues todas no lado direito da pista do main stage. Se reclamar, vai ter glitter, vai ter coreografia, vai ter colocação e no fim de tudo ainda sobra espaço pra uma chuva de memes da Gretchen e da Inês Brasil permeando os grupos do Facebook.

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"Sem dúvidas, de uns quatro anos para cá, após a cultura PLUR ter sido popularizada em grandes festivais pelo mundo, o público da música eletrônica está mais aberto e receptivo. Não precisamos mais nos reprimir em dar um beijo, trocar um carinho, ou flertar com outras pessoas do mesmo sexo. A liberdade que se tem hoje deixa todos bem mais à vontade."Bruno Bellato, DJ, que conheceu seu namorado Victor no EDC Brasil, em 2015
Provavelmente ali na mesma região da ~extrema direita do main stage~ onde o Bruno está, alguns passos à frente imaginamos o Diego Nascimento, que confirma: "gays procuram estar com gays pois ficam livres de julgamentos. Querendo ou não, existe a questão do preconceito, então é sempre bom estarmos unidos."

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Diego Nascimento

Pode parecer piada que os gays precisem reivindicar seu espaço em um cenário como o da música eletrônica pois, como quase todos já devem saber, os gays ajudaram a conceber a disco music — que mais tarde deu lugar à house music — e muitas minorias sempre estiveram conectadas à música eletrônica. Toda a herança musical que temos hoje teve participação direta dos gays, mas esta herança, como praticamente tudo na humanidade, foi apropriada com o tempo e tirada do foco.

É maneiro perceber que o depoimento homofóbico da pastora Yonara acabou se transformando em algo divertido dentro de festivais de música eletrônica. É total a sinopse de "o mundo dá voltas". A comunidade LGBT transforma limões em limonada e, nos dias de hoje, apesar dos debates de que esta comunidade está em desunião, talvez seja exatamente o contrário.

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Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas, daquelas músicas que tocam a alma e de tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Bebe pra caralho. Gosta de experiências. Grato pela vida.

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