[REVIEW] O novo filme da Netflix é essencial para fãs de festivais EDM

É uma emergência! Derrubaram o bolo do Aoki.A tia do backstage

Como não amar um filme que conta uma piada dessas?

Na última sexta (26), o queridíssimo Netflix lançou um filme que pode encher os olhos de quem faz parte da EDM de alguma forma, especialmente pra quem participa de um ou vários dos grandes festivais de música eletrônica que temos nesse mundo ou pra quem é DJ e está aí na luta diária pra atingir o famigerado sucesso. Se você ainda não assistiu XOXO, fuja daqui — mas salve o link. Veja o filme primeiro pra depois ler isto aqui, pois um caminhão cheio de SPOILERS está passando na sua tela!



Não é a primeira vez que grandes executivos da indústria cinematográfica investem em uma produção sobre a atual cultura eletrônica mainstream. Em outubro do ano passado, Zac Efron deu vida ao protagonista de We Are Your Friends, aquele filme que se você já não conhece porque assistiu, provavelmente conhece por ter se tornado literalmente o filme cuja estreia foi a terceira menos lucrativa da motherfucking história. Não que o filme seja uma bosta completa — é bem agradável de assistir — mas no fim das contas, quem aqui consegue se identificar de verdade com a cena noturna de Los Angeles, retratada por gente chata na boate, gente chata na indústria, gente chata no elenco, gente chata praticamente em todo lugar?

Não, não! Aqui no Brasil a gente faz farra, a gente junta as economias pra encarar um festival na cara, na coragem e muitas vezes no perrengue, e enquanto We Are Your Friends é uma jornada individual do DJ EDM pela glamourosa noite americana, XOXO é feito pra você e sobre você, e na medida em que você o assiste, você percebe todas as homenagens à vida de farofeiro EDM que você tanto ama. E se você não curte EDM e viu o filme só pra argumentar mais uma vez contra a “cultura vazia, burra e comercial da EDM”, parabéns também, pois VOCÊ ESTÁ NESTE FILME:

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O cara que está meio bolado com a cultura EDM é apenas um dos personagens que aparecem neste filme e o grande acerto de XOXO é fazer com que a gente se sinta dentro do festival em todos os momentos, desde as filas da entrada até o último show da noite. Assistindo ao filme — que faz questão de mostrar o mapa do grandioso festival fictício também chamado XOXO — a gente se lembra imediatamente do que sentimos quando caminhamos sozinhos à noite por um festival cheio de gente, luzes e cores e com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.



A ideia de contar várias histórias que eventualmente se cruzam dá todo aquele ar de “ação” e energia de um festival, que é de fato o nosso mundo próprio, nosso canto sagrado, nossa casa temporária que na vida real também tem muitas histórias. Dá pra identificar em XOXO várias situações que podem ter acontecido com a gente nos festivais de hoje ou personagens que provavelmente já cruzaram o nosso caminho. Coloquei alguns aqui pra você. Tem até slides pra ficar mais didático.

XOXO - Memes

Com um festival fictício e personagens que mesmo muito estereotipados tão bem podem representar a realidade, a gente só pode imaginar que quem fez esse filme tem no mínimo os dois pés enfiados no rolê. O diretor de XOXO, Christopher Louie, tem uma longa história com a cena eletrônica, tendo participado ativamente das raves americanas do fim dos anos 90 e início dos 2000, como DJ e como público. Em entrevista à Billboard, ele disse: “Sempre foi minha intenção fazer um filme que defina o que é estar nessa cultura em 2016. Eu não sei como é agora; eu não tenho mais 18 anos e não vou mais em festivais, mas eu gosto de pensar que mesmo que isso tudo tenha saído de pequenos galpões abandonados para arenas enormes com 140 mil pessoas, o sentimento é o mesmo.”



É verdade, o sentimento é o mesmo. Ainda que nem mesmo a música seja a mesma de quase duas décadas atrás, a ideia de milhares de pessoas se juntando pra curtir uma rave ou festival de música eletrônica ainda possui os mesmos princípios que se tem hoje, comandados na cultura EDM pela ideologia PLUR (Paz, Amor, União e Respeito), que atualmente pros americanos é bastante colorida e inclui o ritual de trocar pulseiras kandi com os novos amigos — algo bem comum no EDC Las Vegas, evidentemente o festival de maior inspiração pro filme.



O diretor não fez questão alguma de tentar diminuir a impressão de que as drogas são parte de um festival EDM. Em XOXO, a exagerada onda de doce de um dos personagens, o Tariq, faz até homenagem a uma cena famosa de um dos filmes mais drogados ever, o Trainspotting, de 1996, onde o protagonista “entra” em uma privada. Na real, o diretor teve até problemas com isso, e muitos investidores em potencial recusaram o projeto. Louie contou à Billboard: “Eu nunca faria um filme sem drogas, e eu nunca o faria de um jeito diferente do que eu pretendia. Eu tentei conduzir o sistema a deixar-nos contar essa história de forma autêntica”. Bom, é como sempre dizemos, as drogas estão aí e não tem como ignorar.



Foque nas mensagens

As histórias de XOXO podem parecer um pouco vazias, mas se você prestar atenção, verá que na verdade são lições muito pontuais pra quem é jovem e tem toda uma vida pela frente. Afinal, o público comum dos festivais EDM tem entre 18 e 24 anos e é nessa fase da vida que a gente está metendo muito o loko ao mesmo tempo em que passa por grandes dúvidas e decisões, que podem ser desde “O que diabos eu vou fazer da vida?” a “E se nada der certo? O que vai acontecer comigo?”.

Por isso mesmo eu me identifiquei com a história da Shannie, a garota que foi ao XOXO no dia anterior ao que ia se mudar pra outra cidade e teve que criar forças pra encarar essa nova fase. Eu lembro que em 2012 eu era um caipira de 18 anos que tinha acabado de me mudar sozinho pro Rio de Janeiro e a minha auto-confiança em relação às questões da vida era tão cagada quanto a de Shannie, mas era justamente nos festivais que eu ia (em especial a Xxxperience, em Itu) que eu colocava a minha cabeça no lugar e renovava todo o meu “gás” pra encarar esse mundão.

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Uma das protagonistas do filme, a Krystal, carrega em si uma grande personagem. Muito doce, bela e milagrosamente sóbria para os padrões de XOXO, a inocência de Krystal misturada ao seu estilo “pé no chão” rendeu ótimos diálogos, como quando aconselhou o Tariq durante uma bad trip: “Eu acho que parte de virar adulto é aceitar que você não vai ter sempre a aprovação de todos”.

Um dos melhores momentos do filme também é com ela, enquanto conversa com o Anders — o dono do festival, que eu até brinco dizendo que é Deus, pois é um cara privado e misterioso que sempre brota do nada pra ter conversas sutis e reveladoras com os outros personagens. Krystal diz:

Você encara a vida sozinho. Todas as suas experiências, escolhas, sentimentos… tudo é feito por conta própria. Quando você se conecta com alguém, isso faz com que você saia de si mesmo, e depois compartilha esses momentos com outra pessoa, como um pôr-do-sol perfeito, ou um festival, ou um beijo. Isso é amor. Isso é tudo que eu sempre quis.Krystal (interpretada por Sarah Hyland, da série Modern Family)
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“Tudo que eu sempre quis” é inclusive a tradução pro nome da música-tema de XOXO, All I Ever Wanted, e dentro do enredo do filme, é esta a música que conecta seus personagens. Para eles, All I Ever Wanted é um hino EDM que transforma 20 mil pessoas em uma só frequência de energia, da mesma forma que na vida real nós nos conectamos com uma Sun is Shining da vida, uma In My Mind, uma Don’t You Worry Child. Um hino EDM, como já sabemos, é amor. Fora da ficção, a faixa foi feita pelo Michael Brun e, pra esclarecer o que eu já devia ter esclarecido, a trilha sonora do filme todo foi comandada por ninguém menos que Pete Tong — tem até Alok no meio.

Depois de muita doideira em XOXO, no fim das contas foi ~Deus~ quem disse as palavras de ouro que refletem todo o espírito da EDM e, consequentemente, todo o sentido do filme. Pra consolar o DJ Ethan Shaw, que havia acabado de arruinar sua própria apresentação no festival e de quebra tinha no seu colo uma grande decisão a tomar sobre sua carreira, Anders disse:

Você devia ir dançar. Eu acho que quando você for lá fora, muitas coisas ficarão claras pra você. Essa é a beleza disso tudo, cara. Eu criei este festival porque eu gosto de dançar. Dançar é importante.Anders (interpretado por Ian Anthony Dale)

Cataploft. É isso, pessoal. Só música salva e essa é basicamente a moral de XOXO. Você ainda é muito jovem, você não está na merda como imagina pois a vida é assim mesmo, cheia de desafios. Mas você está em um belíssimo festival. Então relaxa, pega no embalo, curte essa fase maravilhosa, ama os seus amigos, deixa o espírito da EDM entrar e, acima de tudo, vá dançar. Aproveita pra fazer isso enquanto ouve a trilha sonora oficial de XOXO, disponível no Spotify:

Rodrigo Airaf ¯\_(ツ)_/¯

Co-founder/Editor-chefe // Brasiliense de 23 anos. Nômade. Festivalouco. Festeiro. Fã máximo do Stephan Bodzin, do Above & Beyond, do Porter Robinson; daquele techno mais macumbeiro, daquele trance mais viajante, daquele house mais groovado, daquelas farofas bem enérgicas, daquelas músicas que tocam a alma e de tudo que for bom e diferente. Trocou de sobrenome. Ama os amigos. Fala alto. Bebe pra caralho. Gosta de experiências. Grato pela vida.

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